sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Quando a posição social falha em ensinar valores: o que o caso do Cão Orelha revela à comunidade

A violência cometida contra o cão Orelha, em Santa Catarina, ultrapassa — e muito — a esfera de um crime isolado de maus-tratos a um animal. O episódio escancarou uma ferida social mais profunda: o que estamos ensinando como valor quando posição social, conforto material e status não caminham junto com empatia, responsabilidade e humanidade?

Orelha não era apenas um cão.
Era um animal comunitário, reconhecido, cuidado e protegido informalmente por moradores, comerciantes e frequentadores da região da praia Brava, em Florianópolis - SC. Sua presença representava convivência, afeto e respeito mútuo. Quando ele foi brutalmente agredido, não foi apenas um animal que sofreu — foi a própria ideia de comunidade que foi atacada.

Posição social não é sinônimo de formação moral

Um dos pontos que mais indignaram a opinião pública foi a constatação de que os envolvidos não vinham de um contexto de abandono extremo, miséria ou total ausência de oportunidades. Pelo contrário: pertenciam a um estrato social que, em tese, dispõe de acesso à educação, estrutura familiar, recursos e proteção.

E é justamente aí que o debate se torna incômodo.

Porque quando a crueldade parte de quem teve oportunidades, o argumento da exclusão social perde força — e sobra uma pergunta difícil de ignorar:

Que valores estão sendo ensinados — ou tolerados — nesses ambientes?

O problema não é a posição social em si.
O problema é quando ela vem acompanhada da sensação de impunidade, superioridade ou distanciamento das consequências dos próprios atos.

O que a comunidade aprende quando isso acontece?

Casos como esse ensinam lições silenciosas, porém perigosas, se não forem enfrentados com clareza:

  • Que status pode servir de escudo moral

  • Que violência pode ser relativizada dependendo de quem a pratica

  • Que a dor de um ser indefeso pode ser tratada como “excesso juvenil”

  • Que empatia é opcional quando não há prejuízo direto ao agressor

Essas lições não são ensinadas em sala de aula — são aprendidas pelo exemplo.

E exemplos moldam gerações.

Justiça não é vingança, mas também não é conivência

A sociedade não espera linchamento moral, nem justiça de redes sociais. Mas espera algo essencial: responsabilização clara, proporcional e educativa.

Especialmente quando os envolvidos são jovens, o foco não deve ser apenas punir, mas corrigir trajetórias, impor limites reais e deixar explícito que crueldade não é aceitável — independentemente de sobrenome, bairro ou conta bancária.

Quando a resposta institucional falha ou parece tímida, a mensagem que fica é devastadora: a de que algumas vidas valem menos — sejam elas humanas ou animais.

Violência contra animais nunca é um detalhe

Há décadas, estudos mostram que a violência contra animais é um forte indicador de problemas mais amplos de empatia, autocontrole e respeito à vida. Não é exagero dizer: toda crueldade começa pequena antes de se normalizar.

Ignorar esse sinal é um erro social grave.

O que aconteceu com Orelha não pode ser tratado como “caso isolado”, nem como “imaturidade”. Foi uma escolha — e escolhas revelam valores.

O que se espera, afinal?

A sociedade espera:

  • respostas firmes das instituições;

  • clareza no processo;

  • responsabilização sem privilégios;

  • e, principalmente, um reposicionamento moral coletivo.

Porque quando uma comunidade aceita que recursos, status ou influência diminuam a gravidade de um ato cruel, ela está ensinando às próximas gerações que caráter é negociável.

E caráter nunca deveria ser.

O caso Orelha nos obriga a olhar menos para o animal que morreu — e mais para o tipo de sociedade que estamos formando.
A dor dele não pode ser em vão.

Se não aprendermos nada com isso, o problema nunca foi o cão.
Foi — e continua sendo — a falha humana que preferimos não enxergar.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

"Alguém" Nesse planeta Determinou Isso: “Os teus habitantes, não. Os teus recursos Naturais, sim.”

Há uma frase não dita — mas perfeitamente compreendida — que ecoa nas relações internacionais, nos discursos econômicos e até nas políticas migratórias modernas:
“Os teus habitantes eu não quero por perto. Mas os teus recursos naturais são muito bem-vindos.”

Ela não aparece em tratados oficiais.
Não é assinada por presidentes nem votada em parlamentos.
Mas governa decisões, move exércitos, orienta sanções e justifica intervenções.

É o colonialismo sem bandeira.
O imperialismo sem uniforme.
A exploração com linguagem técnica, limpa, “civilizada”.

Aceitam-se o petróleo, o lítio, a água, o nióbio, a floresta, o solo fértil, a energia.
Recusam-se as pessoas que vivem sobre tudo isso.

O problema nunca foi a terra.
Sempre foi quem a habita.

Os habitantes são vistos como obstáculo, risco, incômodo.
São “instáveis”, “atrasados”, “difíceis de integrar”, “culturalmente incompatíveis”.
Mas curiosamente, seus territórios jamais são considerados incompatíveis com o mercado global.

O mapa do interesse econômico não coincide com o mapa da empatia humana.

Quer-se acesso irrestrito aos recursos —
mas ergue-se muros contra os corpos.
Quer-se livre comércio —
mas circulação seletiva de gente.
Quer-se globalização —
desde que ela não tenha rosto, sotaque ou necessidade.

E quando esses habitantes ousam se mover —
fugindo da miséria que nasceu, muitas vezes, da exploração dos próprios recursos —
são tratados como invasores.
Como se não fossem consequência direta de um sistema que extrai tudo e devolve quase nada.

A lógica é simples e cruel:
a riqueza deve circular; a pobreza deve ficar onde nasceu.

Esse pensamento sustenta guerras “preventivas”, golpes “necessários”, acordos “estratégicos”.
Sustenta também o silêncio — esse silêncio confortável — diante de populações inteiras vivendo sobre riquezas que nunca lhes pertenceram de fato.

No fundo, não se rejeita o estrangeiro.
Rejeita-se a humanidade dele.

Porque aceitar os recursos sem aceitar as pessoas é dizer, sem palavras:
“Reconheço o valor do que está sob teus pés, mas não reconheço o valor de quem pisa essa terra.”

Essa é uma das maiores contradições morais do nosso tempo.
E talvez a mais perigosa.

Enquanto tratarmos territórios como prateleiras e povos como entraves, não haverá discurso sobre direitos humanos que se sustente.
Nem progresso que não seja construído sobre exclusão.
Nem paz que não seja apenas um intervalo entre explorações.

O mundo não está em conflito por falta de recursos.
Está em conflito porque alguns insistem em querer tudo,
sem querer ninguém.

E isso, mais cedo ou mais tarde, cobra um preço.

Crianças Presas em Celas nos Estados Unidos Não É Política. É Falência Moral.

Há momentos em que a história testa os limites daquilo que uma sociedade tolera — e 2025 parece ser um desses momentos.

Sob o novo ciclo de endurecimento das políticas migratórias nos Estados Unidos, quase quatro mil crianças foram detidas em operações conduzidas majoritariamente pelo ICE. Não estamos falando de criminosos perigosos, nem de ameaças à segurança nacional. Estamos falando de menores de idade, alguns ainda de colo, mantidos em centros descritos por advogados e organizações civis como ambientes sem janelas, com vigilância severa e condições indignas.

Isso não é “controle de fronteira”.
Isso não é “aplicação da lei”.
Isso é a normalização do sofrimento infantil como instrumento político.

O discurso oficial insiste em associar imigração à criminalidade, mas os próprios dados desmontam essa narrativa: a maioria das famílias detidas não possui antecedentes criminais. O que pesa contra elas é, essencialmente, a pobreza, a origem e o desejo de sobreviver.

Há algo profundamente perturbador quando um Estado — qualquer Estado — decide que crianças podem ser usadas como peça de dissuasão. Detê-las por semanas, privá-las de escola, de brinquedos, de sol, de rotina, de segurança emocional, não protege fronteiras. Corrói valores.

Mais grave ainda é o silêncio institucional. Até agora, o que se vê são respostas genéricas, notas técnicas frias, estatísticas desumanizadas. Falta uma posição clara da corporação policial e do Departamento de Segurança Interna explicando, sem rodeios, como justificam manter crianças em estruturas que se assemelham a prisões.

A pergunta é simples — e incômoda:
Se essas práticas fossem aplicadas a crianças americanas brancas, nascidas em solo americano, a sociedade aceitaria com a mesma naturalidade?

A história mostra que políticas de força quase sempre começam mirando “os outros” — os estrangeiros, os pobres, os diferentes. E sempre terminam ampliando seus alvos.

Nenhum país perde soberania por respeitar direitos humanos.
Mas perde sua alma quando passa a enxergar crianças como ameaça.

Não se trata de ser “a favor” ou “contra” imigração. Trata-se de entender que há limites éticos que não podem ser atravessados, sob pena de nos tornarmos aquilo que juramos combater: sociedades movidas pelo medo, pela punição e pela indiferença.

Celas sem janelas não educam.
Guardas severos não ensinam valores.
E crianças presas não constroem futuro algum — apenas traumas que atravessarão gerações.

Se isso é política pública, ela precisa ser urgentemente revista.
Se é estratégia de poder, ela já falhou.

Porque nenhum império, nenhuma nação, nenhuma ideologia sobrevive quando decide que a infância é descartável.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O que o mundo atual tem de semelhante com as Cruzadas Inglesas?

A história se repete exatamente igual.

À primeira vista, comparar o mundo contemporâneo às Cruzadas pode soar exagerado. Afinal, não vemos exércitos marchando com cruzes no peito nem reis declarando guerras “em nome de Deus”. Mas a história raramente se repete na forma — ela se repete na lógica.

E a lógica das Cruzadas Inglesas (e europeias, em geral) não era apenas religiosa. A fé foi o discurso. O motor real era poder, expansão, controle, riqueza e imposição cultural.

É aí que o mundo atual começa a se parecer perigosamente com aquele passado.


1. A moral como justificativa para a violência

Nas Cruzadas, dizia-se que a guerra era santa. Quem morresse nela estaria salvo. Quem a liderasse estaria legitimado. A moral vinha pronta, embalada em fé, e dispensava questionamentos.

Hoje, trocamos Deus por outros deuses modernos:

  • democracia,

  • liberdade,

  • segurança,

  • valores ocidentais,

  • “civilização”.

Pouco importa o rótulo. O mecanismo é o mesmo:
quando a causa é declarada “moralmente superior”, qualquer violência passa a ser justificável.

Assim como nas Cruzadas, não se discute mais se a guerra é justa — apenas contra quem ela será feita.


2. O inimigo desumanizado

O cruzado não via o outro como pessoa. Via como infiel, bárbaro, ameaça espiritual. Isso facilitava matar sem culpa.

Hoje, o processo é idêntico, apenas mais sofisticado:

  • o outro é “terrorista”,

  • “radical”,

  • “ameaça cultural”,

  • “inimigo da ordem”,

  • “obstáculo ao progresso”.

Quando o outro deixa de ser humano e vira conceito, o debate morre.
E quando o debate morre, a violência nasce limpa na consciência de quem a pratica.


3. A expansão disfarçada de missão

As Cruzadas não eram só sobre Jerusalém. Eram sobre rotas comerciais, territórios, influência política e controle econômico.

Hoje, também não se trata apenas de valores.
Trata-se de:

  • mercados,

  • recursos naturais,

  • influência geopolítica,

  • domínio cultural,

  • dependência econômica.

A diferença é que agora a espada foi substituída por:

  • sanções,

  • narrativas,

  • pressões diplomáticas,

  • controle tecnológico,

  • guerras “cirúrgicas”.

Mas o espírito é o mesmo: expandir, dominar e chamar isso de missão civilizatória.


4. A fé substituída pela ideologia

Se antes a fé religiosa cegava, hoje a fé ideológica cumpre o mesmo papel.

Quem acredita cegamente em um sistema — político, econômico ou cultural — passa a agir como cruzado moderno:

  • não escuta,

  • não dialoga,

  • não pondera,

  • combate.

O mundo atual está cheio de cruzados sem armadura, marchando nas redes, nos parlamentos, nas universidades e nos mercados, certos de que estão “do lado certo da história”.

E, como todo cruzado, não percebem que a certeza absoluta é o primeiro sinal de barbárie.


5. O custo humano tratado como detalhe

Nas Cruzadas, cidades eram destruídas, populações inteiras massacradas, e isso era visto como “efeito colateral”.

Hoje, mudamos o vocabulário:

  • “danos colaterais”,

  • “impactos inevitáveis”,

  • “ajustes necessários”.

A vida humana continua sendo relativizada quando atrapalha o plano maior.

A história não se envergonha de repetir esse padrão — apenas muda a linguagem para parecer mais limpa.


6. O silêncio dos sensatos

Durante as Cruzadas, havia quem discordasse. Mas os sensatos eram silenciados pelo medo, pela fé coletiva e pela pressão social.

Hoje, o fenômeno se repete:

  • quem questiona é rotulado,

  • quem pondera é atacado,

  • quem busca nuance é engolido pelos extremos.

O barulho dos cruzados modernos é alto.
A reflexão, como sempre, fala baixo.


Conclusão: as Cruzadas nunca acabaram

Elas apenas trocaram:

  • espadas por narrativas,

  • armaduras por discursos,

  • igrejas por ideologias,

  • reis por sistemas.

O perigo não está no passado — está em não reconhecer que o impulso cruzadista vive dentro de qualquer sociedade que se acha moralmente superior.

Quando alguém acredita que sua causa justifica tudo,
quando o outro vira apenas obstáculo,
quando a dúvida é vista como fraqueza,
quando a complexidade incomoda…

…as Cruzadas voltam.

E a história, paciente e cruel, apenas observa — pronta para registrar mais um capítulo escrito por quem acreditou demais em si mesmo e de menos na humanidade.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

1970. Copa do Mundo do México - o “Caso do Cadarço” como a maior jogada de marketing.

A rivalidade entre Adidas e Puma era pessoal.
Os fundadores eram irmãos.
E não se falavam.
Para evitar uma guerra financeira, fizeram um acordo secreto:
o “Pacto Pelé”.
Nenhuma das duas marcas poderia patrocinar o maior jogador do planeta.
O custo seria alto demais para ambas.
Mas a Puma enxergou uma falha.
Quartas de final.
Brasil x Peru.
Segundos antes do apito inicial,
o mundo inteiro olhava para o círculo central.
Então Pelé levantou a mão.
Pediu para o árbitro esperar.
Ele se abaixou.
Calmamente.
As câmeras fizeram o que sempre fazem:
close no maior jogador da Terra.
O que apareceu em rede mundial?
Pelé amarrando os cadarços.
E, em destaque absoluto,
o logo da Puma.
Aqueles 10 segundos valeram mais do que anos de comerciais.
A Puma havia pago US$ 120 mil, em segredo,
para Pelé quebrar o pacto naquele exato momento.
O plano era cirúrgico.
Eles sabiam que o close era inevitável.
Sabiam onde estaria a atenção.
E simplesmente… estavam lá.
Não foi um anúncio.
Foi um acontecimento.
A Adidas ficou furiosa.
O mundo comentou.
E as vendas da Puma explodiram globalmente.
Atenção é a moeda mais valiosa do mercado.
Mas o segredo não é gritar mais alto que o concorrente.
É entender onde todos vão olhar e aparecer de forma natural.
Marketing genial não interrompe o espetáculo.
Ele faz o espetáculo parar.
Pelé não vendeu uma chuteira.
Vendeu um momento.
Até hoje, o “Caso do Cadarço” é estudado como uma das maiores jogadas de marketing de guerrilha da história do esporte.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O Império da Insistência: quando o barulho vence a razão

Há uma sensação difusa — e cada vez mais difícil de ignorar — de que o mundo ficou… chato.
Não chato no sentido do tédio criativo, mas no sentido mais perigoso: o da empobrecedora repetição de ideias ruins que se impõem não por mérito, mas por exaustão.

Vivemos um tempo em que a sensatez perdeu fôlego.
Não porque esteja errada — mas porque cansa.

A lógica virou esforço.
A ponderação virou fraqueza.
A dúvida virou pecado.

E nesse terreno fértil para o simplismo, prospera um tipo específico de personagem histórico: o persistente agressivo.

A vitória não é do melhor argumento — é do mais insistente

Os idiotas — no sentido clássico da palavra, aqueles incapazes de pensar além do próprio umbigo — não vencem debates porque têm razão.
Vencem porque não desistem.

Eles repetem.
Repetem de novo.
E repetem mais uma vez.

Não refinam ideias.
Não revisam premissas.
Não aprendem.

A persistência, quando divorciada da inteligência, torna-se uma arma brutal.
E quando combinada com agressividade, vira método político, social e cultural.

A pessoa sensata, ao contrário, pondera.
Pesa consequências.
Reconhece nuances.
Cansa de explicar o óbvio para quem não quer compreender.

E então recua — não por derrota, mas por lucidez.

Só que o mundo atual não recompensa lucidez.
Recompensa volume.

A agressividade virou argumento

Em algum momento recente da história, confundimos convicção com gritaria.
Quem fala mais alto parece mais certo.
Quem xinga mais parece mais verdadeiro.
Quem ataca primeiro parece mais forte.

A opinião deixou de ser construção — virou ataque preventivo.

E assim, o espaço público foi tomado por gente que não quer convencer, quer submeter.
Não quer dialogar, quer vencer.
Não quer pensar, quer impor.

A agressividade passou a valer mais que a coerência.
E a persistência, mais que a inteligência.

O cansaço dos sensatos é a grande vantagem dos imbecis

Talvez a maior tragédia do nosso tempo não seja a ascensão dos imbecis — isso sempre aconteceu em ciclos históricos.
A tragédia é o cansaço moral dos sensatos.

Cansa explicar.
Cansa corrigir.
Cansa alertar.
Cansa dizer “isso não funciona” para quem prefere acreditar.

Enquanto isso, o imbecil não cansa.
Ele não reflete.
Ele não duvida.
Ele não sofre com complexidade.

E vence por inércia.

Não porque seja mais capaz — mas porque ocupa todos os espaços deixados vazios por quem desistiu de discutir com paredes.

Quando a mediocridade vira maioria organizada

Existe um momento crítico em toda sociedade: aquele em que a mediocridade deixa de ser ruído e passa a ser sistema.

Quando ideias rasas se organizam.
Quando slogans substituem pensamento.
Quando a persistência burra se transforma em “movimento”.
Quando a agressividade vira identidade.

Nesse ponto, não é mais debate.
É ocupação.

E sim — nesse cenário, os idiotas tomam conta do negócio.
Não porque são geniais.
Mas porque ninguém os enfrenta até o fim.

O perigo não é eles vencerem — é normalizarmos a derrota da razão

O risco maior não é viver sob o domínio dos barulhentos.
É aceitar que isso é o novo normal.

É rir, ironizar e seguir em frente.
É dizer “deixa pra lá”.
É tratar estupidez organizada como folclore.
É achar que não vale mais a pena argumentar.

Porque quando a razão abandona o campo, alguém sempre ocupa o espaço — e nunca é alguém melhor.

A história ensina isso com brutal clareza:
não é o mais forte que vence.
Nem o mais inteligente.
Nem o mais justo.

É o mais insistente quando ninguém resiste.

Talvez o mundo esteja chato porque pensar dá trabalho

Pensar exige pausa.
Exige dúvida.
Exige humildade.

Gritar, não.
Repetir, não.
Atacar, não.

O mundo ficou chato porque o esforço intelectual perdeu valor.
E quando o esforço perde valor, o raso vira padrão.

A pergunta que fica não é se os idiotas vão dominar — isso eles sempre tentam.
A pergunta real é:

até quando os sensatos vão achar que não vale a pena resistir?

sábado, 24 de janeiro de 2026

O PODER E SEUS INIMIGOS INVISÍVEIS

Por que quem cai raramente cai pelas mãos do mais forte

Diz a experiência — e não os livros de autoajuda — que quanto maior o poder, maior o número de inimigos. Mas essa é apenas a parte visível da história, aquela que conforta o ego de quem ascende: imaginar que todos os opositores são declarados, barulhentos, previsíveis.

A verdade é outra.
O poder não cria apenas inimigos. Ele cria silêncios perigosos.

Quanto mais alto alguém sobe, mais vozes deixam de confrontar e passam a concordar. Não porque concordem de fato, mas porque o custo da discordância se torna alto demais. E é nesse exato ponto que o poder começa a apodrecer por dentro.

O inimigo mais perigoso não é o mais forte.
É o que observa em silêncio.
É o que sorri enquanto toma nota.
É o que aplaude enquanto espera.

Na história dos impérios, dos governos, das empresas e até das relações humanas, raramente a queda vem de um confronto direto. Reis não caem porque enfrentaram um exército maior, mas porque confiaram demais nos que estavam ao seu lado. Líderes não fracassam por falta de força, mas por excesso de certeza.

O poder cria um campo magnético estranho: ele afasta os sinceros e atrai os oportunistas. Quem fala a verdade vai embora cedo. Quem fica, aprende a falar o que agrada. E quando todos ao redor dizem “sim”, o erro deixa de ser corrigido e passa a ser cultivado.

É aí que o poder começa a confundir respeito com medo, lealdade com conveniência, silêncio com apoio.

O mais forte se anuncia.
O inimigo oculto se adapta.

Ele não disputa espaço, não ergue bandeiras, não declara guerra. Ele apenas espera o momento exato em que o poderoso estará isolado, cercado apenas de espelhos — e então empurra. Às vezes com uma palavra, às vezes com uma ausência, às vezes apenas deixando de sustentar aquilo que sempre pareceu sólido.

E quando a queda acontece, o poderoso costuma se perguntar:
“Como isso foi possível?”

Foi possível porque o poder cega.
E a cegueira sempre antecede a queda.

Por isso, quanto mais poder alguém acumula, mais deveria investir em algo raro: escuta real. Cercar-se de quem discorda. Proteger quem alerta. Valorizar quem não se curva. Porque o maior luxo do poder não é mandar — é ainda conseguir ouvir.

No fim, não é o mais forte que derrota quem está no topo.
É o mais paciente.
O mais silencioso.
O que entendeu que o poder, quando não é vigiado pela humildade, cava a própria armadilha.

E a história é implacável em repetir a mesma lição:

O poder não cai por ataque frontal. Cai por dentro.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

REINO UNIDO DEVERIA RECOMPRAR OS ESTADOS UNIDOS E REESCREVER A HISTÓRIA.

O Reino que Esqueceu de Ler o Contrato

Havia um tempo em que um império decidiu vender parte de si mesmo.
Não por fraqueza militar, nem por derrota estratégica — mas por cansaço administrativo, dívidas acumuladas e a arrogância típica de quem acredita que sempre poderá reescrever o futuro depois.

Chamaram aquela venda de independência.
Mas contratos, mesmo os históricos, não deixam de existir só porque alguém passa a contar a história de outro jeito.

O Reino Unido assinou papéis, entregou terras, soltou as rédeas e virou as costas. Do outro lado do oceano, nasceu um novo reino que jurava nunca mais se submeter a coroas, tradições ou velhos códigos. Um reino jovem, barulhento, armado de liberdade — e de amnésia seletiva.

O problema começou quando o herdeiro passou a agir como se tivesse inventado tudo sozinho.

A criança que cresceu sem tutor

O novo reino cresceu rápido.
Muito rápido.

Construiu cidades, ergueu impérios econômicos, produziu armas, narrativas e mitologias próprias. Convenceu o mundo de que era o ápice da civilização moderna — mesmo tendo herdado idioma, leis, instituições e até o conceito de democracia do velho reino que fingia desprezar.

Era como um filho que nega o pai, mas exige a herança completa.

Com o tempo, passou a se comportar como tutor do mundo:
decidia quem era vilão, quem era aliado, quem merecia sanção, quem precisava ser “libertado”. Vendia guerras embaladas como democracia, interesses travestidos de valores universais.

E o velho Reino Unido observava, entre constrangido e cúmplice, aquele experimento fora de controle.

A ironia do século

Até que alguém, em um salão silencioso da História, fez a pergunta proibida:

E se o Reino Unido resolvesse recomprar os Estados Unidos?

Não por nostalgia.
Não por imperialismo.
Mas por responsabilidade histórica.

Talvez fosse hora de revisar o contrato.

Porque o filho crescera, sim — mas crescera sem maturidade proporcional ao poder que carregava. Aprendera a falar alto antes de aprender a escutar. Aprendera a impor antes de compreender. Aprendera a intervir antes de refletir.

Era um gigante com comportamento de adolescente.

Reescrever a história não é apagá-la

Recomprar, nessa fábula, não significa anexar territórios ou hastear bandeiras.
Significa reassumir a memória.

Significa lembrar ao mundo — e principalmente ao herdeiro — que nenhuma potência nasce do nada. Que toda grandeza vem acompanhada de responsabilidade, limites e autocontenção. Que civilização não é apenas força econômica ou militar, mas capacidade de convivência, diálogo e humildade histórica.

Talvez, sob tutela simbólica, o jovem reino fosse obrigado a reaprender coisas básicas:

  • que o mundo não gira ao redor de um único eixo;

  • que diversidade cultural não é ameaça;

  • que poder sem autocrítica vira caricatura;

  • que liberdade sem freio vira dominação.

O tutor que também errou

Claro — o Reino Unido não é inocente nessa fábula.
Foi ele quem ensinou boa parte das regras do jogo. Foi ele quem colonizou, explorou, dividiu mapas com régua e arrogância. Mas também foi ele quem aprendeu, a duras penas, que impérios caem quando se recusam a evoluir.

Talvez por isso estivesse mais apto, agora, a dizer ao antigo pupilo:
Menos barulho. Mais leitura da história.

Porque reescrever a história não é negar erros.
É parar de repeti-los com bandeiras diferentes.

O mundo como fiador

Nesta fábula, quem paga o preço da imaturidade não são apenas os dois reinos. É o mundo inteiro — sempre fiador involuntário das aventuras do poder.

Recomprar os Estados Unidos, portanto, é apenas uma metáfora.
Uma provocação.

O que realmente precisa ser recomprado é:

  • o senso de limite,

  • a memória histórica,

  • a noção de que nenhum país é o “adulto da sala” por decreto.

Porque quando um reino acredita que pode escrever a história sozinho, o resultado nunca é literatura.
É sempre tragédia.

E talvez esteja na hora de alguém, com ironia britânica e chá frio sobre a mesa, dizer:

Calma. Vamos reler esse contrato juntos.

Pancho, o Zorrilho do Alegrete

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

NO CONSELHO DA PAZ, O TRONO É DO SENHOR DA GUERRA - Parte 02

Dizem que, em um tempo não muito distante, uma cidade cansou do som das batalhas.
O ruído das espadas, dos gritos e dos discursos inflamados já não assustava — apenas cansava. E quando o cansaço vence o medo, nasce o desejo pela paz.

Então os sábios da cidade reuniram-se para criar o que chamaram de Conselho da Paz.

O nome era belo.
Soava como água correndo entre pedras.
Parecia promessa.

Mas havia um detalhe.

Para presidir o conselho, escolheram aquele que mais entendia de guerra.

O homem que dominava o conflito

Era um homem experiente.
Conhecia o som das armas, o peso das ordens e a eficiência do confronto. Sabia vencer. Não sabia perder. Sabia impor.

Quem melhor para conduzir a paz do que aquele que conhece a guerra? — disseram.

E assim, o Senhor da guerra sentou-se à cabeceira da mesa onde se falaria de silêncio.

A paz tratada como estratégia

O conselho se reunia em uma sala clara, com paredes limpas e palavras bonitas. Falava-se de harmonia, equilíbrio e futuro. Mas sempre que alguém propunha escuta, o presidente respondia com planos.
Quando alguém sugeria pausa, ele oferecia ação.
Quando alguém pedia diálogo, ele apresentava controle.

A paz ali não era um caminho — era um objetivo administrativo.

Algo a ser alcançado.
Medido.
Gerenciado.

Como se a paz fosse um território a conquistar, e não um estado a cultivar.

O problema não era o homem — era o método

O Senhor da Guerra não era cruel.
Era apenas fiel à única língua que aprendera.

E essa é a armadilha silenciosa:
ninguém colhe aquilo que não sabe cultivar.

Ele falava de paz como quem fala de cessar-fogo.
Mas paz não é ausência de tiros.
É presença de escuta.

Ele falava de ordem como quem fala de disciplina.
Mas paz não nasce da obediência.
Nasce do reconhecimento.

O espelho quebrado

Certo dia, uma criança entrou na sala do conselho e perguntou:

Se a paz é silêncio, por que ela grita tanto aqui dentro?

Ninguém respondeu.

Porque algumas perguntas não pedem resposta — pedem mudança.

E ali ficou evidente o que ninguém ousava dizer:
colocar o guardião da guerra para conduzir a paz não era incoerência.
Era medo disfarçado de pragmatismo.

Medo de confiar.
Medo de ouvir.
Medo de perder o controle.

A lição que ficou

A cidade aprendeu, tarde demais, que paz não é o oposto da guerra.
É o oposto da lógica que cria a guerra.

Enquanto a paz for conduzida pelos que só conhecem o confronto, ela será apenas um intervalo — nunca um destino.

Porque não se aprende silêncio com quem vive do ruído.
Não se aprende escuta com quem sempre ordenou.
E não se constrói paz usando as mesmas mãos que nunca largaram a espada.

E assim ficou escrito na memória da cidade:

A paz não precisa de estrategistas.
Precisa de jardineiros.

E jardineiros não vencem guerras.
Eles cuidam da vida.

Criar o “Conselho da Paz” Presidido pelo “Senhor da Guerra”: Onde Está o Viés Coerente Disso? - Parte 01

Há ideias que nascem contraditórias.
Outras nascem irônicas.
E há aquelas que parecem ter sido criadas apenas para testar até onde vai a nossa capacidade de aceitar absurdos com naturalidade.

Criar um “Conselho da Paz” presidido pelo “Senhor da Guerra” pertence claramente a essa terceira categoria.

Não se trata de uma provocação literária nem de uma metáfora mal compreendida. Trata-se de uma inversão simbólica tão gritante que deveria, no mínimo, causar desconforto coletivo. Mas não causa. E isso talvez seja o ponto mais preocupante.

A paz como ornamento, não como princípio

A palavra paz virou um objeto decorativo no discurso público. Serve para nomear conselhos, comissões, programas e slogans — independentemente de quem os lidera ou do histórico de quem os formula.

Quando um personagem cuja trajetória é marcada por confrontos, escaladas de tensão, retórica beligerante ou ações de força passa a ser o guardião institucional da paz, algo está profundamente desalinhado. Não apenas no campo ético, mas no campo lógico.

Paz não é um cargo.
Paz é um método.
Paz é coerência entre discurso e prática.

O problema não é a pessoa — é o símbolo

Alguns dirão: “Mas pessoas mudam”.
É verdade. Podem mudar. Devem mudar.

Mas símbolos não mudam com a mesma facilidade.

Ao colocar o “Senhor da Guerra” no centro de um organismo que deveria mediar conflitos, prevenir violência e promover diálogo, o Estado — ou a instituição que o faz — envia uma mensagem clara, ainda que não intencional:

A paz não precisa ser construída, apenas administrada.

E isso é falso.

A paz exige escuta.
Exige renúncia.
Exige limites.
Exige, muitas vezes, silêncio onde antes só havia imposição.

A banalização da contradição

Vivemos uma era em que contradições já não chocam — elas apenas passam.
Ministros que não entendem da área que comandam.
Órgãos de controle liderados por quem sempre rejeitou controle.
Conselhos de ética presididos por quem fez carreira no conflito.

Tudo isso se normaliza sob o argumento da “governabilidade”, da “estratégia” ou do “pragmatismo”.

Mas pragmatismo sem coerência vira cinismo institucional.

Paz não se decreta, se pratica

Um Conselho da Paz deveria ser, antes de tudo, um espaço de escuta plural, de mediação real, de construção paciente. Seu presidente deveria carregar, no mínimo, um histórico de diálogo, contenção e respeito à divergência.

Caso contrário, o conselho nasce condenado a ser apenas uma peça de retórica — um verniz civilizatório sobre estruturas que continuam operando pela lógica da força.

A pergunta que fica

Talvez a pergunta mais honesta não seja “onde está a coerência?”, mas outra, mais incômoda:

👉 Será que realmente queremos a paz — ou apenas a aparência dela?

Porque quando a paz vira palco, o poder vira protagonista.
E quando isso acontece, o conflito não desaparece — apenas muda de endereço.

E quase sempre, retorna mais violento.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Agressão ao Jogador Perdigão em Curitiba: Quando o Uso da Força Precisa Ser Explicado

O caso Perdigão, a violência explícita e o silêncio que não protege ninguém

As imagens que circularam nos últimos dias, mostrando o atleta conhecido como Perdigão sendo violentamente agredido por um policial em Curitiba, não chocam apenas pela brutalidade do ato — chocam pelo que elas simbolizam: o momento exato em que a autoridade deixa de representar o Estado e passa a agir como indivíduo armado, sem freios visíveis.

Não se trata aqui de defender ou condenar previamente.
Não se trata de absolver comportamentos inadequados de cidadãos, nem de demonizar toda uma corporação.
Mas se trata, sim, de algo essencial: quando a força do Estado é usada, ela precisa ser explicada. Sempre.

O afastamento imediato do policial, assim como a manifestação do governador, são gestos institucionais corretos. Mas são gestos iniciais, não conclusivos. A sociedade viu as imagens. A sociedade reagiu. A sociedade, agora, espera respostas mais profundas do que notas protocolares.

Porque há uma pergunta que ecoa e não pode ser ignorada:
👉 O que levou um agente do Estado a agir daquela forma?

E há outra, ainda mais sensível:
👉 Qual é a versão oficial da corporação sobre o episódio?

Até agora, ouvimos condenações políticas, análises jurídicas, julgamentos nas redes sociais. Mas a voz institucional da Polícia Militar — clara, técnica, transparente — ainda é aguardada. Não para blindar ninguém, mas para proteger a própria instituição, que não pode ser refém do erro individual nem do silêncio corporativo.

A polícia existe para conter, proteger e restaurar a ordem — não para humilhar, punir ou extravasar emoções. Quando um policial perde o controle, não é só um cidadão que apanha: é a credibilidade da farda que sangra.

E é justamente por respeito aos milhares de profissionais que atuam corretamente todos os dias que episódios assim precisam ser tratados com luz, não com sombra.

Queremos ouvir:

  • O que diz o policial envolvido?

  • Qual foi o contexto real da abordagem?

  • Quais protocolos foram quebrados?

  • Que medidas corretivas serão adotadas?

  • E, principalmente, o que será feito para que isso não se repita?

Silêncio não pacifica.
Silêncio não protege.
Silêncio só alimenta desconfiança.

Se o Estado exige confiança da população, ele precisa, antes, prestar contas quando erra. A autoridade não se impõe pela força bruta, mas pela legitimidade.

E legitimidade só existe onde há transparência, responsabilidade e humanidade.

O caso Perdigão não é apenas um episódio isolado. É um teste.
Um teste de maturidade institucional.
E um teste de compromisso com aquilo que sustenta qualquer democracia: o poder que responde por seus atos.