domingo, 7 de junho de 2026

Meu Criminoso Favorito

Há alguns anos, o cinema apresentou ao mundo a figura do "malvado favorito".

Era uma brincadeira divertida.

Um personagem cheio de defeitos que, apesar disso, conquistava a simpatia do público.

Na ficção, funciona.

Na vida real, nem sempre.

Porque parece que estamos assistindo ao surgimento de um fenômeno curioso:

o do "meu criminoso favorito".

Não importa o que tenha acontecido.

Não importa a gravidade do fato.

Não importa sequer a existência de provas, processos ou condenações.

A primeira reação de muitas pessoas já não é analisar os fatos.

É verificar quem está envolvido.

Se for alguém do grupo adversário, a indignação surge instantaneamente.

Se for alguém do próprio grupo, começam as justificativas.

As explicações.

As relativizações.

As teorias.

Os "mas".

E assim nasce uma das doenças morais mais perigosas de qualquer sociedade:

a seletividade dos princípios.

O problema nunca foi apenas o crime.

O problema é quando deixamos de enxergar o crime porque gostamos do criminoso.

Porque, nesse momento, os valores deixam de ser valores.

Transformam-se em preferências.

E preferências são instáveis.

Mudam conforme a conveniência.

A história humana está repleta de exemplos disso.

Pessoas comuns, inteligentes e até bem-intencionadas defendendo comportamentos que jamais aceitariam se praticados por seus adversários.

A lógica é simples:

quando o outro faz, é um absurdo.

Quando o meu lado faz, existe contexto.

Quando o outro erra, é caráter.

Quando o meu lado erra, é circunstância.

Quando o outro é investigado, a justiça funciona.

Quando o meu lado é investigado, existe perseguição.

E assim seguimos construindo uma sociedade onde os fatos passam a valer menos do que as paixões.

Talvez a pergunta mais importante não seja quem está sendo acusado.

Talvez seja outra.

Ainda somos capazes de condenar um erro cometido por alguém de quem gostamos?

Porque é justamente aí que os princípios são testados.

Não quando atingem nossos adversários.

Mas quando atingem nossos aliados.

A democracia, a justiça e a convivência civilizada dependem dessa capacidade.

A capacidade de manter a mesma régua.

O mesmo critério.

A mesma coerência.

Sem exceções.

Sem ídolos.

Sem torcida organizada.

No fim das contas, uma sociedade saudável não é aquela que não possui criminosos.

Isso nunca existiu.

Uma sociedade saudável é aquela que não transforma criminosos em mascotes ideológicos.

Porque quando começamos a escolher quais crimes merecem reprovação e quais merecem aplausos, o problema já deixou de ser jurídico.

Passou a ser moral.

E talvez seja exatamente aí que mora o verdadeiro perigo.

Não no criminoso.

Mas na disposição de alguns em adotá-lo como favorito.

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