Dizem que, em um tempo não muito distante, uma cidade cansou do som das batalhas.
O ruído das espadas, dos gritos e dos discursos inflamados já não assustava — apenas cansava. E quando o cansaço vence o medo, nasce o desejo pela paz.
Então os sábios da cidade reuniram-se para criar o que chamaram de Conselho da Paz.
O nome era belo.
Soava como água correndo entre pedras.
Parecia promessa.
Mas havia um detalhe.
Para presidir o conselho, escolheram aquele que mais entendia de guerra.
O homem que dominava o conflito
Era um homem experiente.
Conhecia o som das armas, o peso das ordens e a eficiência do confronto. Sabia vencer. Não sabia perder. Sabia impor.
— Quem melhor para conduzir a paz do que aquele que conhece a guerra? — disseram.
E assim, o Senhor da guerra sentou-se à cabeceira da mesa onde se falaria de silêncio.
A paz tratada como estratégia
O conselho se reunia em uma sala clara, com paredes limpas e palavras bonitas. Falava-se de harmonia, equilíbrio e futuro. Mas sempre que alguém propunha escuta, o presidente respondia com planos.
Quando alguém sugeria pausa, ele oferecia ação.
Quando alguém pedia diálogo, ele apresentava controle.
A paz ali não era um caminho — era um objetivo administrativo.
Algo a ser alcançado.
Medido.
Gerenciado.
Como se a paz fosse um território a conquistar, e não um estado a cultivar.
O problema não era o homem — era o método
O Senhor da Guerra não era cruel.
Era apenas fiel à única língua que aprendera.
E essa é a armadilha silenciosa:
ninguém colhe aquilo que não sabe cultivar.
Ele falava de paz como quem fala de cessar-fogo.
Mas paz não é ausência de tiros.
É presença de escuta.
Ele falava de ordem como quem fala de disciplina.
Mas paz não nasce da obediência.
Nasce do reconhecimento.
O espelho quebrado
Certo dia, uma criança entrou na sala do conselho e perguntou:
— Se a paz é silêncio, por que ela grita tanto aqui dentro?
Ninguém respondeu.
Porque algumas perguntas não pedem resposta — pedem mudança.
E ali ficou evidente o que ninguém ousava dizer:
colocar o guardião da guerra para conduzir a paz não era incoerência.
Era medo disfarçado de pragmatismo.
Medo de confiar.
Medo de ouvir.
Medo de perder o controle.
A lição que ficou
A cidade aprendeu, tarde demais, que paz não é o oposto da guerra.
É o oposto da lógica que cria a guerra.
Enquanto a paz for conduzida pelos que só conhecem o confronto, ela será apenas um intervalo — nunca um destino.
Porque não se aprende silêncio com quem vive do ruído.
Não se aprende escuta com quem sempre ordenou.
E não se constrói paz usando as mesmas mãos que nunca largaram a espada.
E assim ficou escrito na memória da cidade:
A paz não precisa de estrategistas.
Precisa de jardineiros.
E jardineiros não vencem guerras.
Eles cuidam da vida.
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