quarta-feira, 2 de setembro de 2026
PROFETIZE COISAS BOAS SOBRE A SUA VIDA
Existe uma força nas palavras que muitas vezes subestimamos.
Uma palavra pode levantar alguém.
Pode derrubar.
Pode aproximar.
Pode afastar.
Pode cicatrizar uma ferida que ninguém consegue enxergar.
E também pode abrir uma ferida onde antes não existia nenhuma.
Por isso, talvez devêssemos prestar mais atenção naquilo que estamos dizendo.
Principalmente quando falamos de nós mesmos.
Principalmente quando falamos dentro da nossa casa.
Principalmente quando falamos sobre aqueles que amamos.
Porque as palavras que repetimos todos os dias acabam encontrando morada em algum lugar.
Às vezes, na nossa cabeça.
Às vezes, no coração de alguém.
E muitas vezes, na maneira como passamos a enxergar a própria vida.
Quantas vezes você já disse:
“Isso não vai dar certo.”
“Eu não consigo.”
“Na minha vida nada funciona.”
“Minha família só tem problema.”
“Meu filho não vai chegar a lugar nenhum.”
“Eu nunca vou conseguir.”
“É sempre assim comigo.”
Talvez tenham sido apenas palavras.
Mas palavras repetidas muitas vezes deixam de ser apenas palavras.
Elas podem se transformar em crenças.
E crenças podem se transformar em destinos que nós mesmos ajudamos a construir.
Por isso, talvez esteja na hora de mudar o vocabulário.
Não porque basta falar uma frase bonita para o universo resolver nossos problemas.
Não.
A vida exige trabalho.
Exige coragem.
Exige responsabilidade.
Exige escolhas.
Mas existe uma coisa que podemos escolher todos os dias:
a maneira como falamos sobre aquilo que ainda estamos tentando construir.
Experimente trocar:
“Eu não vou conseguir”
por
“Eu ainda não consegui.”
Percebe a diferença?
Uma frase fecha a porta.
A outra deixa uma fresta.
Troque:
“Minha vida está perdida”
por
“Minha vida está passando por uma fase difícil.”
Uma coisa é decretar o fim.
Outra é reconhecer que existe uma fase que pode passar.
Troque:
“Minha família só tem problemas”
por
“Minha família está atravessando dificuldades, mas nós vamos enfrentá-las juntos.”
Isso não é fingir que o problema não existe.
É simplesmente não permitir que o problema tenha a última palavra.
E talvez seja isso que significa profetizar coisas boas sobre a nossa vida.
Não é negar a realidade.
É não transformar a realidade de hoje numa sentença definitiva sobre o amanhã.
É olhar para uma casa que atravessa dificuldades e dizer:
“Nós vamos sair disso.”
É olhar para um filho que está perdido e dizer:
“Eu acredito em você.”
É olhar para alguém que fracassou e dizer:
“Você caiu, mas isso não define quem você é.”
É olhar para o espelho depois de um dia difícil e dizer:
“Amanhã eu tento novamente.”
São palavras.
Sim.
Mas são palavras que carregam direção.
E dentro de casa isso se torna ainda mais importante.
Porque nossos filhos não escutam apenas aquilo que ensinamos.
Eles escutam aquilo que repetimos.
Observam aquilo que valorizamos.
Absorvem a maneira como falamos sobre dinheiro, trabalho, dificuldades, pessoas, casamento, família e sobre nós mesmos.
Uma criança que cresce ouvindo:
“Você não consegue”
pode começar a acreditar que não consegue.
Mas uma criança que escuta:
“Tente novamente. Eu acredito em você.”
pode descobrir que fracassar não significa ser incapaz.
Pode descobrir que existe uma diferença entre errar e desistir.
Pode descobrir que uma queda não precisa determinar o lugar onde permanecerá.
Por isso, cuide das palavras que você coloca dentro da sua casa.
Não transforme o lar em um lugar onde todos precisam andar pisando em ovos.
Não faça da crítica o idioma oficial da família.
Não espere uma ocasião especial para dizer aquilo que deveria ser dito todos os dias.
Diga:
“Eu tenho orgulho de você.”
Diga:
“Vai dar certo.”
Diga:
“Eu estou aqui.”
Diga:
“Você é importante para mim.”
Diga:
“Nós vamos enfrentar isso juntos.”
Diga:
“Eu amo você.”
Talvez você imagine que a pessoa já saiba.
Pode ser.
Mas ouvir continua sendo importante.
Há palavras que sabemos e, ainda assim, precisamos ouvir.
E faça isso também consigo.
Porque existe uma pessoa que talvez esteja ouvindo suas palavras negativas há mais tempo do que qualquer outra:
você.
Não seja o seu próprio inimigo.
Você já terá dificuldades suficientes encontrando pessoas que duvidam de você.
Não seja mais uma.
Quando errar, corrija-se.
Quando cair, levante-se.
Quando perder, aprenda.
Quando estiver cansado, descanse.
Mas não faça da derrota uma identidade.
Você pode ter perdido uma batalha sem ter perdido a guerra.
Pode estar vivendo um momento ruim sem estar vivendo uma vida ruim.
Pode estar atrasado sem estar perdido.
Pode estar começando novamente sem estar começando do zero.
Você traz consigo tudo aquilo que aprendeu nas vezes anteriores.
Há uma frase que gosto muito:
“Aquilo que você fala sobre a sua vida pode não mudar imediatamente as circunstâncias, mas pode mudar a maneira como você enfrenta as circunstâncias.”
E isso já é uma mudança enorme.
Porque pessoas esperançosas não são pessoas que nunca enfrentam problemas.
São pessoas que, mesmo diante dos problemas, conseguem enxergar alguma possibilidade de amanhã.
Elas não dizem:
“Tudo está perfeito.”
Elas dizem:
“Ainda há esperança.”
E talvez seja essa uma das frases mais poderosas que alguém pode carregar.
Então, amanhã de manhã, experimente uma coisa.
Antes de reclamar do dia que começou, agradeça por ele.
Antes de falar que será difícil, diga:
“Vamos ver o que este dia pode trazer.”
Antes de dizer que não consegue, diga:
“Vou tentar.”
Antes de sair de casa, olhe para sua família.
E, se puder, diga alguma coisa boa.
Não precisa ser uma grande declaração.
Pode ser apenas:
“Tenham um bom dia.”
Ou:
“Amo vocês.”
Ou simplesmente:
“Vai dar tudo certo.”
Você talvez nem perceba o efeito daquela frase.
Mas alguém pode carregá-la durante o dia inteiro.
Profetize coisas boas.
Sobre sua vida.
Sobre sua casa.
Sobre sua família.
Sobre seus filhos.
Sobre seus sonhos.
Sobre aquilo que você ainda está tentando construir.
Não porque palavras tenham poderes mágicos.
Mas porque palavras têm consequências.
Elas podem alimentar medo ou coragem.
Podem construir esperança ou desânimo.
Podem criar distância ou aproximação.
Podem ensinar alguém a desistir ou lembrar alguém de continuar.
Por isso, escolha-as com cuidado.
E quando a vida estiver difícil, não minta para si mesmo.
Não precisa dizer que está tudo bem quando não está.
Diga a verdade.
Mas acrescente esperança.
“Está difícil, mas vamos conseguir.”
“Eu estou cansado, mas não desisti.”
“Hoje não deu certo, mas amanhã tentaremos novamente.”
“Eu não sei como resolver ainda, mas vou procurar um caminho.”
Talvez essa seja a verdadeira força das palavras:
não esconder a realidade, mas impedir que a realidade nos convença de que não existe futuro.
A vida já tem gente suficiente dizendo que você não consegue.
Já tem gente suficiente apontando seus erros.
Já existem problemas suficientes tentando convencê-lo de que desistir seria mais fácil.
Não seja mais uma voz contra você mesmo.
Seja a voz que diz:
“Continue.”
Seja a voz que diz:
“Você consegue.”
Seja a voz que diz:
“Eu acredito.”
E, dentro da sua casa, seja aquela pessoa que faz os outros saírem melhores depois de conversar com você.
Porque talvez uma das maiores heranças que podemos deixar para nossos filhos não seja uma casa, um carro ou uma conta bancária.
Talvez seja algo muito mais simples:
a certeza de que, em algum lugar deste mundo, existirá sempre uma voz dizendo que acredita neles.
Então, a partir de hoje, escolha melhor aquilo que você fala.
Quando olhar para sua vida, não diga apenas o que ela é.
Fale também sobre aquilo que você acredita que ela pode ser.
Quando olhar para sua família, não enxergue apenas os problemas.
Enxergue as pessoas que estão ali.
Quando olhar para seus filhos, não veja somente aquilo que eles ainda precisam aprender.
Veja também aquilo que eles podem se tornar.
Quando olhar para você mesmo, não conte apenas suas derrotas.
Lembre-se de quantas vezes você já caiu e continuou.
E quando o futuro parecer incerto, não o condene antes que ele chegue.
Diga:
“Ainda há muita coisa boa para acontecer.”
Porque há.
Há encontros que ainda não aconteceram.
Abraços que ainda serão dados.
Sonhos que ainda serão realizados.
Manhãs que ainda nascerão.
Risos que ainda ocuparão a sua casa.
Histórias que ainda serão contadas.
E talvez, justamente quando você pensar que já viveu tudo aquilo que a vida poderia oferecer, ela esteja apenas preparando uma nova página.
Por isso, profetize coisas boas.
Não apenas com a boca.
Com as atitudes.
Não apenas com esperança.
Com trabalho.
Não apenas com sonhos.
Com coragem.
E, principalmente, não espere que o mundo inteiro fale coisas boas sobre você.
Comece você.
Comece dentro de casa.
Comece diante do espelho.
Comece hoje.
Porque algumas palavras podem ser apenas palavras.
Mas outras podem se transformar naquilo que uma pessoa precisava ouvir para continuar.
E talvez uma das coisas mais bonitas que podemos fazer nesta vida seja exatamente essa:
usar nossa voz para lembrar alguém — inclusive nós mesmos — de que ainda existe amanhã.
QUANDO A TOGA PRECISA EXPLICAR A TOGA
Há momentos em que uma democracia precisa parar de discutir quem está certo politicamente e começar a perguntar algo muito mais simples:
Quem fiscaliza aqueles que deveriam fiscalizar todos os outros?
O Brasil chegou novamente a esse ponto.
E talvez esta seja uma das perguntas mais incômodas que podemos fazer neste momento.
Não estamos falando de um vereador.
Não estamos falando de um empresário comum.
Não estamos falando de um cidadão sem poder.
Estamos falando de ministros do Supremo Tribunal Federal.
Estamos falando da instituição que ocupa o topo da estrutura judiciária brasileira.
Estamos falando daqueles que podem determinar buscas, prisões, bloqueios, censuras, investigações, medidas cautelares e decisões capazes de alterar a vida de pessoas, empresas e até o funcionamento das instituições.
Quando o poder é gigantesco, a obrigação de prestar contas também precisa ser.
E é justamente aí que começa o problema.
O caso Banco Master já havia colocado o nome de Dias Toffoli no centro de questionamentos sobre relações com o universo empresarial de Daniel Vorcaro. O ministro deixou a relatoria do caso depois da pressão gerada pelas revelações. Há também informações sobre negócios envolvendo familiares e o empreendimento ligado ao ministro. Toffoli nega irregularidades.
Agora surgem novas revelações envolvendo Alexandre de Moraes.
Segundo relatório da Polícia Federal, mensagens extraídas do celular de Vorcaro registrariam contatos e encontros com Moraes, além de referências a assuntos envolvendo autoridades públicas e ao escritório da esposa do ministro. Uma reportagem da Folha aponta ainda contratos que poderiam alcançar valores de centenas de milhões de reais em estruturas relacionadas ao Banco Master.
E aqui precisamos fazer uma distinção fundamental.
Suspeita não é condenação.
Mensagem não é sentença.
Relação pessoal não prova, por si só, corrupção.
Mas existe uma quarta frase que precisa ser colocada ao lado das três primeiras:
Suspeita envolvendo quem exerce o poder de julgar não pode ser tratada como assunto irrelevante.
É justamente o contrário.
Quanto maior a autoridade, maior deveria ser a exigência de transparência.
O que está acontecendo é muito maior do que Alexandre de Moraes.
É muito maior do que Dias Toffoli.
É maior até mesmo do que o Banco Master.
É uma discussão sobre a confiança na própria Justiça.
Porque o cidadão comum pode até não conhecer os detalhes de uma decisão judicial.
Pode não entender uma ação direta de inconstitucionalidade.
Pode não acompanhar um processo criminal.
Mas ele entende uma coisa perfeitamente:
juiz não pode parecer íntimo demais daqueles que podem aparecer diante dele.
E entende outra ainda mais simples:
quem julga precisa estar acima de qualquer suspeita razoável sobre seus interesses pessoais.
Não basta ser imparcial.
É necessário parecer imparcial.
Isso não é detalhe.
Isso é fundamento.
Durante anos, o Brasil ouviu que ninguém está acima da lei.
A frase é bonita.
Mas existe uma pergunta inevitável:
ninguém está acima da lei — inclusive quem aplica a lei?
Porque, se a resposta for “sim”, então precisamos exigir que essa frase seja verdadeira.
Não pode existir uma República na qual ministros tenham poder para investigar, decidir, determinar e julgar enquanto as suspeitas que recaem sobre eles próprios sejam tratadas como inconvenientes políticos.
Não pode existir um sistema em que a toga funcione como uma espécie de escudo institucional contra perguntas.
E não pode existir democracia onde questionar o poder passa a ser considerado um ataque ao poder.
Há algo particularmente preocupante nesta crise.
O Supremo não pode ser simultaneamente percebido como árbitro da disputa e parte da disputa.
Quando um ministro da Corte é alvo de suspeitas, não basta dizer que tudo será esclarecido internamente.
A sociedade precisa saber:
Quem investiga?
Quem fiscaliza?
Quem decide se existe conflito de interesses?
Quem examina as provas?
Quem garante que não haverá corporativismo?
Quem protege a investigação contra interesses institucionais?
E, sobretudo:
quem julga o julgador?
Essa pergunta não é antidemocrática.
Ela é democrática por excelência.
E aqui está o ponto em que o Brasil precisa abandonar a hipocrisia.
Quando surgem denúncias contra um político, imediatamente aparecem aqueles que dizem:
“Investigue!”
Muito bem.
Quando surgem denúncias contra empresários:
“Investigue!”
Perfeito.
Quando surgem denúncias contra cidadãos comuns:
“Que se apure!”
Correto.
Então por que deveria ser diferente quando o nome envolvido pertence a um ministro do Supremo?
A toga não pode transformar uma suspeita em tabu.
Aliás, deveria acontecer exatamente o contrário.
Quanto mais poderosa a pessoa, maior deve ser a transparência.
O Brasil não precisa escolher entre defender o Supremo e defender a investigação.
Essa é uma falsa escolha.
Podemos defender o Supremo como instituição e, ao mesmo tempo, exigir que seus ministros sejam investigados quando surgirem elementos que justifiquem investigação.
Uma instituição verdadeiramente forte não teme investigação.
Teme apenas aquilo que a investigação pode revelar.
E uma instituição verdadeiramente republicana não precisa mandar o cidadão calar a boca para preservar sua autoridade.
Ela preserva sua autoridade explicando-se.
Há também uma questão institucional que não pode ser ignorada.
O ministro André Mendonça decidiu levar ao plenário a discussão sobre a abertura de investigação relacionada às revelações envolvendo Moraes. A PGR questionou a validade do procedimento, enquanto Mendonça sustenta a necessidade de apreciação institucional da questão.
E isso nos coloca diante de uma situação extraordinariamente delicada:
o Supremo precisa encontrar uma maneira de investigar suspeitas sobre integrantes do próprio Supremo sem transformar a investigação em uma guerra interna.
É difícil.
Mas é exatamente para situações difíceis que existem instituições.
O problema mais profundo, entretanto, não está em uma mensagem.
Não está em um contrato.
Não está em um encontro.
Não está sequer em um banqueiro.
O problema está na possibilidade de que o cidadão comece a acreditar que existem dois tipos de República.
Uma para ele.
Outra para os poderosos.
Uma em que qualquer suspeita exige explicação.
Outra em que a explicação é substituída por notas oficiais.
Uma em que qualquer cidadão pode ser investigado.
Outra em que investigar quem investiga parece quase uma afronta institucional.
Se essa percepção se consolidar, perdemos algo muito maior que uma disputa política. Perdemos confiança.
E uma democracia sem confiança vira apenas uma estrutura burocrática sustentada pelo medo de questionar.
Não estou pedindo condenações.
Estou pedindo investigação.
Não estou pedindo vingança.
Estou pedindo transparência.
Não estou dizendo que ministros cometeram crimes.
Estou dizendo algo muito mais simples:
se existem fatos que levantam suspeitas, eles precisam ser examinados até o fim.
Sem blindagem.
Sem corporativismo.
Sem torcida.
Sem “nós contra eles”.
Sem direita.
Sem esquerda.
Sem amigo.
Sem inimigo.
Somente fatos.
Porque é assim que deveria funcionar uma República.
E talvez esta seja a hora de lembrar aos ocupantes da mais alta Corte do país uma verdade que vale para qualquer autoridade:
a toga não concede santidade.
A toga concede responsabilidade.
A toga não concede imunidade moral.
A toga exige comportamento compatível com a confiança depositada naquele que a veste.
A toga não coloca ninguém acima da crítica.
A toga coloca quem a veste ainda mais sob os olhos da sociedade.
O Brasil já sofreu demais com a ideia de que determinados homens seriam grandes demais para serem investigados.
Já vimos empresários poderosos.
Políticos poderosos.
Governantes poderosos.
Partidos poderosos.
Instituições poderosas.
Todos, em algum momento, acreditaram que poderiam sobreviver à própria arrogância.
Não deveriam.
Porque a República não foi construída para proteger pessoas.
Foi construída para proteger regras.
E a regra mais importante de todas deveria ser esta:
ninguém pode ser tão poderoso a ponto de não precisar explicar seus atos.
Nem presidente.
Nem senador.
Nem deputado.
Nem banqueiro.
Nem procurador.
Nem ministro do Supremo Tribunal Federal.
Talvez a maior ameaça ao Brasil não seja a existência de escândalos.
Escândalos podem ser investigados.
A verdadeira ameaça é quando a sociedade se acostuma com eles.
Quando o absurdo deixa de causar indignação.
Quando a suspeita vira rotina.
Quando a explicação deixa de ser necessária.
Quando a toga passa a valer mais que a pergunta.
Quando o cidadão começa a pensar:
“Não adianta.”
É aí que uma democracia começa a morrer.
Não necessariamente com tanques nas ruas.
Às vezes, ela começa a morrer silenciosamente, quando as pessoas deixam de acreditar que as instituições funcionam para todos.
Por isso, neste momento, não precisamos de silêncio.
Precisamos de luz.
Não precisamos de proteção corporativa.
Precisamos de transparência.
Não precisamos de discursos inflamados.
Precisamos de provas.
Não precisamos de condenações antecipadas.
Precisamos de investigação independente, séria e completa.
E se nada houver?
Que se prove.
Se houver?
Que se responsabilize.
É assim que deveria funcionar.
Sem exceções.
Sem intocáveis.
Sem deuses de toga.
Porque, numa República de verdade,
até quem julga precisa aceitar ser julgado pelos olhos da sociedade.
E talvez esta seja a hora de dizer, sem medo e sem eufemismos:
O Supremo não pode exigir respeito à sua autoridade enquanto permitir que dúvidas legítimas sobre seus próprios integrantes sejam tratadas como uma afronta à autoridade.
Respeito não se exige.
Respeito se conquista.
E confiança não se decreta.
Confiança se prova.
No Brasil de hoje, talvez a pergunta mais importante não seja mais:
“Quem tem poder?”
Talvez seja:
“Quem fiscaliza o poder quando o poder está sentado na cadeira de quem deveria fiscalizá-lo?”
Essa pergunta precisa continuar sendo feita.
Até que exista uma resposta.
Porque numa República, ninguém deveria ter a última palavra sobre si mesmo.
terça-feira, 1 de setembro de 2026
O ÚLTIMO CAFÉ
Meu hábito diário é quase sempre o mesmo.
Acordo por volta das sete da manhã, levanto ainda carregando um pouco do silêncio da noite e preparo meu café.
Sem pressa.
Gosto daquele momento.
O aroma começa a tomar conta da casa, invade os sentidos, anuncia que mais um dia está começando. É um cheiro que parece ter alguma coisa de memória, de aconchego, de vida.
Tomo meu café tranquilamente.
Depois, vou para a empresa, onde permaneço quase doze horas por dia.
É a rotina.
A mesma rotina que milhões de pessoas repetem todos os dias.
Acordar.
Café.
Trabalho.
Cansaço.
Casa.
Sono.
E amanhã, tudo novamente.
Até que, certo dia, enquanto saboreava meu café, um pensamento atravessou minha cabeça.
Um pensamento simples.
Mas daqueles que, depois que chegam, não vão embora facilmente.
Quando será o meu último café?
Parei por alguns segundos.
Não porque soubesse a resposta.
Justamente porque não sei.
Talvez seja amanhã.
Talvez daqui a vinte anos.
Talvez daqui a muito tempo.
Ou talvez seja num dia absolutamente comum, como tantos outros.
E foi aí que percebi uma coisa desconcertante:
o último dia da nossa vida provavelmente não terá uma placa dizendo que é o último.
Não haverá necessariamente música.
Não haverá anúncio.
Não ouviremos uma voz dizendo:
“Preste atenção. Este é o seu último dia.”
Talvez seja apenas uma terça-feira.
Ou uma quinta.
Ou um domingo.
Um dia qualquer.
Um dia que começa exatamente como todos os outros.
Talvez alguém acorde, tome seu café, converse com quem ama, vá trabalhar, faça planos para a semana seguinte e nem imagine que está vivendo as últimas horas da própria história.
E isso me fez pensar em todas as outras últimas vezes.
Quando será meu último sorriso?
Minha última conversa?
Meu último abraço?
Meu último carinho na pessoa amada?
Minha última frase?
Qual será minha última palavra?
E, talvez a pergunta mais intrigante de todas:
qual será meu último pensamento?
Ninguém sabe.
E talvez seja justamente essa ignorância que torne a vida tão extraordinária.
Porque vivemos como se houvesse sempre um próximo capítulo.
E, na maioria das vezes, há.
Por isso fazemos planos.
Marcamos compromissos.
Compramos coisas para usar depois.
Guardamos roupas para uma ocasião especial.
Adiamos aquela visita.
Deixamos para amanhã aquele telefonema.
Pensamos que teremos tempo para dizer aquilo que ainda não dissemos.
E talvez tenhamos.
Mas talvez não.
Essa é a única certeza desconfortável que a vida nos oferece:
não sabemos quanto tempo temos.
Sabemos apenas que ele está passando.
Curiosamente, não acho que pensar na morte deva nos deixar tristes.
Talvez devesse nos deixar mais atentos à vida.
Porque quando descobrimos que alguma coisa pode acabar, começamos a perceber melhor seu valor.
Uma conversa com quem amamos ganha outro significado.
Um abraço demora um pouco mais.
Um café deixa de ser apenas café.
Uma manhã deixa de ser apenas mais uma manhã.
O sol entrando pela janela deixa de ser cenário.
Passa a ser presente.
Talvez seja esse o grande ensinamento escondido na ideia do último café:
não precisamos saber qual será o último para aprender a valorizar o próximo.
Existe uma coisa estranha no ser humano.
Passamos grande parte da vida esperando alguma coisa.
Esperamos o fim de semana.
As férias.
A aposentadoria.
O dinheiro.
A oportunidade.
O momento certo.
A segunda-feira.
A sexta-feira.
O ano que vem.
Esperamos tanto pelo futuro que, às vezes, esquecemos de morar no presente.
E o presente é a única parte do tempo que realmente possuímos.
O passado já aconteceu.
O futuro ainda não chegou.
O presente é essa pequena faixa de tempo na qual estamos vivos.
E é nela que o café está quente.
É nela que a pessoa amada está ao nosso lado.
É nela que podemos dizer “eu te amo”.
É nela que podemos pedir desculpas.
É nela que podemos abraçar.
É nela que podemos sorrir.
É nela que podemos viver.
Talvez o problema não seja morrer.
Talvez o problema seja passar pela vida sem perceber que estávamos vivos.
Trabalhar doze horas por dia.
Correr.
Produzir.
Resolver problemas.
Pagar contas.
Cumprir compromissos.
E, de repente, perceber que os anos passaram enquanto estávamos ocupados demais tentando construir o futuro.
Não estou dizendo que devemos abandonar nossas responsabilidades.
Precisamos trabalhar.
Precisamos construir.
Precisamos lutar.
Precisamos conquistar.
Mas talvez seja necessário lembrar, de vez em quando, para quem estamos fazendo tudo isso.
Porque seria uma ironia terrível chegar ao fim da vida tendo conquistado tudo aquilo que planejamos e descobrir que não tivemos tempo de desfrutar aquilo que conquistamos.
Naquela manhã, depois de pensar no meu último café, olhei para a xícara de maneira diferente.
Ela continuava sendo apenas uma xícara.
O café continuava sendo apenas café.
A manhã continuava sendo uma manhã comum.
Nada havia mudado.
Exceto eu.
Porque, naquele instante, aquele café deixou de ser automático.
Eu estava presente.
Sentia o aroma.
Sentia o sabor.
Percebia o silêncio.
E pensei que talvez a vida seja feita exatamente disso:
de pequenas coisas que parecem insignificantes enquanto acontecem e que, vistas de longe, talvez sejam justamente aquilo que chamamos de vida.
Não sabemos qual será nosso último café.
Não sabemos qual será nosso último amanhecer.
Não sabemos qual será nosso último abraço.
Não sabemos quando daremos nosso último beijo.
Não sabemos quando ouviremos pela última vez a voz de alguém que amamos.
Não sabemos qual será nossa última frase.
E talvez nunca saibamos qual foi nosso último pensamento.
Mas sabemos que, enquanto estamos aqui, ainda podemos escolher como viver este momento.
Podemos continuar adiando.
Ou podemos prestar atenção.
Podemos continuar reclamando do café.
Ou podemos saboreá-lo.
Podemos continuar esperando uma ocasião especial.
Ou podemos entender que estar vivo já é uma ocasião especial.
Meu último dia vai chegar.
O seu também.
E provavelmente será num dia qualquer.
Talvez ninguém perceba imediatamente que aquele dia era diferente.
Talvez o mundo continue funcionando normalmente.
As pessoas continuarão indo trabalhar.
Os carros continuarão passando.
As lojas continuarão abrindo.
O sol continuará nascendo.
E, em algum lugar, alguém estará tomando café.
Talvez eu.
Talvez você.
Por isso, amanhã, quando acordar, antes de sair correndo para conquistar o mundo, faça uma pequena experiência.
Prepare seu café.
Sente-se.
Respire.
Sinta o aroma.
Olhe para quem estiver ao seu lado.
E, por alguns minutos, não tenha pressa.
Porque talvez aquele não seja o último café.
Muito provavelmente não será.
Mas existe uma possibilidade que não devemos esquecer:
um dia será.
E quando esse dia chegar, espero que não tenhamos passado a vida inteira esperando pelo momento certo para começar a viver.
Que tenhamos amado.
Que tenhamos abraçado.
Que tenhamos perdoado.
Que tenhamos dito as palavras importantes.
Que tenhamos rido.
Que tenhamos sonhado.
Que tenhamos feito diferença na vida de alguém.
E, principalmente, que tenhamos percebido que os grandes momentos da existência talvez nunca tenham sido os grandes acontecimentos.
Talvez tenham sido justamente aqueles pequenos momentos que quase deixamos passar.
Como um café tomado tranquilamente numa manhã qualquer.
E talvez seja por isso que, a partir de amanhã, quando eu segurar minha xícara, vou pensar menos no meu último café.
E vou prestar muito mais atenção neste café.
Porque, afinal,
é o único que tenho certeza de que estou vivendo.