sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
NO CONSELHO DA PAZ, O TRONO É DO SENHOR DA GUERRA - Parte 02
Então os sábios da cidade reuniram-se para criar o que chamaram de Conselho da Paz.
Mas havia um detalhe.
Para presidir o conselho, escolheram aquele que mais entendia de guerra.
O homem que dominava o conflito
— Quem melhor para conduzir a paz do que aquele que conhece a guerra? — disseram.
E assim, o Senhor da guerra sentou-se à cabeceira da mesa onde se falaria de silêncio.
A paz tratada como estratégia
A paz ali não era um caminho — era um objetivo administrativo.
Como se a paz fosse um território a conquistar, e não um estado a cultivar.
O problema não era o homem — era o método
O espelho quebrado
Certo dia, uma criança entrou na sala do conselho e perguntou:
— Se a paz é silêncio, por que ela grita tanto aqui dentro?
Ninguém respondeu.
Porque algumas perguntas não pedem resposta — pedem mudança.
A lição que ficou
Enquanto a paz for conduzida pelos que só conhecem o confronto, ela será apenas um intervalo — nunca um destino.
E assim ficou escrito na memória da cidade:
A paz não precisa de estrategistas.Precisa de jardineiros.
Criar o “Conselho da Paz” Presidido pelo “Senhor da Guerra”: Onde Está o Viés Coerente Disso? - Parte 01
Criar um “Conselho da Paz” presidido pelo “Senhor da Guerra” pertence claramente a essa terceira categoria.
Não se trata de uma provocação literária nem de uma metáfora mal compreendida. Trata-se de uma inversão simbólica tão gritante que deveria, no mínimo, causar desconforto coletivo. Mas não causa. E isso talvez seja o ponto mais preocupante.
A paz como ornamento, não como princípio
A palavra paz virou um objeto decorativo no discurso público. Serve para nomear conselhos, comissões, programas e slogans — independentemente de quem os lidera ou do histórico de quem os formula.
Quando um personagem cuja trajetória é marcada por confrontos, escaladas de tensão, retórica beligerante ou ações de força passa a ser o guardião institucional da paz, algo está profundamente desalinhado. Não apenas no campo ético, mas no campo lógico.
O problema não é a pessoa — é o símbolo
Mas símbolos não mudam com a mesma facilidade.
Ao colocar o “Senhor da Guerra” no centro de um organismo que deveria mediar conflitos, prevenir violência e promover diálogo, o Estado — ou a instituição que o faz — envia uma mensagem clara, ainda que não intencional:
A paz não precisa ser construída, apenas administrada.
E isso é falso.
A banalização da contradição
Tudo isso se normaliza sob o argumento da “governabilidade”, da “estratégia” ou do “pragmatismo”.
Mas pragmatismo sem coerência vira cinismo institucional.
Paz não se decreta, se pratica
Um Conselho da Paz deveria ser, antes de tudo, um espaço de escuta plural, de mediação real, de construção paciente. Seu presidente deveria carregar, no mínimo, um histórico de diálogo, contenção e respeito à divergência.
Caso contrário, o conselho nasce condenado a ser apenas uma peça de retórica — um verniz civilizatório sobre estruturas que continuam operando pela lógica da força.
A pergunta que fica
Talvez a pergunta mais honesta não seja “onde está a coerência?”, mas outra, mais incômoda:
👉 Será que realmente queremos a paz — ou apenas a aparência dela?
E quase sempre, retorna mais violento.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Agressão ao Jogador Perdigão em Curitiba: Quando o Uso da Força Precisa Ser Explicado
O caso Perdigão, a violência explícita e o silêncio que não protege ninguém
As imagens que circularam nos últimos dias, mostrando o atleta conhecido como Perdigão sendo violentamente agredido por um policial em Curitiba, não chocam apenas pela brutalidade do ato — chocam pelo que elas simbolizam: o momento exato em que a autoridade deixa de representar o Estado e passa a agir como indivíduo armado, sem freios visíveis.
O afastamento imediato do policial, assim como a manifestação do governador, são gestos institucionais corretos. Mas são gestos iniciais, não conclusivos. A sociedade viu as imagens. A sociedade reagiu. A sociedade, agora, espera respostas mais profundas do que notas protocolares.
Até agora, ouvimos condenações políticas, análises jurídicas, julgamentos nas redes sociais. Mas a voz institucional da Polícia Militar — clara, técnica, transparente — ainda é aguardada. Não para blindar ninguém, mas para proteger a própria instituição, que não pode ser refém do erro individual nem do silêncio corporativo.
A polícia existe para conter, proteger e restaurar a ordem — não para humilhar, punir ou extravasar emoções. Quando um policial perde o controle, não é só um cidadão que apanha: é a credibilidade da farda que sangra.
E é justamente por respeito aos milhares de profissionais que atuam corretamente todos os dias que episódios assim precisam ser tratados com luz, não com sombra.
Queremos ouvir:
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O que diz o policial envolvido?
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Qual foi o contexto real da abordagem?
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Quais protocolos foram quebrados?
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Que medidas corretivas serão adotadas?
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E, principalmente, o que será feito para que isso não se repita?
Se o Estado exige confiança da população, ele precisa, antes, prestar contas quando erra. A autoridade não se impõe pela força bruta, mas pela legitimidade.
E legitimidade só existe onde há transparência, responsabilidade e humanidade.
O Poder que Ensandece
Há fenômenos humanos que não precisam de manual de instrução — basta observar e esperar. O poder é um deles. Ele entra pela porta como ferramenta, mas, se não houver freio interno, sai pela janela como delírio.
O poder em si não tem cor, país ou ideologia. É apenas energia concentrada num único ponto. O problema começa quando essa energia passa a girar no mesmo eixo que a vaidade. E é aí que o ser humano se torna um laboratório curioso: quanto mais alta a posição, mais tênue fica a fronteira entre lucidez e megalomania.
E é nesse grito que o poder encontra terreno fértil. O indivíduo que antes buscava objetivos concretos — resolver crises, construir, mediar, negociar — de repente passa a buscar outra coisa: ser visto, ser reverenciado, ser indispensável.
A partir daí, a lógica muda:
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decisões deixam de ser técnicas e passam a ser emocionais,
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conselhos deixam de ser bem-vindos e passam a ser ameaça,
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aliados deixam de ser parceiros e viram plateia,
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e qualquer crítica, por mais sutil, vira afronta.
O curioso é que o poder raramente enlouquece sozinho. Ele faz isso em dupla com a vaidade. Um alimenta o outro até que, em algum momento, a razão fica na arquibancada vendo o espetáculo acontecer.
A insanidade, nesse contexto, não se apresenta como loucura clássica. Ela se apresenta como convicção absoluta. É esse o detalhe mais perigoso.
E quando o poder encontra o estágio final — aquele em que ninguém à volta se atreve a dizer “não” — o processo está completo. O líder já não governa: administra a própria narrativa.
E a História, sempre muito paciente, coleciona esses episódios com precisão de arquivista. Observa, anota e guarda para o capítulo final — aquele em que o homem passa, mas o registro fica.
Esse editorial termina com uma ironia amarga: o poder que ensandece não é apenas o poder que foi tomado… é também o poder que foi concedido. Alguém entregou. Alguém aplaudiu. Alguém achou que era uma boa ideia.
E, como sempre, a conta chega.
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Quando o "Ser" é Insano, Tem Complexo de Superioridade, o Poder em Suas Mãos e Ainda Avisa Que Irá Invadir a tua “Casa”
Há um tipo específico de criatura humana que as páginas da História insistem em reciclar: aquela figura que une três elementos perigosos — insanidade disfarçada de genialidade, complexo de superioridade elevado à categoria de crença, e poder real o suficiente para transformar devaneio em tragédia.
Esse personagem, quando existe, não se contenta em ter poder; ele precisa exibir, provar e testar o poder, como quem coloca o dedo na tomada para ver se realmente dá choque. E o pior: às vezes, dá.
É aí que a insanidade encontra a megalomania e dá match.
E o mais irônico? Ele sempre encontra plateia. Há quem aplauda, há quem relativize, há quem diga que é apenas uma fase, uma estratégia, uma negociação, uma bravata diplomática. Foi sempre assim: quando um louco sobe ao palco, nunca sobe sozinho. Sempre existe quem lhe empreste o microfone.
Enquanto isso, aquele que deveria se preocupar — o dono da “casa” — fica entre o riso nervoso, o medo real e o sentimento de que algo muito errado está acontecendo, mas ninguém quer admitir. Afinal, aceitar a loucura do outro exige enfrentar a própria covardia.
O enredo é velho:
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as alianças se movem,
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os vizinhos fingem neutralidade,
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os comentaristas escrevem tratados acadêmicos,
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os otimistas dizem que “não vai acontecer nada”,
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e os historiadores suspiram porque já viram esse filme — mais de uma vez.
A lição é simples: o perigo maior não é o louco com poder. O perigo maior é o louco com poder que avisa o que vai fazer e mesmo assim ninguém leva a sério.
Quando o "Ser" é Insano, Tem Complexo de Superioridade e Ainda o Poder em Suas Mãos
Esse ser humano — quando munido de uma dose de insanidade, uma colher de complexo de superioridade e uma caixa cheia de instrumentos de poder — transforma-se no mais perigoso dos mamíferos. Não porque é o mais forte, rápido ou inteligente… mas porque é o único capaz de destruir tudo ao seu redor acreditando estar salvando o mundo.
E quando o controle chega, não importa se é um cargo, um título, uma instituição, um exército, um algoritmo ou uma caneta: o “iluminado” acredita que o resto do planeta lhe deve obediência. Se o mundo resiste, o mundo está errado. Se o mundo sofre, o mundo é fraco. E se o mundo perece, é porque não entendeu a grandeza da missão.
E quando essa equação se fecha — insanidade, vaidade e poder — surgem as perguntas que realmente importam:
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Quem freia quem acredita ser inalcançável?
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Quem questiona quem não aceita ser questionado?
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Quem limita quem se considera ilimitado?
E é por isso que sociedades saudáveis não dependem apenas de líderes brilhantes, mas de mecanismos que impeçam os brilhantes de se tornarem incendiários.
Porque o dia em que o ser humano completamente convicto de sua própria superioridade estiver livre para fazer tudo que quiser… o mundo não verá grandeza, verá fumaça.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
E Agora, Europa? Quem te defende quando teu aliado flerta com a Groenlândia.
O velho pacto transatlântico já não é a mesma coisa
Hoje, para Bruxelas, o fantasma não é apenas Moscou — é a possibilidade de que os EUA não sejam mais previsíveis. Aliança que oscila entre diplomacia, sanções, disputas comerciais e “propostas imobiliárias” deixa qualquer bloco ansioso.
E onde entra a Groenlândia nessa história?
Ela é o retrato perfeito da nova geopolítica:
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posição militar chave,
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minerais críticos para a era tecnológica,
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porta de entrada para o Ártico,
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competição direta com a China e a Rússia.
Não é sobre comprar território — é sobre dominar o futuro. E a Europa assistiu, meio perplexa, a um aliado disputando simbolicamente um pedaço do tabuleiro que ela considerava parte do seu quintal estratégico.
A Europa entre três pressões
Hoje, o continente parece comprimido por três forças:
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EUA, o aliado que pode acordar de mau humor.
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Rússia, o adversário tradicional que não desaparece.
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China, o parceiro comercial que virou rival tecnológico.
E Agora, Europa?
A grande ironia é que o continente sempre acreditou ser o berço do mundo moderno, mas agora precisa responder a uma pergunta existencial:
É possível sobreviver como potência quando tua defesa depende de outro?
A Groenlândia foi apenas um lembrete — meio cômico, meio assustador — de que o planeta entrou numa fase onde até o Ártico está à venda, e onde alianças não são eternas, são convenientes.