Há fatos que, por si só, dispõem toda a cena: mulheres negras de Santa Catarina viajaram ao centro político do país para participar da Marcha em Brasília — e foram alojadas em baias de cavalo.
Sim, não esta errado:
Baias.
De cavalo.
É o tipo de imagem que nenhuma metáfora supera.
É a realidade oferecendo sua própria alegoria — crua, brutal, impossível de suavizar.
A pergunta não é como isso aconteceu.
A pergunta é por que tanta gente que deveria se indignar, simplesmente… não disse nada.
A dor que ecoa mais alto que qualquer discurso oficial
Mulheres negras não viajam quilômetros para reivindicar direitos e serem recebidas como tropa de apoio na estrebaria.
Mas aconteceu.
E o pior: com uma naturalidade que só existe quando a estrutura já está tão viciada que ninguém acha absurdo.
Brasília tem disso: transforma a violência simbólica em protocolo, e o absurdo em logística.
Mas o mais sintomático não foi o alojamento.
Foi o silêncio.
O silêncio de quem sempre fala.
O silêncio das empoderadas de Brasília, que costumam ser porto de voz para tudo — menos para aquilo que fere seus próprios acordos de convivência com o poder.
As Empoderadas: militância de gabinete, indignação seletiva
Nos palcos, são voz firme.
Nos microfones, são resistência.
Nos posts, são coragem.
Mas quando mulheres negras reais, longe dos holofotes, enfrentam humilhação real — a resposta é uma só:
Silêncio.
Boca serrada.
Notas não escritas.
Indignação condicionada ao que não compromete quem concede crachá, mesa de reunião e passagem aérea.
As Empoderadas de Brasília se habituaram à cocheira política: confortável, arrumada, cheirosa, com alimentação garantida — desde que não escapem da cerca invisível que protege o governo, a instituição ou o grupo político que as acolhe.
E como toda cocheira bem cuidada, ela só existe porque há alguém cuidando para que os animais ali dentro não trotem para fora do perímetro.
E quando a militância é açoitada?
Acontece o que estamos vendo agora:
um episódio grave — mulheres negras tratadas como gado — é varrido para baixo do tapete institucional por quem deveria ser a primeira linha de indignação.
A militância não deveria ter dono.
Não deveria ter rabo preso.
Não deveria escolher quem merece ou não merece respeito.
Mas Brasília criou uma nova categoria:
a militância açoitada, aquela que apanha do poder e ainda precisa consentir com quem segurou o chicote.
E, quando esse açoite se levanta, as Empoderadas silenciam, porque sabem que o barulho pode custar privilégios.
E o Movimento Negro? Onde está?
Seria injusto dizer que não existe reação — ela existe, mas tímida, protocolar, quase burocrática.
Porque, no fundo, também há ali alianças, verbas, ocupações, relações e estruturas que ninguém quer ameaçar.
Assim, diante da denúncia, o movimento como instituição parece ter adotado a postura mais confortável:
esperar passar.
Só que não passa.
Porque um episódio como esse não é apenas logístico.
É simbólico.
É histórico.
É estrutural.
E quando o Movimento Negro cala, legitima.
Quando hesita, enfraquece.
Quando suaviza, se distancia da base que finge representar.
Brasília: o lugar onde as lutas se tornam ornamento
Na capital, a pauta racial se tornou um ativo político.
Todo mundo quer usar, poucos querem sustentar.
A estética da luta vale mais que a luta em si.
E é por isso que uma denúncia tão grave pôde ser tratada como um detalhe incômodo:
porque o discurso virou marca, e a prática virou ruído.
Enquanto isso, mulheres negras de verdade, aquelas que não circulam pelos gabinetes nem são convidadas para cafés estratégicos, continuam sendo tratadas como figurantes do próprio movimento que deveria defendê-las.
O recado é claro — e terrível
Quando mulheres negras são colocadas em cocheiras, e mulheres negras empoderadas fingem não ver, a mensagem é uma só:
Certas dores ainda são aceitáveis, desde que não atrapalhem a ordem política do dia.
E assim seguimos:
com mulheres negras marchando,
mulheres negras denunciando,
mulheres negras sendo alojadas em baias,
e mulheres negras no poder escolhendo silêncio.
A história nunca foi tão literal:
enquanto umas marcham, outras pastam.
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