Aos senhores que detêm o poder de apertar botões, assinar ordens, mover exércitos e redesenhar mapas,
Escrevo não como adversário, nem como analista político, mas como alguém que ainda acredita que o mundo não precisa ser um campo de testes para vaidades armadas.
Os senhores, que certamente têm família, filhos, pais, netos, histórias de infância e alguma memória de afeto, carregam hoje um tipo de poder que nenhuma geração anterior deveria ter possuído: o poder de, em um estalar de dedos, apagar cidades, silenciar culturas, interromper futuros e interromper a própria continuidade da vida como a conhecemos.
Antes de qualquer ordem, antes de qualquer bravata, antes de qualquer cálculo estratégico, peço apenas um gesto simples: olhem pela janela.
Se puderem, permitam-se contemplar algumas das belezas que este planeta, generoso, ainda nos oferece:
os Alpes Suíços e a Arena Tectônica de Sardona, onde o tempo escreveu sua própria geografia;
os fiordes da Noruega, que parecem fiapos de eternidade entre montanhas;
o Grand Canyon, onde a Terra expõe suas entranhas em silêncio milenar;
a Baía de Ha Long, onde a água e a pedra dialogam em poesia;
a Floresta Amazônica, pulmão e coração de um continente;
as areias claras de Anse Source d’Argent, nas Seychelles, onde o mundo ainda parece em paz consigo mesmo.
Se isso parecer distante demais, olhem algo mais simples:
um pôr do sol.
Ou a lua cheia quando decide brilhar sem pedir licença.
Essas cenas não pertencem a um país, a um regime, a uma bandeira.
Elas pertencem à humanidade — e também àqueles que ainda não nasceram.
Os senhores caminham por um caminho perigoso: o de tratar o planeta como tabuleiro e as pessoas como peças. Esquecem que a Terra não é cenário de guerra; é a nossa casa comum. E casas, quando destruídas, não oferecem abrigo nem para os vencedores.
A História é cruel com quem acredita que o poder justifica tudo. Ela registra nomes, mas preserva cicatrizes. Nenhum império sobreviveu à tentação de confundir força com razão. Nenhuma guerra saiu ilesa do julgamento tardio da memória coletiva.
Ainda há tempo.
Tempo de recuar, de negociar, de calar o ruído das armas para ouvir o silêncio da vida.
Tempo de lembrar que o poder não é apenas a capacidade de destruir, mas a rara oportunidade de escolher não fazê-lo.
Que os senhores se lembrem, antes do próximo comando, que governam sobre um mundo que não lhes pertence.
Pertence aos que vivem, aos que virão — e até àqueles que nunca terão voz para pedir que não apertem o botão.
Com a esperança teimosa de quem ainda acredita que a humanidade pode escolher a lucidez,
fica este apelo simples:
não destruam o que nunca foi de vocês.
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