sábado, 10 de janeiro de 2026

O Uso da Informação como Ferramenta para Dominar o Sistema.

Durante séculos, quem detinha a força controlava territórios. Depois, quem dominava o capital controlava mercados. Hoje, quem controla a informação molda comportamentos, opiniões, políticas públicas e até a percepção do que é real. A informação tornou-se a maior ferramenta de poder já criada — e, ironicamente, quase ninguém percebe quando está sendo usada.

1. Informação: a Nova Arma Invisível

No passado, guerras exigiam soldados; hoje, basta um dado bem posicionado. Não se precisa derrubar governos quando se pode manipular narrativas. Não é preciso censurar quando se pode superinformar, inundar, confundir — e assim dominar pela distração ou pela falsa escolha.

A disputa não é mais entre o que é verdade ou mentira, mas entre o que participa da conversa e o que nunca chega ao debate.

2. A Lógica do Sistema

O “Sistema” — entendido aqui como o conjunto que envolve mídia, plataformas digitais, governos, corporações e elites econômicas — opera por meio de assimetrias.

Ele funciona assim:

  • Se você sabe o que o outro não sabe, você controla.

  • Se você sabe antes do outro, você lucra.

  • Se você sabe de onde vem o ataque, você se protege.

  • Se você sabe como as pessoas pensam, você as direciona.

A informação gera previsibilidade, e previsibilidade gera poder.

3. Dados: a Nova Moeda

O que você compra, o que pensa, o que teme, o que posta, o que pesquisa à noite, o tempo que fica parado num vídeo — tudo vira dado. E dados viram perfis. E perfis viram produtos.

O preço real de um serviço “gratuito” não é zero — é a sua informação.

Empresas e governos não precisam mais perguntar o que você quer: eles sabem. E saber antes significa dominar o comportamento futuro do consumidor e do eleitor.

4. A Engenharia do Consenso

A informação não serve apenas para revelar — serve também para construir. Com ela, se programam tendências, se testam discursos, se calibram narrativas. O objetivo não é forçar a opinião de ninguém, é fazer com que cada pessoa acredite que chegou à conclusão sozinha.

Esse é o ponto de genialidade: o controle eficiente é aquele que o controlado não percebe.

5. Contra-Informação: Quem Tem, Sobrevive

Pessoas e nações que não entendem o jogo da informação tornam-se dependentes do que lhes é servido. Não é à toa que:

  • países investem bilhões em inteligência;

  • empresas rastreiam mercados em tempo real;

  • plataformas analisam bilhões de cliques por dia;

  • políticos monitoram humor social antes de falar.

A ignorância custa caro. O desconhecimento torna-se submissão.

6. O Usuário Quebra o Ciclo Quando Entende o Sistema

Dominar o sistema não significa derrubá-lo, mas navegar nele com consciência. E isso começa por três atitudes simples:

  1. Filtrar o que chega — nem tudo que é dito importa.

  2. Buscar fontes múltiplas — verdade não é monopólio de ninguém.

  3. Questionar intenções — sempre há uma.

Quem consome informação de forma ativa, e não passiva, deixa de ser massa e passa a ser agente.

Conclusão

O uso da informação como ferramenta para dominar o sistema já está em curso. Não é futuro, é presente. O poder mudou de forma: hoje ele é silencioso, digital, algorítmico e psicológico.

A pergunta que resta é simples:
você está sendo usuário ou produto?
Porque no fim, só existem dois lados no jogo da informação.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Quando o Eleitor Entender que ELE É O CHEFE, o Brasil Começará a Mudar.

O maior problema do Brasil não é falta de leis, nem excesso de políticos, nem mesmo corrupção —
é um detalhe muito mais simples e mais profundo:
o eleitor ainda não entendeu que é o chefe.

Aqui, o voto virou favor.
O mandato virou propriedade.
E o político, que deveria ser funcionário temporário, passou a se comportar como dono do cargo — com a complacência de quem o colocou lá.

A inversão silenciosa de poder

Em teoria, o sistema é claro:
o eleitor contrata, avalia e demite.

Na prática brasileira, acontece o contrário:
o eleitor se comporta como súdito,
o político como chefe,
e o Estado como um ente inalcançável, quase místico.

Questionar vira “perseguição”.
Cobrar vira “radicalismo”.
Exigir resultado vira “ódio”.

Enquanto isso, a mediocridade se reelege com discurso pronto e promessa reciclada.

O voto como cheque em branco

O erro não está apenas em votar mal —
está em sumir depois do voto.

No Brasil, muitos eleitores entregam o poder a cada quatro anos e depois aceitam tudo calados:

  • promessa descumprida

  • projeto abandonado

  • escândalo explicado com nota genérica

E seguem defendendo o político como se fosse parente.

Funcionário não se defende.
Funcionário se cobra.

A infantilização do eleitor

Criou-se uma cultura confortável:
o político promete,
o eleitor acredita,
o tempo passa,
nada acontece,
e a culpa é sempre “do sistema”, “do Congresso”, “do passado”, “da herança”.

Nunca do mandatário.
Nunca de quem escolheu.

Enquanto o eleitor aceitar esse papel passivo, continuará sendo tratado como plateia — não como patrão.

Quando o medo muda de lado

As coisas começam a mudar quando o político passa a temer o eleitor, e não o contrário.

Quando entende que:

  • o cargo não é vitalício

  • a narrativa não substitui resultado

  • a reeleição não é automática

Nenhum discurso é mais poderoso do que um eleitor consciente com memória ativa.

Democracia não é torcida

Democracia não é defender político como time de futebol.
Não é relativizar erro “porque é do meu lado”.
Não é aplaudir fracasso com medo de dar razão ao adversário.

Democracia é simples e dura:
entregou pouco, sai.
prometeu demais, responde.
errou, paga.

Sem drama.
Sem idolatria.

Conclusão: o dia em que tudo muda

O Brasil começa a mudar no dia em que o eleitor entender, de verdade, que:

  • ele não deve nada a político algum

  • gratidão não substitui competência

  • voto não é favor — é ferramenta de controle

Quando isso acontecer, não será preciso salvador da pátria, nem discurso inflamado, nem promessa milagrosa.

Bastará o básico:
o chefe cobrando resultado do funcionário.

E funcionário que não entrega…
é demitido.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Brasileiro: o povo que vive — e aceita — promessas eleitoreiras ou o clássico estelionato eleitoral

O Brasil talvez seja o único país onde o estelionato não acontece depois da eleição.
Ele acontece durante a campanha, é anunciado em praça pública, transmitido ao vivo, compartilhado nas redes — e ainda assim recebe voto, aplauso e defesa apaixonada.

Aqui, o estelionato eleitoral não é crime.
É tradição.

A promessa como produto, o eleitor como cúmplice

Todo ciclo eleitoral é o mesmo ritual:
promessas irreais, slogans genéricos, frases de impacto e soluções mágicas para problemas estruturais de décadas.

É o botijão de gás erguido em praça pública, como se inflação obedecesse a gesto simbólico.
É a picanha prometida, tratada como política pública.
É a escala 6 x 1, vendida como redenção nacional sem uma linha sequer sobre quem paga a conta.
São os auxílios intermináveis, anunciados como se dinheiro público brotasse do chão, sem custo, sem consequência.

E o brasileiro?
Compra.

Compra sabendo que não será entregue.
Compra reclamando das compras anteriores.
Compra dizendo “dessa vez é diferente”.

Não é ingenuidade.
É conivência emocional.

O político promete. O eleitor finge que acredita.

Prometem:

crescimento sem custo

direito sem conta

benefício sem imposto

Estado forte sem pagar a conta

moralidade instantânea

E ninguém pergunta o básico:
como? com que dinheiro? em quanto tempo?

Porque perguntar dá trabalho.
Acreditar dá conforto.

O eleitor não quer verdade. Quer narrativa.

A verdade é chata.
Ela fala de limites, números, escolhas difíceis.

A promessa é linda.
Ela fala de futuro fácil, culpa alheia e soluções rápidas.

O brasileiro médio não vota em projeto.
Vota em história bem contada.

Se a história vem com picanha no prato, gás barato na foto e auxílio no discurso, melhor ainda.
Se não cumprir depois, azar — a próxima eleição resolve.

O estelionato perfeito

O golpe é tão bem-feito que o eleitor defende o golpista.

Quando a promessa não é cumprida, a culpa é sempre:

da oposição

do Congresso

do mercado

da imprensa

do passado

do clima

do mundo

 

Nunca do sujeito que prometeu o impossível enquanto erguia um botijão de gás como troféu.

No Brasil, político que mente perde eleição.
Perde se mentir mal.

A repetição como método

O mais perverso não é a promessa falsa.
É a repetição.

O mesmo discurso reciclado, eleição após eleição, com novos rostos, mesmos símbolos, mesmas promessas requentadas: picanha, gás barato, direitos sem conta, benefícios eternos.

E o eleitor, como se tivesse memória seletiva, age como se nada tivesse acontecido antes.

Chama-se isso de amadurecimento democrático?
Não.
Chama-se dependência de esperança barata.

O brasileiro reclama… e repete

O brasileiro reclama do político como quem reclama do tempo:
fala mal, mas não acha que pode mudar.

Então aceita.
Tolera.
Justifica.
E vota de novo.

Não é que o político engane o povo.
É que o povo aceita ser enganado, desde que a promessa seja confortável, simbólica e emocionalmente satisfatória.

Conclusão indigesta

O estelionato eleitoral no Brasil só existe porque há demanda.

Enquanto o eleitor continuar preferindo fantasia a realidade, promessa a projeto, discurso a conta fechada, botijão erguido a política séria, o golpe seguirá legalizado pelo voto.

Político nenhum sobrevive sem eleitor.
Promessa nenhuma sobrevive sem quem queira acreditar.

No fim das contas, a fraude é coletiva.
E a fatura chega sempre depois — com juros, inflação, impostos e frustração.

Mas calma.
Daqui a quatro anos tem outra promessa.
Outro símbolo.
Outro discurso.

E, como sempre, dessa vez vai ser diferente.

Quem Vai Pagar a Conta da Mudança na Escala 6 x 1?

Toda vez que alguém em Brasília anuncia uma “conquista trabalhista”, um sino toca no gabinete e um boleto nasce no Brasil real.
A mudança na escala 6 x 1 vem sendo vendida como avanço civilizatório, vitória social, passo histórico. Tudo muito bonito no discurso.
Mas, como sempre, ninguém começa pelo básico:

quem vai pagar a conta?

Porque conta sempre tem.
E nunca sobra pro discurso.

O papel aceita tudo. A realidade, não.

No papel, reduzir dias trabalhados parece simples: mais descanso, mais dignidade, mais qualidade de vida.
Na prática, o Brasil não é feito só de grandes corporações com caixa gordo e margem de sobra.

O Brasil é feito de:

padaria de bairro

mercado pequeno

oficina

restaurante familiar

produtor rural

comércio que vive no limite

Essa gente não imprime dinheiro.
Essa gente fecha a conta no fim do mês na unha.

Trabalha menos… alguém cobre

Se o trabalhador trabalha menos dias, alguém precisa cobrir:

mais contratações

mais horas extras

mais encargos

mais custo fixo

 

E o empresário pequeno não repassa custo pra planilha ideológica — repassa pra:

o preço do produto

o corte de funcionários

ou o fechamento da porta

 

Não existe milagre econômico em decreto.

O mito do “empresário malvadão”

Existe um discurso confortável que diz:
“Os empresários que arquem.”

Mas o Brasil real não é feito só de “empresários”.
É feito de gente que abriu negócio porque precisava sobreviver, não porque queria explorar alguém.

Quando o custo sobe demais, o pequeno não absorve — ele quebra.
E quando ele quebra, não sobra direito trabalhista, não sobra escala reduzida, não sobra emprego.

E o consumidor?

Ah… esse sempre paga.
Paga no preço do pão, da carne, do almoço, do serviço.

A conta nunca fica no papel.
Ela vai pro caixa, pro balcão, pro carrinho de mercado.

Quem acha que não vai pagar porque não é patrão está se enganando bonito.

O Estado entra como?

Como sempre:
regulando, anunciando, discursando — e não pagando nada.

O Estado não cobre o custo extra.
Não reduz imposto.
Não simplifica encargos.
Não assume parte do impacto.

Ele decreta… e deixa o povo se virar.

O Brasil já trabalha pouco? Não. Trabalha mal.

O problema do Brasil não é só jornada.
É:

baixa produtividade

carga tributária absurda

burocracia sufocante

insegurança jurídica

 

Reduzir a escala sem resolver isso é trocar o telhado com a casa pegando fogo.

Quem paga a conta, no fim das contas?

Vamos simplificar, como todos gostam:

o pequeno empresário paga primeiro
o trabalhador paga quando perde emprego
o consumidor paga no preço
e o país paga com menos crescimento

E quem propôs a ideia?
Segue discursando, intacto, bem pago e longe do caixa.

Conclusão.

A pergunta não é se o trabalhador merece descanso.
Merece. Sempre mereceu.

A pergunta é:
quem sustenta a conta sem quebrar o Brasil no meio?

Porque direito sem base econômica vira promessa vazia.
E promessa vazia, meu amigo, é coisa que o povo brasileiro já conhece demais.

Mudança boa é aquela que fecha a conta.
O resto é discurso de palanque — bonito, mas caro.

 

sábado, 27 de dezembro de 2025

O Brasil em Linhas Imaginárias: a fragmentação geográfica como risco real nos próximos 10 anos

Durante muito tempo, falar em separatismo no Brasil soava como folclore regional, bravata de internet ou nostalgia mal resolvida. Mas o cenário mudou. E mudou rápido. Pela primeira vez em décadas, a fragmentação geográfica do Brasil enquanto nação deixou de ser apenas retórica e passou a ocupar espaços reais no debate político, econômico e identitário.

Não se trata de prever um mapa redesenhado amanhã. Trata-se de reconhecer que, se nada mudar, o país caminha para uma década em que movimentos separatistas deixarão de ser marginais para se tornarem politicamente relevantes.

A nação que se sente distante de si mesma

O Brasil sempre foi grande demais para ser homogêneo.
Mas agora começa a ser grande demais para se sentir unido.

Regiões inteiras passaram a enxergar Brasília não como centro organizador, mas como ente estranho, distante, ineficiente e, muitas vezes, hostil. A sensação de pertencimento nacional vem sendo corroída por:

  • desigualdade regional persistente

  • centralização excessiva de decisões

  • distribuição desigual de recursos

  • discursos políticos que reforçam “nós contra eles”

Quando o cidadão deixa de se sentir parte do projeto nacional, ele começa a procurar projetos menores, mais próximos, mais compreensíveis.

É aí que o separatismo encontra terreno fértil.

Separatismo moderno não vem com bandeira na rua

Diferente do passado, os novos movimentos separatistas não surgem, necessariamente, com armas, marchas ou proclamações oficiais. Eles surgem de forma soft, gradual, quase invisível:

  • discursos de autonomia extrema

  • rejeição simbólica ao governo central

  • fortalecimento de identidades regionais acima da identidade nacional

  • defesa de modelos econômicos “independentes”

Primeiro vem o “somos diferentes”.
Depois o “somos injustiçados”.
Por fim, o “sozinhos seríamos melhores”.

Esse roteiro não é teórico — é histórico.

O papel da polarização política

A polarização nacional acelerou esse processo.
Ao transformar diferenças políticas em conflitos morais, o país empurrou regiões inteiras para posições defensivas.

Estados passaram a ser rotulados.
Eleitores, caricaturados.
Culturas regionais, ridicularizadas.

Quando uma região sente que é constantemente tratada como problema, atraso ou estorvo, ela começa a perguntar:
por que continuar?

Movimentos separatistas prosperam menos por amor à independência e mais por ressentimento acumulado.

Economia: o combustível silencioso

Nenhum separatismo sobrevive só de identidade. Ele precisa de números.

E os números estão sendo usados — às vezes de forma legítima, às vezes manipulada — para sustentar narrativas de que certas regiões “pagam mais do que recebem”, “sustentam o país” ou “são penalizadas por decisões alheias”.

Mesmo quando essas leituras são simplificadas, elas colam.
Porque falam com uma emoção poderosa: injustiça.

Nos próximos 10 anos, com possíveis crises fiscais, disputas por arrecadação e conflitos federativos mais intensos, esse discurso tende a ganhar força.

O risco real não é a separação formal

É importante ser honesto: uma ruptura territorial formal do Brasil ainda é improvável no curto prazo. As barreiras legais, institucionais e militares são altas.

Mas o maior risco não é esse.

O risco é a fragmentação funcional:

  • estados agindo como países

  • políticas públicas desconectadas

  • cooperação federativa mínima

  • sentimento nacional cada vez mais frágil

Um país pode continuar inteiro no mapa e profundamente dividido na prática.

O que virá se nada for feito?

Se a trajetória atual continuar, os próximos 10 anos podem consolidar:

  • movimentos separatistas com representação política

  • discursos autonomistas normalizados

  • tensão permanente entre centro e periferia

  • enfraquecimento do pacto federativo

Isso não leva necessariamente à independência formal, mas leva a algo igualmente perigoso: um Brasil que já não se reconhece como projeto comum.

Conclusão: unidade não se impõe — se constrói

Nenhuma nação se sustenta apenas por decreto constitucional.
Ela se sustenta quando as pessoas acreditam que vale a pena permanecer juntas.

O Brasil ainda tem tempo.
Mas o tempo não é infinito.

Ignorar os sinais, ridicularizar insatisfações regionais ou tratar qualquer debate sobre autonomia como crime moral é empurrar o problema para frente — maior, mais amargo e mais difícil de resolver.

Porque quando a pergunta deixa de ser “como melhorar o Brasil?”
e passa a ser “por que continuar nele?”,
o mapa já começou a rachar — mesmo que ainda não dê pra ver.

O Brasil em Pedaços: a escalada silenciosa da fragmentação causada pela polarização política

O Brasil não está apenas dividido.
Está fragmentado.

Divisão ainda pressupõe dois lados que se encaram. Fragmentação é pior: são estilhaços que já não se reconhecem como parte do mesmo corpo. E essa fratura não nasceu do acaso — ela vem sendo alimentada, explorada e normalizada pela polarização política dos últimos anos.

Hoje, não discordamos mais. Deslegitimamos.
Não debatemos ideias. Atacamos identidades.
Não convivemos. Toleramos com desprezo.

Quando a política deixa de ser escolha e vira identidade

Em democracias saudáveis, a política é instrumento.
No Brasil atual, virou religião.

Há dogmas, heresias, fiéis e excomungados. Quem muda de opinião é traidor. Quem questiona o próprio campo é inimigo interno. A política deixou de ser meio para organizar a vida coletiva e passou a definir quem é “gente de bem” e quem é “irrecuperável”.

Isso é explosivo.
Porque sociedades não se sustentam quando metade do país acha que a outra metade é moralmente inferior.

A lógica do “nós contra eles” virou projeto

A polarização não é mais consequência. É estratégia.

Ela mobiliza emoções primárias — medo, raiva, ressentimento — porque essas emoções rendem votos, engajamento e poder. Quanto mais o país se odeia, mais fácil é governar pelo conflito permanente.

Cria-se um Brasil onde:

  • discordar vira crime moral

  • dialogar vira suspeita

  • ponderar vira covardia

E quem tenta ocupar o centro é esmagado pelos extremos, como se equilíbrio fosse sinônimo de omissão.

Instituições pressionadas, laços sociais rompidos

A fragmentação não fica só no discurso político. Ela escorre para tudo:

  • famílias rachadas

  • amizades desfeitas

  • ambientes de trabalho tóxicos

  • desconfiança generalizada

O brasileiro passou a olhar o outro primeiro para identificar em quem ele votou, antes de saber quem ele é.

Quando isso acontece, a nação deixa de ser comunidade e vira campo minado emocional.

A falsa sensação de vitória

Cada lado acredita estar “do lado certo da história”.
Mas a história não se escreve com torcida organizada.

Enquanto um grupo comemora derrotas do outro, o país como um todo perde:

  • perde tempo

  • perde foco

  • perde capacidade de pensar soluções reais

A polarização cria a ilusão de movimento, quando na verdade estamos girando em círculos — cada vez mais agressivos, cada vez mais cansados.

O risco real: um país que já não se reconhece

O maior perigo não é a divergência.
É a desumanização.

Quando o adversário político vira inimigo existencial, qualquer coisa passa a ser justificável: censura, exceção jurídica, linchamento moral, autoritarismo “do bem”.

E a história mostra, sem exceção, que sociedades que aceitam isso em nome da própria causa acabam vítimas do mesmo mecanismo que ajudaram a legitimar.

Ainda há saída?

Há. Mas ela exige coragem — não de gritar mais alto, e sim de baixar o tom.

Exige líderes que parem de lucrar com o ódio.
Cidadãos que aceitem conviver com a diferença.
E uma compreensão básica, quase esquecida:

Nenhum lado governa sozinho um país continental.
E nenhum país sobrevive quando metade torce pelo fracasso da outra.

Conclusão

O Brasil não precisa de unanimidade.
Precisa de reconstrução do mínimo comum.

A polarização não está apenas nos afastando politicamente — está nos descolando como nação. E quanto mais tardamos em reconhecer isso, mais caro será o conserto.

Porque países não quebram só por crise econômica.
Quebram quando deixam de se enxergar como um “nós”.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Salve, Virginia

Há acontecimentos que mudam o rumo da história.
A queda do Muro de Berlim.
A chegada da internet.
E agora, o mais recente: Virginia e Vinícius Júnior.

Não se trata apenas de um relacionamento. Trata-se de um marco civilizatório. Um evento que obriga a humanidade a rever conceitos, derrubar preconceitos e, principalmente, reacender esperanças adormecidas em milhões de homens feios espalhados pelo planeta.

Sim, senhores.
Os feios voltaram ao jogo.

O fim de uma era injusta

Durante décadas, os homens feios foram empurrados para a arquibancada da vida amorosa.
Assistiam calados enquanto os bonitos jogavam no ataque, erravam tudo e ainda assim saíam aplaudidos.

O feio, não.
O feio precisava ser engraçado.
Ou rico.
Ou inteligente.
Ou tudo isso junto — e ainda assim, “vamos ver”.

Mas eis que surge Virginia.

E com ela, um novo capítulo da antropologia sentimental.

Virginia, a santa padroeira dos improváveis

A partir de agora, Virginia deixa de ser apenas Virginia.
Ela se torna símbolo.
Ícone.
Totem.
A ídola dos homens feios em todo o mundo.

Não por rebeldia.
Não por caridade.
Mas porque sua escolha rompe uma lógica cruel: a de que beleza feminina precisa, obrigatoriamente, ser acompanhada de estética masculina de capa de revista.

Virginia olha para o mundo e diz, sem dizer:
“Talvez vocês tenham exagerado na importância do maxilar.”

O novo manual do feio confiante

Desde esse relacionamento, algo mudou.
O feio acorda diferente.
O espelho já não é um inimigo.
O corte de cabelo duvidoso virou “estilo”.
A barriga agora é “presença”.

O feio anda mais ereto.
Faz contato visual.
Arrisca conversa.
Até o “bom dia” ganhou entonação.

Porque, se existe Virginia, existe esperança.

As mulheres bonitas também estão cansadas

É preciso dizer: não se trata apenas dos homens feios.
As mulheres bonitas também estão exaustas do óbvio.

Cansadas do bonito vazio.
Do sorriso treinado.
Do papo previsível.
Da embalagem perfeita com conteúdo genérico.

Talvez Virginia tenha apenas verbalizado o que muitas já pensavam:
beleza cansa quando não vem acompanhada de verdade.

O mundo não acabou. Só ficou mais interessante

Calma.
Isso não significa que todo feio agora terá fila na porta.
Não sejamos irresponsáveis.

Mas significa que o jogo ficou menos viciado.
Que o critério mudou.
Que a régua não é mais exclusivamente facial.

Agora entram em campo:
postura,
confiança,
história,
caráter,
e aquele charme inexplicável que nunca esteve nos padrões.

Conclusão histórica

Virginia não salvou apenas um relacionamento.
Ela salvou uma geração.

Aos homens feios do mundo:
levantem-se.
Cuidem-se.
Conversem melhor.
Escutem mais.
E, acima de tudo, não peçam desculpa pela própria cara.

Porque se a história recente nos ensinou algo, é simples e poderoso:

Salve, Virginia.
A beleza continua importante — mas já não manda sozinha.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Quando a Anistia Vale para Assaltantes de Bancos e Sequestradores de Embaixadores, mas Não Vale para os Baderneiros de 08 de Janeiro de 2023.

A história brasileira tem uma curiosa elasticidade moral.
Ela se estica conforme o personagem, o contexto político e — sobretudo — o interesse do momento. O nome disso não é justiça. É conveniência.

O país que concedeu anistia a assaltantes de bancos, sequestradores de embaixadores e militantes armados, em nome da “pacificação nacional”, agora se apresenta como guardião inflexível da lei diante de um episódio de vandalismo político ocorrido em 08 de janeiro de 2023.

A pergunta é inevitável — e incômoda:
desde quando a régua moral do Estado passou a funcionar com pesos tão diferentes?

A anistia seletiva

A anistia no Brasil nunca foi um gesto puramente jurídico. Sempre foi política.
Foi concedida não porque crimes deixaram de ser crimes, mas porque o poder entendeu que olhar para frente era mais útil do que insistir no passado.

Assaltos a bancos foram relativizados.
Sequestros internacionais, enquadrados como “atos de resistência”.
Mortes e explosões, diluídas no discurso da luta por um ideal maior.

A lógica era clara: o contexto justificava os meios.

Hoje, curiosamente, essa mesma lógica foi enterrada — mas só para alguns.

08 de janeiro: crime, sim. Heresia, não.

Não há aqui defesa de vandalismo. Depredar patrimônio público é crime, ontem, hoje e amanhã.
Mas transformar baderneiros em inimigos ontológicos da democracia, enquanto o passado violento de outros grupos é tratado como capítulo romantizado da história, revela mais sobre o presente do que sobre o ato em si.

Não houve sequestro de autoridade estrangeira.
Não houve tomada armada do poder.
Não houve guerra civil.

Houve caos, vandalismo, irresponsabilidade e manipulação política de massa.

Ainda assim, o discurso oficial escolheu a via da excepcionalidade absoluta: penas máximas, narrativa épica do mal, demonização total — como se o país estivesse diante de um novo 1964 ao contrário.

O problema não é a punição. É a incoerência.

O Estado tem todo o direito de punir.
O que ele não tem é o direito de fingir neutralidade histórica.

Quando a anistia foi concedida a crimes graves do passado, o argumento era a reconstrução institucional.
Hoje, quando se discute anistia para os eventos de 2023, o discurso muda: fala-se em ameaça irreparável, em exemplo, em rigor pedagógico.

Ou a democracia é forte o suficiente para sobreviver a vândalos,
ou nunca foi tão sólida quanto se proclamou.

As duas coisas ao mesmo tempo não cabem no mesmo discurso.

Justiça ou narrativa?

O que está em jogo não é apenas punição. É narrativa.
É decidir quem será lembrado como criminoso comum e quem será elevado a personagem histórico “complexo”.

A anistia no Brasil sempre foi menos sobre justiça e mais sobre quem venceu a disputa simbólica do seu tempo.

E hoje, quem controla a narrativa controla também o perdão — ou a ausência dele.

O risco do precedente

Quando o Estado escolhe tratar eventos políticos com critérios morais móveis, ele abre um precedente perigoso:
o de que a lei não é igual para todos, mas ajustável conforme o alinhamento ideológico.

Isso não fortalece a democracia.
Isso a fragiliza.

Porque amanhã, com outro vento político, a régua muda de novo — e quem hoje aplaude o rigor pode ser o próximo a descobri-lo na própria pele.

Conclusão desconfortável

O Brasil já perdoou crimes muito mais graves em nome da estabilidade.
Recusar até o debate sobre anistia agora não é sinal de maturidade democrática — é sinal de medo.

Medo não do passado,
mas do que a comparação histórica revela.

E a história, quando mal resolvida, sempre cobra juros.