sexta-feira, 17 de julho de 2026

A Nova Exclusão: Quando o Cidadão Precisa de um Aplicativo para Exercer a Cidadania

Há algumas décadas, o grande desafio dos governos era aproximar o Estado do cidadão. Construíam-se escolas, hospitais, postos de atendimento e repartições públicas. O discurso era claro: facilitar o acesso aos direitos.

Hoje, vivemos uma realidade curiosa.

O Estado continua afirmando que trabalha para simplificar a vida das pessoas. Tudo é apresentado como modernização, inovação, eficiência e transformação digital. Na teoria, parece perfeito. Na prática, porém, uma pergunta precisa ser feita:

Modernização para quem?

Em um país que proclama, aos quatro ventos, colocar o cidadão no centro de suas políticas públicas, assiste-se silenciosamente ao surgimento de uma nova forma de exclusão social: a exclusão digital.

E ela não escolhe apenas os mais pobres.

Ela atinge, principalmente, aqueles que passaram uma vida inteira trabalhando, pagando impostos, contribuindo para a Previdência e acreditando que, ao final da caminhada, o Estado lhes estenderia a mão quando mais precisassem.

Ironia das ironias.

Quando finalmente chega o momento de exercer direitos conquistados durante décadas, o cidadão descobre que precisa, antes de tudo, aprender informática.

Precisa baixar aplicativos.

Criar senhas.

Validar identidade.

Reconhecer códigos enviados por SMS.

Confirmar e-mails.

Atualizar cadastros.

Autorizar dispositivos.

Lembrar senhas criadas meses atrás.

E navegar por telas que, para muitos jovens, já parecem complicadas.

Imagine, então, para quem passou sessenta ou setenta anos vivendo em um mundo completamente diferente.

Não se trata de incapacidade.

Trata-se de uma geração que construiu estradas, cidades, empresas, plantações e famílias quando computador ainda era artigo de ficção para a maioria das pessoas.

Agora, justamente essas pessoas, são informadas de que sua aposentadoria, seus benefícios, suas informações previdenciárias ou seu relacionamento com o Estado dependem de um aplicativo instalado em um telefone celular.

É difícil não perceber a contradição.

A tecnologia nasceu para aproximar.

Mas, em muitos casos, passou a funcionar como uma porta de entrada que exige uma senha que milhões simplesmente nunca aprenderam a criar.

O problema não está na existência do GOV.BR, dos aplicativos da Previdência ou dos serviços digitais.

Eles representam avanços importantes.

O problema surge quando eles deixam de ser uma opção e passam a ser praticamente a única porta de acesso ao Estado.

Nesse momento, a inovação deixa de ser inclusão.

Transforma-se em barreira.

Quantos idosos dependem de filhos, netos ou vizinhos para acessar um benefício que lhes pertence?

Quantos têm receio de entregar seus documentos e senhas a terceiros simplesmente porque não conseguem utilizar um aplicativo?

Quantos acabam desistindo de buscar um direito por medo de errar, bloquear uma conta ou cair em golpes?

Essas perguntas raramente aparecem nas propagandas oficiais sobre transformação digital.

Vivemos um tempo em que se fala muito sobre acessibilidade.

Constroem-se rampas para cadeiras de rodas, adaptações para pessoas com deficiência visual, recursos para deficientes auditivos.

Tudo isso é justo e necessário.

Mas talvez estejamos esquecendo de construir outra espécie de rampa.

Uma rampa entre o cidadão e a tecnologia.

Porque excluir alguém por falta de acesso físico é injusto.

Mas excluir alguém por não dominar uma ferramenta digital também é.

Talvez de forma ainda mais silenciosa.

A verdadeira modernização não consiste em substituir pessoas por aplicativos.

Consiste em oferecer caminhos.

Quem domina a tecnologia deve encontrar nela rapidez e praticidade.

Quem não domina deve continuar encontrando um servidor, um balcão, um telefone ou um atendimento presencial que o acolha com respeito.

Nenhuma inovação deveria exigir que um cidadão precisasse primeiro aprender uma nova profissão para conseguir exercer um direito antigo.

Os direitos fundamentais não podem depender da versão do sistema operacional instalada no telefone.

Nem da velocidade da internet.

Nem da capacidade de memorizar senhas.

Porque cidadania não é um aplicativo.

É uma condição inerente à pessoa.

E talvez a grandeza de um país não seja medida pela quantidade de serviços que consegue digitalizar.

Mas pela capacidade de garantir que ninguém fique para trás enquanto avança rumo ao futuro.

Uma sociedade verdadeiramente moderna não é aquela que elimina as filas substituindo-as por aplicativos.

É aquela que compreende que tecnologia deve servir às pessoas.

Jamais exigir que as pessoas passem a servir à tecnologia.

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