sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

REINO UNIDO DEVERIA RECOMPRAR OS ESTADOS UNIDOS E REESCREVER A HISTÓRIA.

O Reino que Esqueceu de Ler o Contrato

Havia um tempo em que um império decidiu vender parte de si mesmo.
Não por fraqueza militar, nem por derrota estratégica — mas por cansaço administrativo, dívidas acumuladas e a arrogância típica de quem acredita que sempre poderá reescrever o futuro depois.

Chamaram aquela venda de independência.
Mas contratos, mesmo os históricos, não deixam de existir só porque alguém passa a contar a história de outro jeito.

O Reino Unido assinou papéis, entregou terras, soltou as rédeas e virou as costas. Do outro lado do oceano, nasceu um novo reino que jurava nunca mais se submeter a coroas, tradições ou velhos códigos. Um reino jovem, barulhento, armado de liberdade — e de amnésia seletiva.

O problema começou quando o herdeiro passou a agir como se tivesse inventado tudo sozinho.

A criança que cresceu sem tutor

O novo reino cresceu rápido.
Muito rápido.

Construiu cidades, ergueu impérios econômicos, produziu armas, narrativas e mitologias próprias. Convenceu o mundo de que era o ápice da civilização moderna — mesmo tendo herdado idioma, leis, instituições e até o conceito de democracia do velho reino que fingia desprezar.

Era como um filho que nega o pai, mas exige a herança completa.

Com o tempo, passou a se comportar como tutor do mundo:
decidia quem era vilão, quem era aliado, quem merecia sanção, quem precisava ser “libertado”. Vendia guerras embaladas como democracia, interesses travestidos de valores universais.

E o velho Reino Unido observava, entre constrangido e cúmplice, aquele experimento fora de controle.

A ironia do século

Até que alguém, em um salão silencioso da História, fez a pergunta proibida:

E se o Reino Unido resolvesse recomprar os Estados Unidos?

Não por nostalgia.
Não por imperialismo.
Mas por responsabilidade histórica.

Talvez fosse hora de revisar o contrato.

Porque o filho crescera, sim — mas crescera sem maturidade proporcional ao poder que carregava. Aprendera a falar alto antes de aprender a escutar. Aprendera a impor antes de compreender. Aprendera a intervir antes de refletir.

Era um gigante com comportamento de adolescente.

Reescrever a história não é apagá-la

Recomprar, nessa fábula, não significa anexar territórios ou hastear bandeiras.
Significa reassumir a memória.

Significa lembrar ao mundo — e principalmente ao herdeiro — que nenhuma potência nasce do nada. Que toda grandeza vem acompanhada de responsabilidade, limites e autocontenção. Que civilização não é apenas força econômica ou militar, mas capacidade de convivência, diálogo e humildade histórica.

Talvez, sob tutela simbólica, o jovem reino fosse obrigado a reaprender coisas básicas:

  • que o mundo não gira ao redor de um único eixo;

  • que diversidade cultural não é ameaça;

  • que poder sem autocrítica vira caricatura;

  • que liberdade sem freio vira dominação.

O tutor que também errou

Claro — o Reino Unido não é inocente nessa fábula.
Foi ele quem ensinou boa parte das regras do jogo. Foi ele quem colonizou, explorou, dividiu mapas com régua e arrogância. Mas também foi ele quem aprendeu, a duras penas, que impérios caem quando se recusam a evoluir.

Talvez por isso estivesse mais apto, agora, a dizer ao antigo pupilo:
Menos barulho. Mais leitura da história.

Porque reescrever a história não é negar erros.
É parar de repeti-los com bandeiras diferentes.

O mundo como fiador

Nesta fábula, quem paga o preço da imaturidade não são apenas os dois reinos. É o mundo inteiro — sempre fiador involuntário das aventuras do poder.

Recomprar os Estados Unidos, portanto, é apenas uma metáfora.
Uma provocação.

O que realmente precisa ser recomprado é:

  • o senso de limite,

  • a memória histórica,

  • a noção de que nenhum país é o “adulto da sala” por decreto.

Porque quando um reino acredita que pode escrever a história sozinho, o resultado nunca é literatura.
É sempre tragédia.

E talvez esteja na hora de alguém, com ironia britânica e chá frio sobre a mesa, dizer:

Calma. Vamos reler esse contrato juntos.

Pancho, o Zorrilho do Alegrete

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

NO CONSELHO DA PAZ, O TRONO É DO SENHOR DA GUERRA - Parte 02

Dizem que, em um tempo não muito distante, uma cidade cansou do som das batalhas.
O ruído das espadas, dos gritos e dos discursos inflamados já não assustava — apenas cansava. E quando o cansaço vence o medo, nasce o desejo pela paz.

Então os sábios da cidade reuniram-se para criar o que chamaram de Conselho da Paz.

O nome era belo.
Soava como água correndo entre pedras.
Parecia promessa.

Mas havia um detalhe.

Para presidir o conselho, escolheram aquele que mais entendia de guerra.

O homem que dominava o conflito

Era um homem experiente.
Conhecia o som das armas, o peso das ordens e a eficiência do confronto. Sabia vencer. Não sabia perder. Sabia impor.

Quem melhor para conduzir a paz do que aquele que conhece a guerra? — disseram.

E assim, o Senhor da guerra sentou-se à cabeceira da mesa onde se falaria de silêncio.

A paz tratada como estratégia

O conselho se reunia em uma sala clara, com paredes limpas e palavras bonitas. Falava-se de harmonia, equilíbrio e futuro. Mas sempre que alguém propunha escuta, o presidente respondia com planos.
Quando alguém sugeria pausa, ele oferecia ação.
Quando alguém pedia diálogo, ele apresentava controle.

A paz ali não era um caminho — era um objetivo administrativo.

Algo a ser alcançado.
Medido.
Gerenciado.

Como se a paz fosse um território a conquistar, e não um estado a cultivar.

O problema não era o homem — era o método

O Senhor da Guerra não era cruel.
Era apenas fiel à única língua que aprendera.

E essa é a armadilha silenciosa:
ninguém colhe aquilo que não sabe cultivar.

Ele falava de paz como quem fala de cessar-fogo.
Mas paz não é ausência de tiros.
É presença de escuta.

Ele falava de ordem como quem fala de disciplina.
Mas paz não nasce da obediência.
Nasce do reconhecimento.

O espelho quebrado

Certo dia, uma criança entrou na sala do conselho e perguntou:

Se a paz é silêncio, por que ela grita tanto aqui dentro?

Ninguém respondeu.

Porque algumas perguntas não pedem resposta — pedem mudança.

E ali ficou evidente o que ninguém ousava dizer:
colocar o guardião da guerra para conduzir a paz não era incoerência.
Era medo disfarçado de pragmatismo.

Medo de confiar.
Medo de ouvir.
Medo de perder o controle.

A lição que ficou

A cidade aprendeu, tarde demais, que paz não é o oposto da guerra.
É o oposto da lógica que cria a guerra.

Enquanto a paz for conduzida pelos que só conhecem o confronto, ela será apenas um intervalo — nunca um destino.

Porque não se aprende silêncio com quem vive do ruído.
Não se aprende escuta com quem sempre ordenou.
E não se constrói paz usando as mesmas mãos que nunca largaram a espada.

E assim ficou escrito na memória da cidade:

A paz não precisa de estrategistas.
Precisa de jardineiros.

E jardineiros não vencem guerras.
Eles cuidam da vida.

Criar o “Conselho da Paz” Presidido pelo “Senhor da Guerra”: Onde Está o Viés Coerente Disso? - Parte 01

Há ideias que nascem contraditórias.
Outras nascem irônicas.
E há aquelas que parecem ter sido criadas apenas para testar até onde vai a nossa capacidade de aceitar absurdos com naturalidade.

Criar um “Conselho da Paz” presidido pelo “Senhor da Guerra” pertence claramente a essa terceira categoria.

Não se trata de uma provocação literária nem de uma metáfora mal compreendida. Trata-se de uma inversão simbólica tão gritante que deveria, no mínimo, causar desconforto coletivo. Mas não causa. E isso talvez seja o ponto mais preocupante.

A paz como ornamento, não como princípio

A palavra paz virou um objeto decorativo no discurso público. Serve para nomear conselhos, comissões, programas e slogans — independentemente de quem os lidera ou do histórico de quem os formula.

Quando um personagem cuja trajetória é marcada por confrontos, escaladas de tensão, retórica beligerante ou ações de força passa a ser o guardião institucional da paz, algo está profundamente desalinhado. Não apenas no campo ético, mas no campo lógico.

Paz não é um cargo.
Paz é um método.
Paz é coerência entre discurso e prática.

O problema não é a pessoa — é o símbolo

Alguns dirão: “Mas pessoas mudam”.
É verdade. Podem mudar. Devem mudar.

Mas símbolos não mudam com a mesma facilidade.

Ao colocar o “Senhor da Guerra” no centro de um organismo que deveria mediar conflitos, prevenir violência e promover diálogo, o Estado — ou a instituição que o faz — envia uma mensagem clara, ainda que não intencional:

A paz não precisa ser construída, apenas administrada.

E isso é falso.

A paz exige escuta.
Exige renúncia.
Exige limites.
Exige, muitas vezes, silêncio onde antes só havia imposição.

A banalização da contradição

Vivemos uma era em que contradições já não chocam — elas apenas passam.
Ministros que não entendem da área que comandam.
Órgãos de controle liderados por quem sempre rejeitou controle.
Conselhos de ética presididos por quem fez carreira no conflito.

Tudo isso se normaliza sob o argumento da “governabilidade”, da “estratégia” ou do “pragmatismo”.

Mas pragmatismo sem coerência vira cinismo institucional.

Paz não se decreta, se pratica

Um Conselho da Paz deveria ser, antes de tudo, um espaço de escuta plural, de mediação real, de construção paciente. Seu presidente deveria carregar, no mínimo, um histórico de diálogo, contenção e respeito à divergência.

Caso contrário, o conselho nasce condenado a ser apenas uma peça de retórica — um verniz civilizatório sobre estruturas que continuam operando pela lógica da força.

A pergunta que fica

Talvez a pergunta mais honesta não seja “onde está a coerência?”, mas outra, mais incômoda:

👉 Será que realmente queremos a paz — ou apenas a aparência dela?

Porque quando a paz vira palco, o poder vira protagonista.
E quando isso acontece, o conflito não desaparece — apenas muda de endereço.

E quase sempre, retorna mais violento.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Agressão ao Jogador Perdigão em Curitiba: Quando o Uso da Força Precisa Ser Explicado

O caso Perdigão, a violência explícita e o silêncio que não protege ninguém

As imagens que circularam nos últimos dias, mostrando o atleta conhecido como Perdigão sendo violentamente agredido por um policial em Curitiba, não chocam apenas pela brutalidade do ato — chocam pelo que elas simbolizam: o momento exato em que a autoridade deixa de representar o Estado e passa a agir como indivíduo armado, sem freios visíveis.

Não se trata aqui de defender ou condenar previamente.
Não se trata de absolver comportamentos inadequados de cidadãos, nem de demonizar toda uma corporação.
Mas se trata, sim, de algo essencial: quando a força do Estado é usada, ela precisa ser explicada. Sempre.

O afastamento imediato do policial, assim como a manifestação do governador, são gestos institucionais corretos. Mas são gestos iniciais, não conclusivos. A sociedade viu as imagens. A sociedade reagiu. A sociedade, agora, espera respostas mais profundas do que notas protocolares.

Porque há uma pergunta que ecoa e não pode ser ignorada:
👉 O que levou um agente do Estado a agir daquela forma?

E há outra, ainda mais sensível:
👉 Qual é a versão oficial da corporação sobre o episódio?

Até agora, ouvimos condenações políticas, análises jurídicas, julgamentos nas redes sociais. Mas a voz institucional da Polícia Militar — clara, técnica, transparente — ainda é aguardada. Não para blindar ninguém, mas para proteger a própria instituição, que não pode ser refém do erro individual nem do silêncio corporativo.

A polícia existe para conter, proteger e restaurar a ordem — não para humilhar, punir ou extravasar emoções. Quando um policial perde o controle, não é só um cidadão que apanha: é a credibilidade da farda que sangra.

E é justamente por respeito aos milhares de profissionais que atuam corretamente todos os dias que episódios assim precisam ser tratados com luz, não com sombra.

Queremos ouvir:

  • O que diz o policial envolvido?

  • Qual foi o contexto real da abordagem?

  • Quais protocolos foram quebrados?

  • Que medidas corretivas serão adotadas?

  • E, principalmente, o que será feito para que isso não se repita?

Silêncio não pacifica.
Silêncio não protege.
Silêncio só alimenta desconfiança.

Se o Estado exige confiança da população, ele precisa, antes, prestar contas quando erra. A autoridade não se impõe pela força bruta, mas pela legitimidade.

E legitimidade só existe onde há transparência, responsabilidade e humanidade.

O caso Perdigão não é apenas um episódio isolado. É um teste.
Um teste de maturidade institucional.
E um teste de compromisso com aquilo que sustenta qualquer democracia: o poder que responde por seus atos.

O Poder que Ensandece

Há fenômenos humanos que não precisam de manual de instrução — basta observar e esperar. O poder é um deles. Ele entra pela porta como ferramenta, mas, se não houver freio interno, sai pela janela como delírio.

O poder em si não tem cor, país ou ideologia. É apenas energia concentrada num único ponto. O problema começa quando essa energia passa a girar no mesmo eixo que a vaidade. E é aí que o ser humano se torna um laboratório curioso: quanto mais alta a posição, mais tênue fica a fronteira entre lucidez e megalomania.

A racionalidade costuma sussurrar.
A vaidade, ao contrário, grita.

E é nesse grito que o poder encontra terreno fértil. O indivíduo que antes buscava objetivos concretos — resolver crises, construir, mediar, negociar — de repente passa a buscar outra coisa: ser visto, ser reverenciado, ser indispensável.

A partir daí, a lógica muda:

  • decisões deixam de ser técnicas e passam a ser emocionais,

  • conselhos deixam de ser bem-vindos e passam a ser ameaça,

  • aliados deixam de ser parceiros e viram plateia,

  • e qualquer crítica, por mais sutil, vira afronta.

O curioso é que o poder raramente enlouquece sozinho. Ele faz isso em dupla com a vaidade. Um alimenta o outro até que, em algum momento, a razão fica na arquibancada vendo o espetáculo acontecer.

Historicamente, o roteiro se repete:
o líder começa equilibrado, mas com o tempo passa a acreditar que não erra, não falha, não recua — e que tudo o que pensa é, por definição, certo. Não importa se o mundo inteiro discorda; para ele, o mundo está errado.

A insanidade, nesse contexto, não se apresenta como loucura clássica. Ela se apresenta como convicção absoluta. É esse o detalhe mais perigoso.

A insanidade do poderoso é silenciosa no começo.
Depois se torna barulhenta.

E quando o poder encontra o estágio final — aquele em que ninguém à volta se atreve a dizer “não” — o processo está completo. O líder já não governa: administra a própria narrativa.

Por isso, o velho ditado segue atual:
não existe teste de caráter melhor que o poder.

A insanidade, quando nasce nas margens, é apenas tragicômica.
Quando nasce no topo, custa caro.

E a História, sempre muito paciente, coleciona esses episódios com precisão de arquivista. Observa, anota e guarda para o capítulo final — aquele em que o homem passa, mas o registro fica.

Esse editorial termina com uma ironia amarga: o poder que ensandece não é apenas o poder que foi tomado… é também o poder que foi concedido. Alguém entregou. Alguém aplaudiu. Alguém achou que era uma boa ideia.

E, como sempre, a conta chega.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Quando o "Ser" é Insano, Tem Complexo de Superioridade, o Poder em Suas Mãos e Ainda Avisa Que Irá Invadir a tua “Casa”

Há um tipo específico de criatura humana que as páginas da História insistem em reciclar: aquela figura que une três elementos perigosos — insanidade disfarçada de genialidade, complexo de superioridade elevado à categoria de crença, e poder real o suficiente para transformar devaneio em tragédia.

Esse personagem, quando existe, não se contenta em ter poder; ele precisa exibir, provar e testar o poder, como quem coloca o dedo na tomada para ver se realmente dá choque. E o pior: às vezes, dá.

Para tornar o enredo completo, falta apenas um ingrediente final: anunciar abertamente suas intenções.
Não basta ter autoridade, não basta ter ambição, não basta ter histórico. Ele faz questão de avisar que irá invadir a tua “casa”, metafórica ou literal, porque dentro do próprio imaginário ele acredita que a “casa do outro” sempre foi sua.

É aí que a insanidade encontra a megalomania e dá match.

E o mais irônico? Ele sempre encontra plateia. Há quem aplauda, há quem relativize, há quem diga que é apenas uma fase, uma estratégia, uma negociação, uma bravata diplomática. Foi sempre assim: quando um louco sobe ao palco, nunca sobe sozinho. Sempre existe quem lhe empreste o microfone.

Enquanto isso, aquele que deveria se preocupar — o dono da “casa” — fica entre o riso nervoso, o medo real e o sentimento de que algo muito errado está acontecendo, mas ninguém quer admitir. Afinal, aceitar a loucura do outro exige enfrentar a própria covardia.

O enredo é velho:

  • as alianças se movem,

  • os vizinhos fingem neutralidade,

  • os comentaristas escrevem tratados acadêmicos,

  • os otimistas dizem que “não vai acontecer nada”,

  • e os historiadores suspiram porque já viram esse filme — mais de uma vez.

A lição é simples: o perigo maior não é o louco com poder. O perigo maior é o louco com poder que avisa o que vai fazer e mesmo assim ninguém leva a sério.

Talvez a humanidade precise aprender que, quando alguém anuncia que vai invadir tua casa, não se trata de metáfora, nem de brincadeira, nem de diplomacia performática.
É um teste.
E testes, quando não respondidos, viram fatos.

No fim das contas, a pergunta que fica não é sobre o insano que ameaça.
A pergunta que pesa é: quem permitiu que "alguém" assim chegasse tão longe?

Porque loucos sempre existiram.
O que não deveria existir é plateia, aplauso e silêncio.

Quando o "Ser" é Insano, Tem Complexo de Superioridade e Ainda o Poder em Suas Mãos

Há um tipo de criatura sobre a Terra que, ao contrário dos outros animais, não se contenta em respirar, comer e se reproduzir.
Ele quer mais: quer mandar, quer dominar, quer que todos ao redor acreditem no brilho superior que só ele parece enxergar no próprio espelho.

Esse ser humano — quando munido de uma dose de insanidade, uma colher de complexo de superioridade e uma caixa cheia de instrumentos de poder — transforma-se no mais perigoso dos mamíferos. Não porque é o mais forte, rápido ou inteligente… mas porque é o único capaz de destruir tudo ao seu redor acreditando estar salvando o mundo.

O curioso é que a insanidade vestida com vaidade raramente grita. Ela sussurra.
Primeiro convence o próprio anfitrião de que ele é excepcional, escolhido, único.
Depois exige plateia.
E por fim, busca controle.

E quando o controle chega, não importa se é um cargo, um título, uma instituição, um exército, um algoritmo ou uma caneta: o “iluminado” acredita que o resto do planeta lhe deve obediência. Se o mundo resiste, o mundo está errado. Se o mundo sofre, o mundo é fraco. E se o mundo perece, é porque não entendeu a grandeza da missão.

Historicamente, sempre foi assim.
O poder não corrompe apenas — ele amplifica.
Amplifica a grandeza dos sábios, mas também amplia a loucura dos vaidosos.

O que distingue um líder de um tirano não é o tamanho do trono, mas o estado da alma.
Um conduz, o outro controla.
Um ouve, o outro ordena.
Um pensa no legado, o outro pensa no retrato.

E aí entra o fator mais complexo de todos: os seguidores.
Porque o insano com complexo de superioridade nunca age sozinho.
Ele precisa de eco, precisa de quem aplauda, precise de quem diga “é isso mesmo”, pois até a loucura pede confirmação externa para se sentir normal.

A história mostra que o perigo máximo não é o louco solitário no topo,
mas a multidão que o considera um gênio incompreendido.

E quando essa equação se fecha — insanidade, vaidade e poder — surgem as perguntas que realmente importam:

  • Quem freia quem acredita ser inalcançável?

  • Quem questiona quem não aceita ser questionado?

  • Quem limita quem se considera ilimitado?

No final, sobra uma verdade silenciosa:
o poder testa o caráter, mas a ausência de limites revela o monstro.

E é por isso que sociedades saudáveis não dependem apenas de líderes brilhantes, mas de mecanismos que impeçam os brilhantes de se tornarem incendiários.

Porque o dia em que o ser humano completamente convicto de sua própria superioridade estiver livre para fazer tudo que quiser… o mundo não verá grandeza, verá fumaça.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

E Agora, Europa? Quem te defende quando teu aliado flerta com a Groenlândia.

A pergunta não é nova, mas o contexto muda tudo: O que acontece quando o guardião do mundo ocidental resolve brincar de imobiliária global? Ainda soa como piada quando lembramos que um presidente dos EUA cogitou comprar a Groenlândia — território estratégico, dono de minerais raros e com posição militar para vigiar a Rússia e o Ártico. Mas a provocação levantou poeira na Europa:
Se até os amigos negociam território, quem garante a segurança?

O velho pacto transatlântico já não é a mesma coisa

Durante décadas, a Europa viveu sob o guarda-chuva da OTAN, confiando que qualquer ameaça seria barrada por Washington. Só que o mundo virou multipolar, as ameaças migraram para o ciberespaço, e o pragmatismo se impôs:
Amizades viram contratos, e contratos possuem cláusulas escondidas.

Hoje, para Bruxelas, o fantasma não é apenas Moscou — é a possibilidade de que os EUA não sejam mais previsíveis. Aliança que oscila entre diplomacia, sanções, disputas comerciais e “propostas imobiliárias” deixa qualquer bloco ansioso.

E onde entra a Groenlândia nessa história?

Ela é o retrato perfeito da nova geopolítica:

  • posição militar chave,

  • minerais críticos para a era tecnológica,

  • porta de entrada para o Ártico,

  • competição direta com a China e a Rússia.

Não é sobre comprar território — é sobre dominar o futuro. E a Europa assistiu, meio perplexa, a um aliado disputando simbolicamente um pedaço do tabuleiro que ela considerava parte do seu quintal estratégico.

A Europa entre três pressões

Hoje, o continente parece comprimido por três forças:

  1. EUA, o aliado que pode acordar de mau humor.

  2. Rússia, o adversário tradicional que não desaparece.

  3. China, o parceiro comercial que virou rival tecnológico.

No meio disso, o discurso europeu de valores se dissolve diante da realpolitik.
Quem fala em direitos humanos, precisa comprar gás no inverno.
Quem defende a paz, vende armas no verão.
Quem precisa de chips, negocia com quem produz os minérios.

E Agora, Europa?

A grande ironia é que o continente sempre acreditou ser o berço do mundo moderno, mas agora precisa responder a uma pergunta existencial:

É possível sobreviver como potência quando tua defesa depende de outro?

A Europa tem tecnologia, economia, cultura e diplomacia.
Mas falta aquilo que define um império: autonomia estratégica.

A Groenlândia foi apenas um lembrete — meio cômico, meio assustador — de que o planeta entrou numa fase onde até o Ártico está à venda, e onde alianças não são eternas, são convenientes.

O futuro da Europa não está em perguntar quem vai defendê-la, mas se ela finalmente vai se defender sozinha.

Porque na mesa dos adultos da geopolítica global, quem não tem exército, vira opinião.

A paz mundial só vai ser alcançada quando o maior responsável por guerras finalmente prove do próprio veneno.

Os Estados Unidos nunca conheceram a verdadeira face da guerra, mas com Trump pode ser possível.

Nenhum norte  americano jamais segurou nas mãos os escombros fumegantes do que um dia chamou de lar. Nenhum soldado estadudinense ficou paralisado, assistindo impotente enquanto as ruas de sua infância se transformavam em cinzas e memórias. Nenhum pai ergueu do chão o corpo sem vida de seu filho, ainda quente, ainda pequeno demais para entender por que o céu desabou em fogo sobre sua cabeça.

As guerras que os estadudineneses conhecem são sempre Distantes. Abstratas. Travadas em terras estrangeiras, sob céus que nunca os viram nascer. Enquanto bombas caem a milhares de quilômetros, suas cidades permanecem intactas, suas famílias seguras, seus jantares servidos pontualmente.

O Analista de guerra Martyanov expõe a ferida aberta da amnésia histórica norte americana.

A diferença entre os Estados Unidos e nações como Rússia ou China não está apenas em mapas ou ideologias  está gravada em sangue e cinzas na memória coletiva. A China enterrou milhões durante a brutalidade da ocupação japonesa. A Rússia pagou com vinte e sete milhões de vidas o preço da vitória contra o nazismo. Essas nações carregam cicatrizes que não cicatrizam, feridas abertas transmitidas de geração em geração. Elas sabem. Sabem o cheiro da morte em massa, o som da sirene, o som do silêncio depois que tudo acabou, o peso de reconstruir sobre os ossos dos que amavam.

Washington, em contraste brutal, é um teatro de ilusões. Políticos ensaiando discursos patrióticos em salões de mármore. Generais estudando guerra em simulações digitais e páginas amareladas de livros de estratégia. Todos convencidos da própria invencibilidade. Todos certos de que a superioridade tecnológica norte americana é um escudo eterno contra a realidade.

E aí reside o perigo mortal.

Elites arrogantes, bebendo champanhe enquanto despacham jovens para morrer em guerras que nunca tocarão sua pele. Tomadores de decisão tão desconectados da carnificina real que tratam conflitos globais como peças em um tabuleiro, números em relatórios, manchetes controladas.

Estão brincando com fogo. E não sabem que já estão queimando.

Porque se uma guerra real verdadeira, total, apocalíptica chegasse ao solo norte  americano...

Seria o colapso absoluto de tudo que conhecem.

Nova York em chamas, arranha-céus desabando como castelos de cartas. Washington reduzida a crateras fumegantes onde um dia ficava o coração do império. Autoestradas transformadas em rios humanos de desespero  famílias inteiras fugindo com o pouco que conseguem carregar, crianças chorando nomes de entes queridos perdidos no caos, idosos abandonados à beira da estrada porque não conseguem mais andar.

Hospitais destruídos. Escolas pulverizadas. Cidades inteiras  Memphis, Phoenix, Seattle  transformadas em cemitérios a céu aberto.

O êxodo seria bíblico em escala. Milhões atravessando fronteiras em pânico, inundando o Canadá, o México, desesperados por qualquer refúgio. Estados menos atingidos sufocando sob a pressão de refugiados internos. O maior deslocamento de população da história norte  americana, talvez da história humana moderna.

E então, finalmente, saberiam o que é guerra realmente 

Martyanov oferece o veredito final, cruel e preciso:

Se os Estados Unidos parecem sempre prontos para guerra, não é por coragem. Não é por força moral ou convicção justa. É por ignorância histórica. Por arrogância cultivada em décadas de impunidade geográfica.

Um povo que nunca sentiu a guerra queimar sua própria carne acredita estar imune ao fogo. Acredita que as chamas sempre devorarão apenas os outros, do outro lado do oceano, longe o suficiente para não perturbar o sono.

Até que a realidade, cruel e implacável, bata à porta.

E quando bater, não pedirá licença.

Créditos para: Rony cheafer.