Existe um hábito curioso nas redes sociais.
Em vez de celebrar grandes conquistas, prefere-se criar comparações improváveis.
Não para compreender o esporte.
Mas para vencer uma discussão.
Foi exatamente essa sensação que tive ao observar a repentina mobilização de alguns canais esportivos do Brasil (e, pasmem, apenas no Brasil) tentando estabelecer paralelos entre a trajetória de Messi em Copas do Mundo e a de uma jogadora brasileira.
Confesso que achei a comparação profundamente injusta.
E não apenas com Messi.
Também com a própria atleta brasileira.
Porque comparar não é, necessariamente, homenagear.
Muitas vezes é apenas utilizar alguém como instrumento de uma narrativa.
O futebol sempre viveu de grandes histórias.
E as maiores delas jamais precisaram diminuir outra pessoa para se tornarem grandiosas.
Pelé nunca precisou ser maior porque diminuíram Maradona.
Maradona nunca precisou ser maior porque diminuíram Cruyff.
Cristiano Ronaldo nunca precisou crescer porque alguém resolveu reduzir Messi.
Os gigantes permanecem gigantes justamente porque suas histórias falam por si.
Talvez estejamos vivendo uma época em que a comparação substituiu a admiração.
Já não basta reconhecer um feito extraordinário.
É preciso provar que ele é superior ao de alguém.
E, se não for possível provar, inventa-se uma régua nova.
Muda-se o critério.
Selecionam-se estatísticas.
Recortam-se contextos.
Escolhem-se apenas os números convenientes.
No final, sobra uma conclusão pronta.
Mas falta honestidade intelectual.
Messi construiu uma das trajetórias mais extraordinárias que o futebol já conheceu.
Isso não diminui absolutamente ninguém.
Da mesma forma, reconhecer os méritos de uma atleta brasileira não exige colocá-la na mesma prateleira de uma carreira construída ao longo de décadas em um contexto completamente diferente.
Cada história possui seu próprio valor.
Cada modalidade possui seus desafios.
Cada época possui suas circunstâncias.
Quando esquecemos isso, deixamos de fazer análise esportiva.
Passamos a fazer propaganda.
E propaganda raramente convive bem com a verdade.
Talvez o aspecto mais triste de tudo isso seja outro.
Nem sempre essas comparações beneficiam quem supostamente pretendem exaltar.
Ao contrário.
Criam expectativas irreais.
Geram debates desnecessários.
Expõem atletas a críticas que talvez jamais existissem se simplesmente fossem reconhecidos por seus próprios méritos.
A grandeza de um esportista não nasce da necessidade de ser comparado.
Nasce daquilo que construiu dentro de sua realidade.
O futebol brasileiro sempre foi admirado justamente porque reconhecia o talento.
Mesmo quando ele vestia outra camisa.
Mesmo quando falava outro idioma.
Aplaudir um adversário extraordinário nunca foi sinal de fraqueza.
Sempre foi sinal de grandeza.
Talvez estejamos perdendo essa virtude.
E isso é preocupante.
Porque uma sociedade que já não consegue reconhecer o mérito alheio sem sentir necessidade de diminuí-lo acaba revelando muito mais sobre si do que sobre o homenageado.
No fim das contas, a verdadeira grandeza não está em fabricar comparações impossíveis.
Está em possuir maturidade suficiente para dizer algo extremamente simples:
há feitos que pertencem à história. E a história não precisa ser reescrita para agradar as redes sociais.
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