Há momentos em que a história testa os limites daquilo que uma sociedade tolera — e 2025 parece ser um desses momentos.
Sob o novo ciclo de endurecimento das políticas migratórias nos Estados Unidos, quase quatro mil crianças foram detidas em operações conduzidas majoritariamente pelo ICE. Não estamos falando de criminosos perigosos, nem de ameaças à segurança nacional. Estamos falando de menores de idade, alguns ainda de colo, mantidos em centros descritos por advogados e organizações civis como ambientes sem janelas, com vigilância severa e condições indignas.
O discurso oficial insiste em associar imigração à criminalidade, mas os próprios dados desmontam essa narrativa: a maioria das famílias detidas não possui antecedentes criminais. O que pesa contra elas é, essencialmente, a pobreza, a origem e o desejo de sobreviver.
Há algo profundamente perturbador quando um Estado — qualquer Estado — decide que crianças podem ser usadas como peça de dissuasão. Detê-las por semanas, privá-las de escola, de brinquedos, de sol, de rotina, de segurança emocional, não protege fronteiras. Corrói valores.
Mais grave ainda é o silêncio institucional. Até agora, o que se vê são respostas genéricas, notas técnicas frias, estatísticas desumanizadas. Falta uma posição clara da corporação policial e do Departamento de Segurança Interna explicando, sem rodeios, como justificam manter crianças em estruturas que se assemelham a prisões.
A história mostra que políticas de força quase sempre começam mirando “os outros” — os estrangeiros, os pobres, os diferentes. E sempre terminam ampliando seus alvos.
Não se trata de ser “a favor” ou “contra” imigração. Trata-se de entender que há limites éticos que não podem ser atravessados, sob pena de nos tornarmos aquilo que juramos combater: sociedades movidas pelo medo, pela punição e pela indiferença.
Porque nenhum império, nenhuma nação, nenhuma ideologia sobrevive quando decide que a infância é descartável.
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