A FIFA gosta de repetir uma mensagem há décadas.
O futebol une povos.
O futebol derruba barreiras.
O futebol fala uma linguagem universal.
É um discurso bonito.
Talvez um dos mais bonitos que o esporte já produziu.
Mas existe um problema.
Discursos só possuem valor quando sobrevivem aos momentos difíceis.
E é justamente aí que surgem as perguntas incômodas.
Quando um episódio envolvendo restrições de entrada atinge alguém ligado diretamente a uma competição internacional, não estamos mais diante de uma questão burocrática qualquer.
Estamos diante de um teste.
Um teste sobre aquilo que a própria FIFA diz representar.
É exatamente nesses momentos que a neutralidade passa a merecer análise.
Porque existe uma diferença importante entre neutralidade e omissão.
Neutralidade é não escolher lados em disputas políticas.
Omissão é evitar posicionamento quando um princípio fundamental está sendo colocado à prova.
E talvez seja essa a reflexão que merece ser feita.
Se uma entidade construiu sua imagem sobre a ideia de integração global, ela pode permanecer em silêncio quando surgem obstáculos à própria integração que afirma defender?
Ou será que, em determinados momentos, o silêncio acaba transmitindo uma mensagem tão forte quanto qualquer declaração?
A história mostra que instituições costumam gostar da neutralidade quando ela não gera custos.
Mas os verdadeiros valores aparecem justamente quando existe um preço a pagar.
É fácil defender inclusão quando todos concordam.
Difícil é defender inclusão quando isso exige enfrentar desconfortos.
É fácil falar em universalidade durante cerimônias de abertura.
Mais difícil é demonstrar essa universalidade quando ela encontra barreiras concretas.
Talvez a questão central não seja sequer o caso específico.
Talvez seja o precedente.
Porque toda vez que uma entidade global escolhe não se manifestar diante de situações que tocam diretamente os princípios que ela proclama, surge uma dúvida inevitável:
aqueles princípios são valores ou apenas slogans?
Essa é uma pergunta desconfortável.
Mas necessária.
O futebol movimenta bilhões.
Mobiliza continentes.
Influencia culturas.
Alcança lugares onde políticos, diplomatas e governos muitas vezes não conseguem chegar.
Com tamanho alcance, é razoável esperar algo além de comunicados protocolares.
É razoável esperar liderança.
Porque liderança não é aparecer quando tudo está funcionando.
Liderança é se posicionar quando os próprios valores estão sendo testados.
E talvez seja exatamente aí que muitas instituições contemporâneas enfrentam seu maior desafio.
O medo de desagradar.
O medo de perder influência.
O medo de contrariar interesses.
O medo de transformar princípios em ações concretas.
No fim, fica uma reflexão que ultrapassa o futebol.
Toda organização gosta de exibir seus valores em placas, campanhas e discursos.
A pergunta relevante nunca é essa.
A pergunta relevante é outra:
o que ela faz quando esses valores entram em conflito com a conveniência?
Porque é nesse instante que descobrimos se estamos diante de uma instituição guiada por princípios.
Ou apenas por circunstâncias.
E a diferença entre as duas coisas costuma ser enorme.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Olá leitor, caso queira deixe seu comentário e responderemos assim que possível.