É fácil ignorar uma guerra que acontece a milhares de quilômetros. No feed, ela vira mais um vídeo entre dancinha e receita. Você fecha o app, olha pela janela e vê a rua calma de Palmeira das Missões. O mercado aberto. O vizinho varrendo a calçada. A guerra não é no teu quintal. Ainda.
A distância cria uma ilusão de segurança.
Enquanto as bombas não caem aqui, a vida segue normal. Pagamos boleto, reclamamos do preço da gasolina, planejamos o churrasco de domingo. O cérebro entende que aquilo é problema dos outros. É um mecanismo de proteção. Ninguém aguenta carregar o peso do mundo todo dia. Mas essa distância é geográfica, não moral. As consequências atravessam oceanos antes das tropas.
O quintal é maior do que parece.
Guerra hoje não é só tanque na rua. É trigo que não chega e o pão fica mais caro. É petróleo que sobe e o frete dispara. É chip que falta e teu celular novo atrasa seis meses. É gente fugindo que vai precisar recomeçar a vida em outra cidade, talvez na tua. Quando a guerra ainda não é no teu quintal, ela já está no teu bolso, no teu prato e no teu posto de trabalho. Só não fez barulho.
O perigo da anestesia.
O pior efeito de uma guerra distante não é econômico. É a anestesia. A gente se acostuma com a manchete. O número de mortos vira estatística. A tragédia vira ruído de fundo. E quando algo se torna normal lá longe, fica mais fácil aceitar quando chega perto. A indiferença é o primeiro tijolo do muro que separa “nós” de “eles”. E muros, uma hora, cercam a gente também.
O que fazer quando o front é longe.
Não dá pra resolver conflito internacional pelo WhatsApp. Mas dá pra recusar a anestesia. Entender de onde vem o que você consome. Saber por que teu emprego depende de uma rota marítima do outro lado do mundo. Conversar sobre isso sem transformar tudo em briga de torcida. Lucidez é um jeito de preparar o quintal. Porque nenhum quintal é uma ilha pra sempre.
Um dia a guerra bate na porta. Às vezes com um refugiado pedindo ajuda. Às vezes com inflação. Às vezes com um filho convocado. Esperar ela chegar no quintal pra se importar é tarde demais. O preço da paz não é só pago por quem está na trincheira. É pago por quem decide não olhar pro lado enquanto ainda dá tempo.
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