quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O Poder que Ensandece

Há fenômenos humanos que não precisam de manual de instrução — basta observar e esperar. O poder é um deles. Ele entra pela porta como ferramenta, mas, se não houver freio interno, sai pela janela como delírio.

O poder em si não tem cor, país ou ideologia. É apenas energia concentrada num único ponto. O problema começa quando essa energia passa a girar no mesmo eixo que a vaidade. E é aí que o ser humano se torna um laboratório curioso: quanto mais alta a posição, mais tênue fica a fronteira entre lucidez e megalomania.

A racionalidade costuma sussurrar.
A vaidade, ao contrário, grita.

E é nesse grito que o poder encontra terreno fértil. O indivíduo que antes buscava objetivos concretos — resolver crises, construir, mediar, negociar — de repente passa a buscar outra coisa: ser visto, ser reverenciado, ser indispensável.

A partir daí, a lógica muda:

  • decisões deixam de ser técnicas e passam a ser emocionais,

  • conselhos deixam de ser bem-vindos e passam a ser ameaça,

  • aliados deixam de ser parceiros e viram plateia,

  • e qualquer crítica, por mais sutil, vira afronta.

O curioso é que o poder raramente enlouquece sozinho. Ele faz isso em dupla com a vaidade. Um alimenta o outro até que, em algum momento, a razão fica na arquibancada vendo o espetáculo acontecer.

Historicamente, o roteiro se repete:
o líder começa equilibrado, mas com o tempo passa a acreditar que não erra, não falha, não recua — e que tudo o que pensa é, por definição, certo. Não importa se o mundo inteiro discorda; para ele, o mundo está errado.

A insanidade, nesse contexto, não se apresenta como loucura clássica. Ela se apresenta como convicção absoluta. É esse o detalhe mais perigoso.

A insanidade do poderoso é silenciosa no começo.
Depois se torna barulhenta.

E quando o poder encontra o estágio final — aquele em que ninguém à volta se atreve a dizer “não” — o processo está completo. O líder já não governa: administra a própria narrativa.

Por isso, o velho ditado segue atual:
não existe teste de caráter melhor que o poder.

A insanidade, quando nasce nas margens, é apenas tragicômica.
Quando nasce no topo, custa caro.

E a História, sempre muito paciente, coleciona esses episódios com precisão de arquivista. Observa, anota e guarda para o capítulo final — aquele em que o homem passa, mas o registro fica.

Esse editorial termina com uma ironia amarga: o poder que ensandece não é apenas o poder que foi tomado… é também o poder que foi concedido. Alguém entregou. Alguém aplaudiu. Alguém achou que era uma boa ideia.

E, como sempre, a conta chega.

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