sexta-feira, 19 de junho de 2026

“NUNCA FUI ESQUERDISTA”, DISSE LULA. E AGORA, JOSÉ?

A frase caiu como uma bomba no meio do tabuleiro político: “Eu nunca fui esquerdista, eu era um dirigente sindical”. 

Quem disse? Lula. Onde? Na cúpula do G7, em conversa informal com a diretora do FMI e o chanceler da Alemanha. O presidente ainda completou: “O mundo não é de esquerda, o mundo é do caminho do meio”. 

A frase que desmonta 40 anos de narrativa

Desde 1980, o Brasil foi ensinado a dividir o país em dois times. De um lado, Lula, PT, sindicalismo, esquerda. Do outro, o resto.

Ele foi símbolo, cartaz, camisa e palavra de ordem. Foi o “candidato dos trabalhadores”, o “metalúrgico que chegou lá”, o “maior líder de esquerda da América Latina”.

E agora, em uma tacada, o próprio Lula tira o rótulo que ajudou a colar.

Se não era esquerda, era o quê?

O argumento dele é simples: era sindicalista. Defendia trabalhador, não ideologia. 

Mas aí nasce o nó. Porque foi justamente em cima da etiqueta de “esquerda” que se construiu um projeto de poder, que se elegeu deputados, senadores, prefeitos e presidentes. Foi com essa bandeira que se justificou aliança, que se atacou adversário, que se dividiu o país entre “nós” e “eles”.

Se a liderança máxima diz que nunca foi, o que sobra para a militância que comprou briga, perdeu amigo e parente defendendo a tese?

O “caminho do meio” e o pragmatismo de poder

Lula fala em “caminho do meio” no G7. Tradução: governar exige centro, exige banco, exige mercado, exige FMI. 

A frase não é à toa. Foi dita para a diretora do FMI, enquanto o mundo discutia economia. É recado lá pra fora: “Podem ficar tranquilos, não sou radical”.

O problema é o recado aqui pra dentro. Porque tem uma legião que vestiu vermelho, brigou na internet e nas ruas, acreditando que estava numa guerra ideológica do bem contra o mal.

E agora, José?

O poema do Drummond nunca fez tanto sentido.

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?

E agora, militante? E agora, eleitor? E agora, partido?

Se o comandante diz que nunca foi soldado da esquerda, quem vai segurar a bandeira? Se a identidade era o combustível, o que move a máquina agora?

Talvez a frase de Lula seja a mais honesta que ele já disse. Ou a mais estratégica. Nos dois casos, ela obriga todo mundo a repensar o jogo.

Porque quando o próprio dono do time diz que nunca vestiu a camisa, o estádio inteiro fica em silêncio.

E o silêncio, na política, é o som mais alto que existe.

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