A humanidade nunca teve tanto acesso à informação, à tecnologia e ao poder de transformação. E, ainda assim, nunca pareceu tão confusa sobre o básico: como ser humano com o outro. Daqui a 60 anos, é bem provável que vivamos cercados por máquinas capazes de prever doenças, criar obras de arte e tomar decisões complexas. A dúvida é se teremos gente com estrutura emocional suficiente para não transformar tudo isso em ferramenta de dominação, vaidade e indiferença.
O preparo psicológico da geração atual está sendo terceirizado para telas. Crianças aprendem a lidar com frustração sendo “poupadas” dela. Jovens aprendem a lidar com conflitos bloqueando, cancelando ou silenciando. Adultos confundem maturidade com cinismo. O resultado? Uma sociedade cada vez mais sensível à própria dor e cada vez mais indiferente à dor alheia.
Falamos em saúde mental como quem fala de moda. É bonito no discurso, rende engajamento, mas na prática seguimos glorificando o esgotamento, a produtividade tóxica e a competição predatória. Queremos pessoas “fortes”, mas criamos ambientes emocionalmente insalubres. Defendemos empatia, mas treinamos o olhar para enxergar o outro como obstáculo, concorrente ou inimigo simbólico.
A humanização virou slogan corporativo, pauta de marketing e frase de impacto em palestras. Na vida real, seguimos tratando pessoas como números, dados, perfis, estatísticas e “casos”. O sujeito deixa de ser alguém e vira função. O ser humano vira recurso. E depois nos perguntamos por que cresce a sensação de vazio, despersonalização e raiva difusa.
A lógica é simples e cruel: quem não performa, não existe; quem não engaja, não vale; quem não se adequa, é descartável. Estamos treinando uma geração para competir em tudo e cooperar em quase nada.
Daqui a 60 anos, se nada mudar, teremos cidades inteligentes cheias de pessoas emocionalmente despreparadas. Teremos tecnologias capazes de ampliar a vida, mas relações cada vez mais rasas. Teremos discursos sofisticados sobre diversidade, inclusão e humanidade… e práticas cada vez mais frias, utilitárias e desumanizadas.
O futuro não será um colapso repentino. Ele já está sendo construído agora, na normalização do desrespeito, na romantização da pressa, na banalização do outro. A conta chega sempre em forma de solidão coletiva, radicalização de ideias e líderes que exploram o medo de uma população fragilizada emocionalmente.