À primeira vista, comparar o mundo contemporâneo às Cruzadas pode soar exagerado. Afinal, não vemos exércitos marchando com cruzes no peito nem reis declarando guerras “em nome de Deus”. Mas a história raramente se repete na forma — ela se repete na lógica.
E a lógica das Cruzadas Inglesas (e europeias, em geral) não era apenas religiosa. A fé foi o discurso. O motor real era poder, expansão, controle, riqueza e imposição cultural.
É aí que o mundo atual começa a se parecer perigosamente com aquele passado.
1. A moral como justificativa para a violência
Nas Cruzadas, dizia-se que a guerra era santa. Quem morresse nela estaria salvo. Quem a liderasse estaria legitimado. A moral vinha pronta, embalada em fé, e dispensava questionamentos.
Hoje, trocamos Deus por outros deuses modernos:
-
democracia,
-
liberdade,
-
segurança,
-
valores ocidentais,
-
“civilização”.
Assim como nas Cruzadas, não se discute mais se a guerra é justa — apenas contra quem ela será feita.
2. O inimigo desumanizado
O cruzado não via o outro como pessoa. Via como infiel, bárbaro, ameaça espiritual. Isso facilitava matar sem culpa.
Hoje, o processo é idêntico, apenas mais sofisticado:
-
o outro é “terrorista”,
-
“radical”,
-
“ameaça cultural”,
-
“inimigo da ordem”,
-
“obstáculo ao progresso”.
3. A expansão disfarçada de missão
As Cruzadas não eram só sobre Jerusalém. Eram sobre rotas comerciais, territórios, influência política e controle econômico.
-
mercados,
-
recursos naturais,
-
influência geopolítica,
-
domínio cultural,
-
dependência econômica.
A diferença é que agora a espada foi substituída por:
-
sanções,
-
narrativas,
-
pressões diplomáticas,
-
controle tecnológico,
-
guerras “cirúrgicas”.
Mas o espírito é o mesmo: expandir, dominar e chamar isso de missão civilizatória.
4. A fé substituída pela ideologia
Se antes a fé religiosa cegava, hoje a fé ideológica cumpre o mesmo papel.
Quem acredita cegamente em um sistema — político, econômico ou cultural — passa a agir como cruzado moderno:
-
não escuta,
-
não dialoga,
-
não pondera,
-
combate.
O mundo atual está cheio de cruzados sem armadura, marchando nas redes, nos parlamentos, nas universidades e nos mercados, certos de que estão “do lado certo da história”.
E, como todo cruzado, não percebem que a certeza absoluta é o primeiro sinal de barbárie.
5. O custo humano tratado como detalhe
Nas Cruzadas, cidades eram destruídas, populações inteiras massacradas, e isso era visto como “efeito colateral”.
Hoje, mudamos o vocabulário:
-
“danos colaterais”,
-
“impactos inevitáveis”,
-
“ajustes necessários”.
A vida humana continua sendo relativizada quando atrapalha o plano maior.
A história não se envergonha de repetir esse padrão — apenas muda a linguagem para parecer mais limpa.
6. O silêncio dos sensatos
Durante as Cruzadas, havia quem discordasse. Mas os sensatos eram silenciados pelo medo, pela fé coletiva e pela pressão social.
Hoje, o fenômeno se repete:
-
quem questiona é rotulado,
-
quem pondera é atacado,
-
quem busca nuance é engolido pelos extremos.
Conclusão: as Cruzadas nunca acabaram
Elas apenas trocaram:
-
espadas por narrativas,
-
armaduras por discursos,
-
igrejas por ideologias,
-
reis por sistemas.
O perigo não está no passado — está em não reconhecer que o impulso cruzadista vive dentro de qualquer sociedade que se acha moralmente superior.
…as Cruzadas voltam.
E a história, paciente e cruel, apenas observa — pronta para registrar mais um capítulo escrito por quem acreditou demais em si mesmo e de menos na humanidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Olá leitor, caso queira deixe seu comentário e responderemos assim que possível.