Há fenômenos humanos que não precisam de manual de instrução — basta observar e esperar. O poder é um deles. Ele entra pela porta como ferramenta, mas, se não houver freio interno, sai pela janela como delírio.
O poder em si não tem cor, país ou ideologia. É apenas energia concentrada num único ponto. O problema começa quando essa energia passa a girar no mesmo eixo que a vaidade. E é aí que o ser humano se torna um laboratório curioso: quanto mais alta a posição, mais tênue fica a fronteira entre lucidez e megalomania.
E é nesse grito que o poder encontra terreno fértil. O indivíduo que antes buscava objetivos concretos — resolver crises, construir, mediar, negociar — de repente passa a buscar outra coisa: ser visto, ser reverenciado, ser indispensável.
A partir daí, a lógica muda:
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decisões deixam de ser técnicas e passam a ser emocionais,
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conselhos deixam de ser bem-vindos e passam a ser ameaça,
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aliados deixam de ser parceiros e viram plateia,
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e qualquer crítica, por mais sutil, vira afronta.
O curioso é que o poder raramente enlouquece sozinho. Ele faz isso em dupla com a vaidade. Um alimenta o outro até que, em algum momento, a razão fica na arquibancada vendo o espetáculo acontecer.
A insanidade, nesse contexto, não se apresenta como loucura clássica. Ela se apresenta como convicção absoluta. É esse o detalhe mais perigoso.
E quando o poder encontra o estágio final — aquele em que ninguém à volta se atreve a dizer “não” — o processo está completo. O líder já não governa: administra a própria narrativa.
E a História, sempre muito paciente, coleciona esses episódios com precisão de arquivista. Observa, anota e guarda para o capítulo final — aquele em que o homem passa, mas o registro fica.
Esse editorial termina com uma ironia amarga: o poder que ensandece não é apenas o poder que foi tomado… é também o poder que foi concedido. Alguém entregou. Alguém aplaudiu. Alguém achou que era uma boa ideia.
E, como sempre, a conta chega.
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