O futebol gosta de falar em igualdade.
A FIFA gosta de falar em universalidade.
E ambos adoram repetir que o esporte deve ser tratado da mesma forma em qualquer lugar do planeta.
Na teoria, é um discurso admirável.
Na prática, surgem perguntas cada vez mais difíceis de ignorar.
Muitos brasileiros ainda lembram da Copa do Mundo de 2014.
Naquele período, a FIFA exigiu garantias, adaptações, investimentos, compromissos e até alterações legais para que o evento ocorresse conforme seus padrões.
O recado era claro:
quem recebe uma Copa do Mundo deve atender às exigências da entidade.
Goste ou não.
Concorde ou não.
A lógica parecia simples.
A FIFA estabelecia as condições.
O país-sede precisava cumpri-las.
Mas o tempo passou.
Os cenários mudaram.
E hoje muitos observadores se perguntam se a régua continua sendo a mesma.
Porque quando surgem notícias de dificuldades enfrentadas por visitantes, restrições de entrada, obstáculos burocráticos e episódios que afetam diretamente a experiência internacional de um evento global, espera-se ouvir a voz da entidade que sempre se apresentou como guardiã do futebol mundial.
Mas o que se percebe, muitas vezes, é silêncio.
E silêncio, em determinadas situações, produz reflexões.
Não porque resolva problemas.
Mas porque levanta dúvidas.
A principal delas é simples:
a FIFA aplica os mesmos critérios para todos os países?
Ou a firmeza de suas exigências varia conforme o tamanho político, econômico ou estratégico do anfitrião?
Essa é uma pergunta legítima.
E uma pergunta que não desaparece apenas porque é desconfortável.
Toda instituição global constrói sua credibilidade sobre um elemento fundamental:
coerência.
As pessoas até aceitam regras duras.
O que raramente aceitam são regras diferentes para situações semelhantes.
Porque a percepção de justiça não nasce apenas das normas.
Nasce da forma como elas são aplicadas.
Quando um país recebe exigências rigorosas e outro parece receber compreensão ilimitada, surge inevitavelmente a sensação de tratamento desigual.
E a sensação de desigualdade costuma corroer a confiança mais rapidamente do que qualquer erro administrativo.
Talvez o problema nem esteja nas exigências feitas no passado.
Talvez o problema esteja na aparente ausência delas no presente.
Porque uma entidade forte não é aquela que demonstra autoridade apenas diante de quem possui menos poder.
Uma entidade forte é aquela que mantém os mesmos princípios independentemente de quem esteja sentado à mesa.
É justamente nesses momentos que se descobre a diferença entre liderança e conveniência.
No fim das contas, a discussão ultrapassa o futebol.
Ela fala sobre algo que vale para qualquer organização humana:
os valores só possuem significado quando são aplicados de forma uniforme.
Porque princípios que mudam conforme o interlocutor deixam de ser princípios.
Transformam-se em circunstâncias.
E circunstâncias, ao contrário dos princípios, costumam se curvar ao poder.
Talvez seja por isso que tantas pessoas observem os acontecimentos atuais e façam a mesma pergunta:
a FIFA continua sendo a mesma entidade que exigia tudo de alguns?
Ou tornou-se uma entidade que aprende a aceitar tudo de outros?
A resposta, como quase sempre acontece, talvez esteja menos nos discursos e mais nos silêncios.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Olá leitor, caso queira deixe seu comentário e responderemos assim que possível.