Há uma frase não dita — mas perfeitamente compreendida — que ecoa nas relações internacionais, nos discursos econômicos e até nas políticas migratórias modernas:
“Os teus habitantes eu não quero por perto. Mas os teus recursos naturais são muito bem-vindos.”
Ela não aparece em tratados oficiais.
Não é assinada por presidentes nem votada em parlamentos.
Mas governa decisões, move exércitos, orienta sanções e justifica intervenções.
É o colonialismo sem bandeira.
O imperialismo sem uniforme.
A exploração com linguagem técnica, limpa, “civilizada”.
Aceitam-se o petróleo, o lítio, a água, o nióbio, a floresta, o solo fértil, a energia.
Recusam-se as pessoas que vivem sobre tudo isso.
O problema nunca foi a terra.
Sempre foi quem a habita.
Os habitantes são vistos como obstáculo, risco, incômodo.
São “instáveis”, “atrasados”, “difíceis de integrar”, “culturalmente incompatíveis”.
Mas curiosamente, seus territórios jamais são considerados incompatíveis com o mercado global.
O mapa do interesse econômico não coincide com o mapa da empatia humana.
Quer-se acesso irrestrito aos recursos —
mas ergue-se muros contra os corpos.
Quer-se livre comércio —
mas circulação seletiva de gente.
Quer-se globalização —
desde que ela não tenha rosto, sotaque ou necessidade.
E quando esses habitantes ousam se mover —
fugindo da miséria que nasceu, muitas vezes, da exploração dos próprios recursos —
são tratados como invasores.
Como se não fossem consequência direta de um sistema que extrai tudo e devolve quase nada.
A lógica é simples e cruel:
a riqueza deve circular; a pobreza deve ficar onde nasceu.
Esse pensamento sustenta guerras “preventivas”, golpes “necessários”, acordos “estratégicos”.
Sustenta também o silêncio — esse silêncio confortável — diante de populações inteiras vivendo sobre riquezas que nunca lhes pertenceram de fato.
No fundo, não se rejeita o estrangeiro.
Rejeita-se a humanidade dele.
Porque aceitar os recursos sem aceitar as pessoas é dizer, sem palavras:
“Reconheço o valor do que está sob teus pés, mas não reconheço o valor de quem pisa essa terra.”
Essa é uma das maiores contradições morais do nosso tempo.
E talvez a mais perigosa.
Enquanto tratarmos territórios como prateleiras e povos como entraves, não haverá discurso sobre direitos humanos que se sustente.
Nem progresso que não seja construído sobre exclusão.
Nem paz que não seja apenas um intervalo entre explorações.
O mundo não está em conflito por falta de recursos.
Está em conflito porque alguns insistem em querer tudo,
sem querer ninguém.
E isso, mais cedo ou mais tarde, cobra um preço.
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