sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

REINO UNIDO DEVERIA RECOMPRAR OS ESTADOS UNIDOS E REESCREVER A HISTÓRIA.

O Reino que Esqueceu de Ler o Contrato

Havia um tempo em que um império decidiu vender parte de si mesmo.
Não por fraqueza militar, nem por derrota estratégica — mas por cansaço administrativo, dívidas acumuladas e a arrogância típica de quem acredita que sempre poderá reescrever o futuro depois.

Chamaram aquela venda de independência.
Mas contratos, mesmo os históricos, não deixam de existir só porque alguém passa a contar a história de outro jeito.

O Reino Unido assinou papéis, entregou terras, soltou as rédeas e virou as costas. Do outro lado do oceano, nasceu um novo reino que jurava nunca mais se submeter a coroas, tradições ou velhos códigos. Um reino jovem, barulhento, armado de liberdade — e de amnésia seletiva.

O problema começou quando o herdeiro passou a agir como se tivesse inventado tudo sozinho.

A criança que cresceu sem tutor

O novo reino cresceu rápido.
Muito rápido.

Construiu cidades, ergueu impérios econômicos, produziu armas, narrativas e mitologias próprias. Convenceu o mundo de que era o ápice da civilização moderna — mesmo tendo herdado idioma, leis, instituições e até o conceito de democracia do velho reino que fingia desprezar.

Era como um filho que nega o pai, mas exige a herança completa.

Com o tempo, passou a se comportar como tutor do mundo:
decidia quem era vilão, quem era aliado, quem merecia sanção, quem precisava ser “libertado”. Vendia guerras embaladas como democracia, interesses travestidos de valores universais.

E o velho Reino Unido observava, entre constrangido e cúmplice, aquele experimento fora de controle.

A ironia do século

Até que alguém, em um salão silencioso da História, fez a pergunta proibida:

E se o Reino Unido resolvesse recomprar os Estados Unidos?

Não por nostalgia.
Não por imperialismo.
Mas por responsabilidade histórica.

Talvez fosse hora de revisar o contrato.

Porque o filho crescera, sim — mas crescera sem maturidade proporcional ao poder que carregava. Aprendera a falar alto antes de aprender a escutar. Aprendera a impor antes de compreender. Aprendera a intervir antes de refletir.

Era um gigante com comportamento de adolescente.

Reescrever a história não é apagá-la

Recomprar, nessa fábula, não significa anexar territórios ou hastear bandeiras.
Significa reassumir a memória.

Significa lembrar ao mundo — e principalmente ao herdeiro — que nenhuma potência nasce do nada. Que toda grandeza vem acompanhada de responsabilidade, limites e autocontenção. Que civilização não é apenas força econômica ou militar, mas capacidade de convivência, diálogo e humildade histórica.

Talvez, sob tutela simbólica, o jovem reino fosse obrigado a reaprender coisas básicas:

  • que o mundo não gira ao redor de um único eixo;

  • que diversidade cultural não é ameaça;

  • que poder sem autocrítica vira caricatura;

  • que liberdade sem freio vira dominação.

O tutor que também errou

Claro — o Reino Unido não é inocente nessa fábula.
Foi ele quem ensinou boa parte das regras do jogo. Foi ele quem colonizou, explorou, dividiu mapas com régua e arrogância. Mas também foi ele quem aprendeu, a duras penas, que impérios caem quando se recusam a evoluir.

Talvez por isso estivesse mais apto, agora, a dizer ao antigo pupilo:
Menos barulho. Mais leitura da história.

Porque reescrever a história não é negar erros.
É parar de repeti-los com bandeiras diferentes.

O mundo como fiador

Nesta fábula, quem paga o preço da imaturidade não são apenas os dois reinos. É o mundo inteiro — sempre fiador involuntário das aventuras do poder.

Recomprar os Estados Unidos, portanto, é apenas uma metáfora.
Uma provocação.

O que realmente precisa ser recomprado é:

  • o senso de limite,

  • a memória histórica,

  • a noção de que nenhum país é o “adulto da sala” por decreto.

Porque quando um reino acredita que pode escrever a história sozinho, o resultado nunca é literatura.
É sempre tragédia.

E talvez esteja na hora de alguém, com ironia britânica e chá frio sobre a mesa, dizer:

Calma. Vamos reler esse contrato juntos.

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