Confesso.
Sempre fui meio “antigão”.
Nunca fui exatamente aquilo que se poderia chamar de um entusiasta das novidades.
Quando aparecia alguma inovação, minha primeira reação não era:
“Que maravilha!”
Era mais ou menos:
“Mas para que mexer no que está funcionando?”
E talvez essa seja uma das características mais curiosas do ser humano:
nós nos acostumamos tanto com aquilo que conhecemos que, às vezes, confundimos conforto com eficiência.
Lembro perfeitamente de um episódio ocorrido por volta de 1992, quando trabalhava no serviço público.
Naquela época, apareceu uma novidade que parecia destinada a mudar completamente nosso ambiente de trabalho:
o computador.
A máquina chegava para substituir aquela companheira de tantas jornadas:
a velha e boa máquina de datilografar.
Haveria treinamento.
Teríamos que aprender a operar aquela coisa.
Teclas diferentes.
Tela.
Comandos.
Disquetes.
Um monte de coisas que, naquele momento, pareciam complicar aquilo que a velha máquina de escrever resolvia muito bem.
E houve um servidor que rejeitou completamente a ideia.
Adivinhem quem?
Eu.
Lembro de ter dito, com a segurança de quem acreditava estar enxergando o futuro:
“Eu não vou abandonar minha máquina de escrever.”
Ela era minha companheira de luta.
Eu conhecia cada tecla.
Conhecia o barulho das teclas.
Conhecia o peso da mão sobre o teclado.
Conhecia até o jeito de puxar o papel.
Para mim, aquilo era eficiência.
O computador?
Uma novidade passageira.
Eu acreditava sinceramente que aquela moda tecnológica logo seria esquecida.
Hoje, olhando para trás, confesso que dá vontade de rir.
Porque existe uma coisa maravilhosa no tempo:
ele tem o péssimo hábito de provar que estamos errados.
O computador não foi embora.
Quem foi embora foi a máquina de escrever.
E não demorou muito.
Aquele equipamento que parecia tão moderno quando chegou passou a ser indispensável.
Depois vieram os computadores pessoais.
A internet.
Os telefones celulares.
Os smartphones.
As videoconferências.
Os aplicativos.
As plataformas digitais.
A inteligência artificial.
E, a cada nova transformação, aparece novamente alguém dizendo:
“Isso não vai durar.”
Talvez exista uma regra na história das inovações:
quanto mais radical é a mudança, maior é a resistência inicial.
Não porque as pessoas sejam necessariamente ignorantes.
Mas porque mudar exige uma coisa que nem sempre estamos dispostos a oferecer:
admitir que aquilo que sabemos fazer pode deixar de ser suficiente.
É aqui que chegamos à inteligência artificial.
E talvez eu tenha uma autoridade especial para falar sobre isso.
Porque já fui o sujeito da máquina de escrever.
Já fui aquele que olhou para uma inovação e pensou:
“Não preciso disso.”
Por isso, hoje eu faria uma pergunta a quem rejeita a IA simplesmente porque ela é nova:
será que você não está repetindo o meu erro de 1992?
Não estou dizendo que a inteligência artificial seja perfeita.
Não é.
Não estou dizendo que ela deva substituir o pensamento humano.
Muito pelo contrário.
O maior valor da IA talvez esteja justamente naquilo que ela não pode substituir:
a experiência humana.
A sensibilidade.
A intuição.
A criatividade.
A capacidade de interpretar o mundo.
A emoção.
A memória.
A capacidade de decidir o que é importante.
A capacidade de fazer perguntas que uma máquina jamais faria sozinha.
A IA pode produzir respostas.
Mas alguém precisa decidir qual pergunta merece ser feita.
E talvez essa seja a grande diferença entre enxergar a tecnologia como ameaça ou como ferramenta.
Uma ferramenta não precisa necessariamente substituir quem a utiliza.
Ela pode tornar essa pessoa melhor.
Um agricultor com uma máquina não deixa de ser agricultor.
Um fotógrafo com uma câmera melhor não deixa de ser fotógrafo.
Um músico com equipamentos melhores não deixa de ser músico.
Um médico utilizando tecnologia avançada não deixa de ser médico.
Um escritor utilizando inteligência artificial não deixa de ser escritor.
A ferramenta muda.
O ser humano continua sendo o responsável pela obra.
Imagine alguém dizendo, em 2026:
“Eu não quero saber de inteligência artificial. Prefiro fazer tudo como sempre fiz.”
Talvez essa pessoa esteja dizendo exatamente aquilo que eu disse em 1992:
“Prefiro minha velha máquina de datilografar.”
E aqui está a parte engraçada da história.
A máquina de datilografar não desapareceu porque era ruim.
Ela desapareceu porque surgiu uma ferramenta mais adequada às novas necessidades.
Esse é um detalhe importante.
Não precisamos odiar aquilo que está sendo substituído.
Podemos agradecer pelo que aquilo representou.
Minha velha máquina de escrever fez parte da minha história.
Serviu.
Foi importante.
Ajudou.
Mas chegou um momento em que o mundo seguiu adiante.
E eu precisava seguir junto.
Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo agora.
A inteligência artificial não está necessariamente chegando para tirar o lugar do ser humano.
Está chegando para mudar a maneira como o ser humano trabalha.
Ela pode organizar.
Pesquisar.
Comparar.
Resumir.
Criar possibilidades.
Ajudar a escrever.
Ajudar a programar.
Ajudar a analisar.
Ajudar a aprender.
Ajudar a transformar uma ideia embrionária em alguma coisa concreta.
Mas existe uma coisa que continua sendo exclusivamente nossa:
a decisão sobre o que fazer com tudo isso.
Existe ainda uma ironia nisso tudo.
Eu, que fui aquele servidor que resistiu ao computador, hoje estou aqui falando sobre inteligência artificial.
E talvez essa seja a melhor lição que aquela velha máquina de escrever poderia ter me deixado.
Não tenha medo da ferramenta nova.
Tenha medo de parar de aprender.
Porque o problema nunca foi a chegada do computador.
O problema nunca foi a chegada do celular.
O problema nunca foi a chegada da internet.
E o problema não será a inteligência artificial.
O verdadeiro problema será acreditar que o mundo deve permanecer exatamente como era apenas porque nós aprendemos a funcionar nele.
A tecnologia continuará avançando.
Nós podemos acompanhá-la.
Podemos criticá-la.
Podemos estabelecer limites.
Podemos exigir responsabilidade.
Devemos, inclusive, discutir seriamente seus riscos.
Mas não podemos simplesmente fingir que ela não existe.
Porque, quando uma transformação chega, duas coisas podem acontecer:
podemos aprender a utilizá-la ou podemos ser ultrapassados por quem aprendeu.
E talvez seja essa a parte que mais incomoda.
Não é a máquina que ameaça o ser humano.
É o ser humano que se recusa a aprender a utilizar a máquina.
Hoje, quando lembro daquele sujeito de 1992 dizendo que jamais abandonaria sua máquina de datilografar, tenho vontade de encontrá-lo e dizer:
“Meu amigo, você estava enganado.”
Mas, conhecendo aquele sujeito, provavelmente ele responderia:
“Eu sei.”
E talvez completasse:
“Mas naquela época eu não sabia.”
E essa é a grande questão.
Ninguém nasce sabendo lidar com o futuro.
Precisamos aprender.
Experimentar.
Errar.
Perguntar.
Recomeçar.
E continuar.
A velha máquina de datilografar não era inimiga do computador.
Ela apenas pertenceu a uma época.
O computador não é inimigo da inteligência artificial.
Ele também pertence a uma época.
E a inteligência artificial não precisa ser inimiga do ser humano.
Ela pode ser apenas mais uma ferramenta na longa história da nossa capacidade de criar ferramentas.
Talvez daqui a algumas décadas alguém olhe para a tecnologia que hoje consideramos revolucionária e dê risada.
Assim como hoje eu olho para aquela velha máquina de escrever.
E talvez seja exatamente assim que a humanidade avance:
uma ferramenta de cada vez.
Por isso, se existe uma lição que aquele episódio de 1992 me ensinou, é esta:
não precisamos abandonar o passado para abraçar o futuro.
Podemos agradecer ao passado pelo que ele nos ensinou.
E, depois, abrir espaço para aquilo que vem pela frente.
Porque, no final das contas, a velha máquina de datilografar não perdeu seu valor.
Ela apenas perdeu sua utilidade.
E talvez seja aí que esteja a grande diferença entre ser antigo e ficar ultrapassado.
Ser antigo é carregar experiência.
Ficar ultrapassado é acreditar que não precisamos mais aprender.
E eu, que um dia defendi minha velha máquina de escrever com unhas e dentes, aprendi finalmente:
o futuro não pede licença para chegar.
Ele simplesmente chega.
A escolha é nossa:
aprender a utilizá-lo ou virar, nós mesmos, a velha máquina de datilografar esquecida em uma estante qualquer, coberta de pó, enquanto o mundo continua digitando.
Guilherme Quadros
email: gqkonig@hotmail.com