segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O Império da Insistência: quando o barulho vence a razão

Há uma sensação difusa — e cada vez mais difícil de ignorar — de que o mundo ficou… chato.
Não chato no sentido do tédio criativo, mas no sentido mais perigoso: o da empobrecedora repetição de ideias ruins que se impõem não por mérito, mas por exaustão.

Vivemos um tempo em que a sensatez perdeu fôlego.
Não porque esteja errada — mas porque cansa.

A lógica virou esforço.
A ponderação virou fraqueza.
A dúvida virou pecado.

E nesse terreno fértil para o simplismo, prospera um tipo específico de personagem histórico: o persistente agressivo.

A vitória não é do melhor argumento — é do mais insistente

Os idiotas — no sentido clássico da palavra, aqueles incapazes de pensar além do próprio umbigo — não vencem debates porque têm razão.
Vencem porque não desistem.

Eles repetem.
Repetem de novo.
E repetem mais uma vez.

Não refinam ideias.
Não revisam premissas.
Não aprendem.

A persistência, quando divorciada da inteligência, torna-se uma arma brutal.
E quando combinada com agressividade, vira método político, social e cultural.

A pessoa sensata, ao contrário, pondera.
Pesa consequências.
Reconhece nuances.
Cansa de explicar o óbvio para quem não quer compreender.

E então recua — não por derrota, mas por lucidez.

Só que o mundo atual não recompensa lucidez.
Recompensa volume.

A agressividade virou argumento

Em algum momento recente da história, confundimos convicção com gritaria.
Quem fala mais alto parece mais certo.
Quem xinga mais parece mais verdadeiro.
Quem ataca primeiro parece mais forte.

A opinião deixou de ser construção — virou ataque preventivo.

E assim, o espaço público foi tomado por gente que não quer convencer, quer submeter.
Não quer dialogar, quer vencer.
Não quer pensar, quer impor.

A agressividade passou a valer mais que a coerência.
E a persistência, mais que a inteligência.

O cansaço dos sensatos é a grande vantagem dos imbecis

Talvez a maior tragédia do nosso tempo não seja a ascensão dos imbecis — isso sempre aconteceu em ciclos históricos.
A tragédia é o cansaço moral dos sensatos.

Cansa explicar.
Cansa corrigir.
Cansa alertar.
Cansa dizer “isso não funciona” para quem prefere acreditar.

Enquanto isso, o imbecil não cansa.
Ele não reflete.
Ele não duvida.
Ele não sofre com complexidade.

E vence por inércia.

Não porque seja mais capaz — mas porque ocupa todos os espaços deixados vazios por quem desistiu de discutir com paredes.

Quando a mediocridade vira maioria organizada

Existe um momento crítico em toda sociedade: aquele em que a mediocridade deixa de ser ruído e passa a ser sistema.

Quando ideias rasas se organizam.
Quando slogans substituem pensamento.
Quando a persistência burra se transforma em “movimento”.
Quando a agressividade vira identidade.

Nesse ponto, não é mais debate.
É ocupação.

E sim — nesse cenário, os idiotas tomam conta do negócio.
Não porque são geniais.
Mas porque ninguém os enfrenta até o fim.

O perigo não é eles vencerem — é normalizarmos a derrota da razão

O risco maior não é viver sob o domínio dos barulhentos.
É aceitar que isso é o novo normal.

É rir, ironizar e seguir em frente.
É dizer “deixa pra lá”.
É tratar estupidez organizada como folclore.
É achar que não vale mais a pena argumentar.

Porque quando a razão abandona o campo, alguém sempre ocupa o espaço — e nunca é alguém melhor.

A história ensina isso com brutal clareza:
não é o mais forte que vence.
Nem o mais inteligente.
Nem o mais justo.

É o mais insistente quando ninguém resiste.

Talvez o mundo esteja chato porque pensar dá trabalho

Pensar exige pausa.
Exige dúvida.
Exige humildade.

Gritar, não.
Repetir, não.
Atacar, não.

O mundo ficou chato porque o esforço intelectual perdeu valor.
E quando o esforço perde valor, o raso vira padrão.

A pergunta que fica não é se os idiotas vão dominar — isso eles sempre tentam.
A pergunta real é:

até quando os sensatos vão achar que não vale a pena resistir?

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