quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Criar o “Conselho da Paz” Presidido pelo “Senhor da Guerra”: Onde Está o Viés Coerente Disso? - Parte 01

Há ideias que nascem contraditórias.
Outras nascem irônicas.
E há aquelas que parecem ter sido criadas apenas para testar até onde vai a nossa capacidade de aceitar absurdos com naturalidade.

Criar um “Conselho da Paz” presidido pelo “Senhor da Guerra” pertence claramente a essa terceira categoria.

Não se trata de uma provocação literária nem de uma metáfora mal compreendida. Trata-se de uma inversão simbólica tão gritante que deveria, no mínimo, causar desconforto coletivo. Mas não causa. E isso talvez seja o ponto mais preocupante.

A paz como ornamento, não como princípio

A palavra paz virou um objeto decorativo no discurso público. Serve para nomear conselhos, comissões, programas e slogans — independentemente de quem os lidera ou do histórico de quem os formula.

Quando um personagem cuja trajetória é marcada por confrontos, escaladas de tensão, retórica beligerante ou ações de força passa a ser o guardião institucional da paz, algo está profundamente desalinhado. Não apenas no campo ético, mas no campo lógico.

Paz não é um cargo.
Paz é um método.
Paz é coerência entre discurso e prática.

O problema não é a pessoa — é o símbolo

Alguns dirão: “Mas pessoas mudam”.
É verdade. Podem mudar. Devem mudar.

Mas símbolos não mudam com a mesma facilidade.

Ao colocar o “Senhor da Guerra” no centro de um organismo que deveria mediar conflitos, prevenir violência e promover diálogo, o Estado — ou a instituição que o faz — envia uma mensagem clara, ainda que não intencional:

A paz não precisa ser construída, apenas administrada.

E isso é falso.

A paz exige escuta.
Exige renúncia.
Exige limites.
Exige, muitas vezes, silêncio onde antes só havia imposição.

A banalização da contradição

Vivemos uma era em que contradições já não chocam — elas apenas passam.
Ministros que não entendem da área que comandam.
Órgãos de controle liderados por quem sempre rejeitou controle.
Conselhos de ética presididos por quem fez carreira no conflito.

Tudo isso se normaliza sob o argumento da “governabilidade”, da “estratégia” ou do “pragmatismo”.

Mas pragmatismo sem coerência vira cinismo institucional.

Paz não se decreta, se pratica

Um Conselho da Paz deveria ser, antes de tudo, um espaço de escuta plural, de mediação real, de construção paciente. Seu presidente deveria carregar, no mínimo, um histórico de diálogo, contenção e respeito à divergência.

Caso contrário, o conselho nasce condenado a ser apenas uma peça de retórica — um verniz civilizatório sobre estruturas que continuam operando pela lógica da força.

A pergunta que fica

Talvez a pergunta mais honesta não seja “onde está a coerência?”, mas outra, mais incômoda:

👉 Será que realmente queremos a paz — ou apenas a aparência dela?

Porque quando a paz vira palco, o poder vira protagonista.
E quando isso acontece, o conflito não desaparece — apenas muda de endereço.

E quase sempre, retorna mais violento.

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