A frase caiu como uma bomba no meio do tabuleiro político: “Eu nunca fui esquerdista, eu era um dirigente sindical”.
Quem disse? Lula. Onde? Na cúpula do G7, em conversa informal com a diretora do FMI e o chanceler da Alemanha. O presidente ainda completou: “O mundo não é de esquerda, o mundo é do caminho do meio”.
A frase que desmonta 40 anos de narrativa
Desde 1980, o Brasil foi ensinado a dividir o país em dois times. De um lado, Lula, PT, sindicalismo, esquerda. Do outro, o resto.
Ele foi símbolo, cartaz, camisa e palavra de ordem. Foi o “candidato dos trabalhadores”, o “metalúrgico que chegou lá”, o “maior líder de esquerda da América Latina”.
E agora, em uma tacada, o próprio Lula tira o rótulo que ajudou a colar.
Se não era esquerda, era o quê?
O argumento dele é simples: era sindicalista. Defendia trabalhador, não ideologia.
Mas aí nasce o nó. Porque foi justamente em cima da etiqueta de “esquerda” que se construiu um projeto de poder, que se elegeu deputados, senadores, prefeitos e presidentes. Foi com essa bandeira que se justificou aliança, que se atacou adversário, que se dividiu o país entre “nós” e “eles”.
Se a liderança máxima diz que nunca foi, o que sobra para a militância que comprou briga, perdeu amigo e parente defendendo a tese?
O “caminho do meio” e o pragmatismo de poder
Lula fala em “caminho do meio” no G7. Tradução: governar exige centro, exige banco, exige mercado, exige FMI.
A frase não é à toa. Foi dita para a diretora do FMI, enquanto o mundo discutia economia. É recado lá pra fora: “Podem ficar tranquilos, não sou radical”.
O problema é o recado aqui pra dentro. Porque tem uma legião que vestiu vermelho, brigou na internet e nas ruas, acreditando que estava numa guerra ideológica do bem contra o mal.
E agora, José?
O poema do Drummond nunca fez tanto sentido.
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
E agora, militante? E agora, eleitor? E agora, partido?
Se o comandante diz que nunca foi soldado da esquerda, quem vai segurar a bandeira? Se a identidade era o combustível, o que move a máquina agora?
Talvez a frase de Lula seja a mais honesta que ele já disse. Ou a mais estratégica. Nos dois casos, ela obriga todo mundo a repensar o jogo.
Porque quando o próprio dono do time diz que nunca vestiu a camisa, o estádio inteiro fica em silêncio.
E o silêncio, na política, é o som mais alto que existe.
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