Houve um tempo em que atravessar a divisa do Rio Grande do Sul para enfrentar Grêmio ou Internacional era mais do que disputar uma partida de futebol.
Era enfrentar uma identidade.
Não importava se o jogo seria no Olímpico ou no Beira-Rio.
Quem vinha jogar em Porto Alegre sabia que encontraria muito mais do que onze jogadores do outro lado.
Encontraria um time disposto a disputar cada bola como se fosse a última.
No futebol gaúcho, nunca existiu "bola perdida".
Existia bola disputada.
Até o apito final.
Essa era a essência.
Essa era a famosa garra platina, expressão que traduzia um estilo de jogo forjado pela influência cultural da região do Prata, onde a entrega, a competitividade e o orgulho pelo escudo sempre caminharam lado a lado com a técnica.
Durante décadas, o Brasil aprendeu a respeitar esse futebol.
Empatar em Porto Alegre não era considerado um resultado comum.
Muitas equipes comemoravam um empate como quem havia conquistado uma vitória.
Porque sabiam o quanto custava sair do Rio Grande do Sul com um ponto.
Grêmio e Internacional construíram essa reputação não apenas pelos títulos.
Construíram porque jogavam com personalidade.
Com coragem.
Com imposição.
Com uma competitividade que fazia do Olímpico e do Beira-Rio verdadeiras fortalezas.
Quem viveu aqueles tempos ainda guarda na memória imagens inesquecíveis.
Jogadores exaustos.
Camisas enlameadas.
Divididas intensas.
Torcidas empurrando seus clubes durante noventa minutos.
Vitórias improváveis.
Viradas épicas.
Não eram apenas jogos.
Eram demonstrações de pertencimento.
Parecia existir um pacto silencioso entre torcida e jogadores.
A torcida prometia nunca deixar de cantar.
Os jogadores prometiam nunca deixar de lutar.
Hoje, por vezes, a sensação é diferente.
Não porque falte talento.
O futebol mudou.
A preparação física evoluiu.
A velocidade aumentou.
Os sistemas táticos ficaram mais sofisticados.
Mas algo parece ter ficado pelo caminho.
A identidade.
Aquela marca que fazia qualquer adversário dizer:
"Hoje teremos uma batalha."
Talvez seja justamente isso que a torcida sinta falta.
Não apenas das vitórias.
Vitórias fazem parte do esporte e nem sempre acontecem.
O que o torcedor nunca aceitou foi ver faltar entrega.
Porque perder disputando cada centímetro do campo sempre foi compreensível.
O que jamais combinou com a história do futebol gaúcho foi a sensação de conformismo.
O Rio Grande do Sul nunca construiu sua reputação futebolística sobre a ideia de resignação.
Construiu sobre coragem.
Sobre competitividade.
Sobre inconformismo.
Sobre a convicção de que nenhuma partida estava perdida antes do último apito.
Essa herança não pertence apenas ao passado.
Ela continua viva nas arquibancadas.
Está na memória de quem viu grandes epopeias no Olímpico e no Beira-Rio.
Está nas histórias contadas de pais para filhos.
Está nas crianças que vestem pela primeira vez uma camisa azul, vermelha, preta ou branca imaginando repetir os feitos dos grandes ídolos.
A identidade de um clube não é construída apenas pelos títulos que levanta.
Ela é construída pela maneira como decide disputar cada jogo.
Por isso, talvez o maior desafio da dupla Gre-Nal não seja simplesmente voltar a vencer campeonatos.
Seja recuperar aquilo que fez o Brasil inteiro respeitar o futebol gaúcho.
A certeza de que, diante de Grêmio ou Internacional, ninguém encontraria facilidade.
Porque ali havia um povo que transformava futebol em honra.
Que entendia que o talento encanta.
Mas é a entrega que eterniza.
Que a garra platina nunca se transforme apenas em lembrança.
Que volte a ser característica.
Porque camisas tão pesadas não foram feitas para carregar saudades.
Foram feitas para escrever novas histórias.
Avante, Grêmio. Avante, Internacional.
Que cada jogador que vista esses mantos compreenda que representa muito mais do que um clube.
Representa uma tradição construída por gerações que fizeram do futebol gaúcho um sinônimo de coragem, dignidade e entrega.
E que, a cada domingo, possamos voltar a fazer a pergunta que durante tantos anos ecoou naturalmente entre os torcedores deste Estado:
"De quanto vai ser hoje?"
Nome: Guilherme Quadros
email: gqkonig@hotmail.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Olá leitor, caso queira deixe seu comentário e responderemos assim que possível.