Há alguns anos, o cinema apresentou ao mundo a figura do "malvado favorito".
Era uma brincadeira divertida.
Um personagem cheio de defeitos que, apesar disso, conquistava a simpatia do público.
Na ficção, funciona.
Na vida real, nem sempre.
Porque parece que estamos assistindo ao surgimento de um fenômeno curioso:
o do "meu criminoso favorito".
Não importa o que tenha acontecido.
Não importa a gravidade do fato.
Não importa sequer a existência de provas, processos ou condenações.
A primeira reação de muitas pessoas já não é analisar os fatos.
É verificar quem está envolvido.
Se for alguém do grupo adversário, a indignação surge instantaneamente.
Se for alguém do próprio grupo, começam as justificativas.
As explicações.
As relativizações.
As teorias.
Os "mas".
E assim nasce uma das doenças morais mais perigosas de qualquer sociedade:
a seletividade dos princípios.
O problema nunca foi apenas o crime.
O problema é quando deixamos de enxergar o crime porque gostamos do criminoso.
Porque, nesse momento, os valores deixam de ser valores.
Transformam-se em preferências.
E preferências são instáveis.
Mudam conforme a conveniência.
A história humana está repleta de exemplos disso.
Pessoas comuns, inteligentes e até bem-intencionadas defendendo comportamentos que jamais aceitariam se praticados por seus adversários.
A lógica é simples:
quando o outro faz, é um absurdo.
Quando o meu lado faz, existe contexto.
Quando o outro erra, é caráter.
Quando o meu lado erra, é circunstância.
Quando o outro é investigado, a justiça funciona.
Quando o meu lado é investigado, existe perseguição.
E assim seguimos construindo uma sociedade onde os fatos passam a valer menos do que as paixões.
Talvez a pergunta mais importante não seja quem está sendo acusado.
Talvez seja outra.
Ainda somos capazes de condenar um erro cometido por alguém de quem gostamos?
Porque é justamente aí que os princípios são testados.
Não quando atingem nossos adversários.
Mas quando atingem nossos aliados.
A democracia, a justiça e a convivência civilizada dependem dessa capacidade.
A capacidade de manter a mesma régua.
O mesmo critério.
A mesma coerência.
Sem exceções.
Sem ídolos.
Sem torcida organizada.
No fim das contas, uma sociedade saudável não é aquela que não possui criminosos.
Isso nunca existiu.
Uma sociedade saudável é aquela que não transforma criminosos em mascotes ideológicos.
Porque quando começamos a escolher quais crimes merecem reprovação e quais merecem aplausos, o problema já deixou de ser jurídico.
Passou a ser moral.
E talvez seja exatamente aí que mora o verdadeiro perigo.
Não no criminoso.
Mas na disposição de alguns em adotá-lo como favorito.
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