Existe uma velha metáfora sobre guerreiros que, ao chegar em território inimigo, destruíam os próprios meios de retorno. A mensagem era simples e brutal: não há recuo. Ou se avança, ou se cai tentando. Essa imagem atravessou séculos porque fala diretamente com um dilema moderno: nossa dificuldade em assumir compromissos reais com aquilo que dizemos querer.
No nosso tempo, não queimamos barcos — mantemos saídas de emergência emocionais, profissionais e existenciais. Sempre existe um “se der errado, eu volto”, um “se não funcionar, eu tento outra coisa”, um “depois eu vejo”. O problema não é ter alternativas; o problema é usar o “plano B” como anestesia para não se entregar de verdade ao plano A.
Muita gente chama de prudência o que, na prática, é medo de fracassar em público. O plano B vira um colchão psicológico: confortável, mas perigoso. Ele permite que a pessoa avance sem ir fundo, tente sem apostar de verdade, sonhe sem sustentar o peso do próprio sonho. É o compromisso pela metade, a entrega condicional, a ambição com freio de mão puxado.
No mundo real, grandes viradas raramente acontecem em terreno seguro. Quem constrói algo relevante — um projeto, uma carreira, uma mudança de vida — sabe que chega um ponto em que não dá para negociar com a própria dúvida. É ali que o plano B precisa mudar de significado: ele deixa de ser uma rota de fuga e passa a ser trabalhar ainda mais para que o plano A funcione.
Isso não é apologia à imprudência. Não se trata de pular sem paraquedas, mas de parar de usar o paraquedas como desculpa para não saltar de verdade. Compromisso total não é loucura; é clareza de propósito. É entender que alguns objetivos só respondem quando percebem que você não está “só experimentando”.
A cultura atual romantiza o “tenha sempre um plano B”, mas raramente discute o custo emocional disso: viver permanentemente preparado para desistir treina a mente para desistir com facilidade. A cada recuo confortável, o cérebro aprende que fugir dói menos do que insistir. E assim, projetos morrem não por falta de talento, mas por excesso de saídas de emergência.
Queimar os próprios barcos hoje não é destruir tudo ao redor; é queimar as desculpas internas que nos mantêm sempre à beira da decisão. É assumir que algumas conquistas exigem um tipo de foco que não combina com portas sempre entreabertas para a fuga.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Olá leitor, caso queira deixe seu comentário e responderemos assim que possível.