Existe um tipo de liderança que se alimenta do medo e se sustenta no desrespeito. À primeira vista, ela parece forte. Voz firme, postura inabalável, decisões duras. Para alguns, isso soa como autoridade. Para outros, como coragem. Mas, com o tempo, a máscara cai: o que se apresenta como força, muitas vezes é apenas incapacidade de dialogar.
O medo é uma ferramenta antiga. Funciona no curto prazo. Silencia discordâncias, acelera obediências e cria a ilusão de controle. O problema é que o medo não constrói lealdade — constrói ressentimento. E ressentimento, ao contrário do medo, não desaparece quando o líder sai de cena. Ele fica. Ele se acumula. Ele se organiza.
Quando o desrespeito vira método, a liderança deixa de ser condução e passa a ser imposição. O adversário deixa de ser um interlocutor e passa a ser tratado como inimigo. Críticas se tornam ofensas pessoais. Erros deixam de ser oportunidades de correção e passam a ser negados com obstinação. E é nesse ponto que surge um dos sinais mais claros de fragilidade de caráter: a recusa em pedir desculpas.
Pedir desculpas não é fraqueza. É maturidade institucional e emocional. Um líder que se recusa a reconhecer erros envia uma mensagem perigosa: a de que está acima da própria falibilidade humana. Essa postura cria uma bolha de infalibilidade fictícia, onde a realidade é moldada para caber no discurso, e não o contrário.
Com o tempo, o isolamento se instala. Conselheiros passam a medir palavras. Aliados silenciam incômodos. O entorno vira um espelho que só devolve elogios — não por convicção, mas por autopreservação. O líder, então, passa a governar dentro de uma câmara de eco, acreditando que o mundo concorda porque o mundo não ousa discordar.
A pergunta central permanece: vai até onde?
A História sugere uma resposta desconfortável: vai até onde o ambiente permitir. Enquanto houver estruturas que normalizem o medo, relativizem o desrespeito e tratem a ausência de autocrítica como virtude, esse modelo de liderança encontra espaço. Mas o espaço não é infinito. Ele se estreita à medida que os efeitos colaterais se acumulam: crises de confiança, rupturas institucionais, erosão da legitimidade.
Nenhum poder se sustenta indefinidamente quando precisa esmagar para existir. Nenhuma liderança prospera quando precisa humilhar para se afirmar. O medo pode impor silêncio, mas não cria futuro. O desrespeito pode gerar obediência, mas não gera coesão.
No fim, a pergunta “vai até onde?” não é apenas sobre o líder — é sobre o ambiente que o tolera. Porque líderes que semeiam medo e desprezo não crescem sozinhos: eles crescem em terrenos onde o respeito foi negligenciado e a coragem de confrontar foi substituída pela conveniência de se calar.
E a História, paciente como sempre, anota.
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