terça-feira, 1 de setembro de 2026

O ÚLTIMO CAFÉ

Meu hábito diário é quase sempre o mesmo.

Acordo por volta das sete da manhã, levanto ainda carregando um pouco do silêncio da noite e preparo meu café.

Sem pressa.

Gosto daquele momento.

O aroma começa a tomar conta da casa, invade os sentidos, anuncia que mais um dia está começando. É um cheiro que parece ter alguma coisa de memória, de aconchego, de vida.

Tomo meu café tranquilamente.

Depois, vou para a empresa, onde permaneço quase doze horas por dia.

É a rotina.

A mesma rotina que milhões de pessoas repetem todos os dias.

Acordar.

Café.

Trabalho.

Cansaço.

Casa.

Sono.

E amanhã, tudo novamente.

Até que, certo dia, enquanto saboreava meu café, um pensamento atravessou minha cabeça.

Um pensamento simples.

Mas daqueles que, depois que chegam, não vão embora facilmente.

Quando será o meu último café?

Parei por alguns segundos.

Não porque soubesse a resposta.

Justamente porque não sei.

Talvez seja amanhã.

Talvez daqui a vinte anos.

Talvez daqui a muito tempo.

Ou talvez seja num dia absolutamente comum, como tantos outros.

E foi aí que percebi uma coisa desconcertante:

o último dia da nossa vida provavelmente não terá uma placa dizendo que é o último.

Não haverá necessariamente música.

Não haverá anúncio.

Não ouviremos uma voz dizendo:

“Preste atenção. Este é o seu último dia.”

Talvez seja apenas uma terça-feira.

Ou uma quinta.

Ou um domingo.

Um dia qualquer.

Um dia que começa exatamente como todos os outros.

Talvez alguém acorde, tome seu café, converse com quem ama, vá trabalhar, faça planos para a semana seguinte e nem imagine que está vivendo as últimas horas da própria história.

E isso me fez pensar em todas as outras últimas vezes.

Quando será meu último sorriso?

Minha última conversa?

Meu último abraço?

Meu último carinho na pessoa amada?

Minha última frase?

Qual será minha última palavra?

E, talvez a pergunta mais intrigante de todas:

qual será meu último pensamento?

Ninguém sabe.

E talvez seja justamente essa ignorância que torne a vida tão extraordinária.

Porque vivemos como se houvesse sempre um próximo capítulo.

E, na maioria das vezes, há.

Por isso fazemos planos.

Marcamos compromissos.

Compramos coisas para usar depois.

Guardamos roupas para uma ocasião especial.

Adiamos aquela visita.

Deixamos para amanhã aquele telefonema.

Pensamos que teremos tempo para dizer aquilo que ainda não dissemos.

E talvez tenhamos.

Mas talvez não.

Essa é a única certeza desconfortável que a vida nos oferece:

não sabemos quanto tempo temos.

Sabemos apenas que ele está passando.

Curiosamente, não acho que pensar na morte deva nos deixar tristes.

Talvez devesse nos deixar mais atentos à vida.

Porque quando descobrimos que alguma coisa pode acabar, começamos a perceber melhor seu valor.

Uma conversa com quem amamos ganha outro significado.

Um abraço demora um pouco mais.

Um café deixa de ser apenas café.

Uma manhã deixa de ser apenas mais uma manhã.

O sol entrando pela janela deixa de ser cenário.

Passa a ser presente.

Talvez seja esse o grande ensinamento escondido na ideia do último café:

não precisamos saber qual será o último para aprender a valorizar o próximo.

Existe uma coisa estranha no ser humano.

Passamos grande parte da vida esperando alguma coisa.

Esperamos o fim de semana.

As férias.

A aposentadoria.

O dinheiro.

A oportunidade.

O momento certo.

A segunda-feira.

A sexta-feira.

O ano que vem.

Esperamos tanto pelo futuro que, às vezes, esquecemos de morar no presente.

E o presente é a única parte do tempo que realmente possuímos.

O passado já aconteceu.

O futuro ainda não chegou.

O presente é essa pequena faixa de tempo na qual estamos vivos.

E é nela que o café está quente.

É nela que a pessoa amada está ao nosso lado.

É nela que podemos dizer “eu te amo”.

É nela que podemos pedir desculpas.

É nela que podemos abraçar.

É nela que podemos sorrir.

É nela que podemos viver.

Talvez o problema não seja morrer.

Talvez o problema seja passar pela vida sem perceber que estávamos vivos.

Trabalhar doze horas por dia.

Correr.

Produzir.

Resolver problemas.

Pagar contas.

Cumprir compromissos.

E, de repente, perceber que os anos passaram enquanto estávamos ocupados demais tentando construir o futuro.

Não estou dizendo que devemos abandonar nossas responsabilidades.

Precisamos trabalhar.

Precisamos construir.

Precisamos lutar.

Precisamos conquistar.

Mas talvez seja necessário lembrar, de vez em quando, para quem estamos fazendo tudo isso.

Porque seria uma ironia terrível chegar ao fim da vida tendo conquistado tudo aquilo que planejamos e descobrir que não tivemos tempo de desfrutar aquilo que conquistamos.

Naquela manhã, depois de pensar no meu último café, olhei para a xícara de maneira diferente.

Ela continuava sendo apenas uma xícara.

O café continuava sendo apenas café.

A manhã continuava sendo uma manhã comum.

Nada havia mudado.

Exceto eu.

Porque, naquele instante, aquele café deixou de ser automático.

Eu estava presente.

Sentia o aroma.

Sentia o sabor.

Percebia o silêncio.

E pensei que talvez a vida seja feita exatamente disso:

de pequenas coisas que parecem insignificantes enquanto acontecem e que, vistas de longe, talvez sejam justamente aquilo que chamamos de vida.

Não sabemos qual será nosso último café.

Não sabemos qual será nosso último amanhecer.

Não sabemos qual será nosso último abraço.

Não sabemos quando daremos nosso último beijo.

Não sabemos quando ouviremos pela última vez a voz de alguém que amamos.

Não sabemos qual será nossa última frase.

E talvez nunca saibamos qual foi nosso último pensamento.

Mas sabemos que, enquanto estamos aqui, ainda podemos escolher como viver este momento.

Podemos continuar adiando.

Ou podemos prestar atenção.

Podemos continuar reclamando do café.

Ou podemos saboreá-lo.

Podemos continuar esperando uma ocasião especial.

Ou podemos entender que estar vivo já é uma ocasião especial.

Meu último dia vai chegar.

O seu também.

E provavelmente será num dia qualquer.

Talvez ninguém perceba imediatamente que aquele dia era diferente.

Talvez o mundo continue funcionando normalmente.

As pessoas continuarão indo trabalhar.

Os carros continuarão passando.

As lojas continuarão abrindo.

O sol continuará nascendo.

E, em algum lugar, alguém estará tomando café.

Talvez eu.

Talvez você.

Por isso, amanhã, quando acordar, antes de sair correndo para conquistar o mundo, faça uma pequena experiência.

Prepare seu café.

Sente-se.

Respire.

Sinta o aroma.

Olhe para quem estiver ao seu lado.

E, por alguns minutos, não tenha pressa.

Porque talvez aquele não seja o último café.

Muito provavelmente não será.

Mas existe uma possibilidade que não devemos esquecer:

um dia será.

E quando esse dia chegar, espero que não tenhamos passado a vida inteira esperando pelo momento certo para começar a viver.

Que tenhamos amado.

Que tenhamos abraçado.

Que tenhamos perdoado.

Que tenhamos dito as palavras importantes.

Que tenhamos rido.

Que tenhamos sonhado.

Que tenhamos feito diferença na vida de alguém.

E, principalmente, que tenhamos percebido que os grandes momentos da existência talvez nunca tenham sido os grandes acontecimentos.

Talvez tenham sido justamente aqueles pequenos momentos que quase deixamos passar.

Como um café tomado tranquilamente numa manhã qualquer.

E talvez seja por isso que, a partir de amanhã, quando eu segurar minha xícara, vou pensar menos no meu último café.

E vou prestar muito mais atenção neste café.

Porque, afinal,

é o único que tenho certeza de que estou vivendo.

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