Ensaios sobre os mundos que cabem em uma pessoa
Todo mundo carrega um território interno que quase ninguém conhece. Um lugar onde ficam as perguntas que nunca encontraram espaço numa conversa, as dores que não viraram relato, os medos que aprenderam a se disfarçar de força. É o universo que ninguém visita — nem os amigos mais próximos, nem os amores mais intensos, às vezes nem a própria pessoa.
Vivemos cercados de gente, mas habitados por solidões profundas.
Esse mundo invisível não nasce do nada. Ele se constrói quando a escuta falha, quando a vulnerabilidade é ridicularizada, quando a dor é minimizada com frases prontas: “isso passa”, “não é nada”, “tem gente pior”. Aos poucos, o indivíduo aprende que mostrar suas crateras é perigoso. E então constrói muralhas emocionais que parecem maturidade, mas são, na verdade, autodefesa sofisticada.
O drama do universo que ninguém visita é que ele se torna auto-suficiente em silêncio. Aprende a sobreviver sem testemunhas. E, com o tempo, confunde isolamento com autonomia. A pessoa passa a acreditar que não precisa ser vista para existir. Mas todo mundo precisa. Ser visto não é vaidade — é necessidade humana básica.
No mundo acelerado em que vivemos, visitar universos alheios exige tempo, presença e paciência — três recursos cada vez mais raros. Preferimos interações rápidas, versões editadas, relações que não exijam travessias emocionais profundas. O resultado é uma sociedade cheia de encontros e vazia de visitas reais.
Talvez o maior gesto político do nosso tempo seja aprender a visitar mundos humanos sem a pretensão de dominá-los. E talvez o maior gesto íntimo seja permitir que alguém atravesse a nossa própria fronteira interna sem precisar pedir desculpas por existir ali.
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