O Brasil talvez seja o único país onde o estelionato não acontece depois da eleição.
Ele acontece durante a campanha, é anunciado em praça pública, transmitido ao vivo, compartilhado nas redes — e ainda assim recebe voto, aplauso e defesa apaixonada.
Aqui, o estelionato eleitoral não é crime.
É tradição.
A promessa como produto, o eleitor como cúmplice
Todo ciclo eleitoral é o mesmo ritual:
promessas irreais, slogans genéricos, frases de impacto e soluções mágicas para problemas estruturais de décadas.
É o botijão de gás erguido em praça pública, como se inflação obedecesse a gesto simbólico.
É a picanha prometida, tratada como política pública.
É a escala 6 x 1, vendida como redenção nacional sem uma linha sequer sobre quem paga a conta.
São os auxílios intermináveis, anunciados como se dinheiro público brotasse do chão, sem custo, sem consequência.
E o brasileiro?
Compra.
Compra sabendo que não será entregue.
Compra reclamando das compras anteriores.
Compra dizendo “dessa vez é diferente”.
Não é ingenuidade.
É conivência emocional.
O político promete. O eleitor finge que acredita.
Prometem:
crescimento sem custo
direito sem conta
benefício sem imposto
Estado forte sem pagar a conta
moralidade instantânea
E ninguém pergunta o básico:
como? com que dinheiro? em quanto tempo?
Porque perguntar dá trabalho.
Acreditar dá conforto.
O eleitor não quer verdade. Quer narrativa.
A verdade é chata.
Ela fala de limites, números, escolhas difíceis.
A promessa é linda.
Ela fala de futuro fácil, culpa alheia e soluções rápidas.
O brasileiro médio não vota em projeto.
Vota em história bem contada.
Se a história vem com picanha no prato, gás barato na foto e auxílio no discurso, melhor ainda.
Se não cumprir depois, azar — a próxima eleição resolve.
O estelionato perfeito
O golpe é tão bem-feito que o eleitor defende o golpista.
Quando a promessa não é cumprida, a culpa é sempre:
da oposição
do Congresso
do mercado
da imprensa
do passado
do clima
do mundo
Nunca do sujeito que prometeu o impossível enquanto erguia um botijão de gás como troféu.
No Brasil, político que mente perde eleição.
Perde se mentir mal.
A repetição como método
O mais perverso não é a promessa falsa.
É a repetição.
O mesmo discurso reciclado, eleição após eleição, com novos rostos, mesmos símbolos, mesmas promessas requentadas: picanha, gás barato, direitos sem conta, benefícios eternos.
E o eleitor, como se tivesse memória seletiva, age como se nada tivesse acontecido antes.
Chama-se isso de amadurecimento democrático?
Não.
Chama-se dependência de esperança barata.
O brasileiro reclama… e repete
O brasileiro reclama do político como quem reclama do tempo:
fala mal, mas não acha que pode mudar.
Então aceita.
Tolera.
Justifica.
E vota de novo.
Não é que o político engane o povo.
É que o povo aceita ser enganado, desde que a promessa seja confortável, simbólica e emocionalmente satisfatória.
Conclusão indigesta
O estelionato eleitoral no Brasil só existe porque há demanda.
Enquanto o eleitor continuar preferindo fantasia a realidade, promessa a projeto, discurso a conta fechada, botijão erguido a política séria, o golpe seguirá legalizado pelo voto.
Político nenhum sobrevive sem eleitor.
Promessa nenhuma sobrevive sem quem queira acreditar.
No fim das contas, a fraude é coletiva.
E a fatura chega sempre depois — com juros, inflação, impostos e frustração.
Mas calma.
Daqui a quatro anos tem outra promessa.
Outro símbolo.
Outro discurso.
E, como sempre, dessa vez vai ser diferente.