quarta-feira, 2 de setembro de 2026

QUANDO A TOGA PRECISA EXPLICAR A TOGA

Há momentos em que uma democracia precisa parar de discutir quem está certo politicamente e começar a perguntar algo muito mais simples:

Quem fiscaliza aqueles que deveriam fiscalizar todos os outros?

O Brasil chegou novamente a esse ponto.

E talvez esta seja uma das perguntas mais incômodas que podemos fazer neste momento.

Não estamos falando de um vereador.

Não estamos falando de um empresário comum.

Não estamos falando de um cidadão sem poder.

Estamos falando de ministros do Supremo Tribunal Federal.

Estamos falando da instituição que ocupa o topo da estrutura judiciária brasileira.

Estamos falando daqueles que podem determinar buscas, prisões, bloqueios, censuras, investigações, medidas cautelares e decisões capazes de alterar a vida de pessoas, empresas e até o funcionamento das instituições.

Quando o poder é gigantesco, a obrigação de prestar contas também precisa ser.

E é justamente aí que começa o problema.


O caso Banco Master já havia colocado o nome de Dias Toffoli no centro de questionamentos sobre relações com o universo empresarial de Daniel Vorcaro. O ministro deixou a relatoria do caso depois da pressão gerada pelas revelações. Há também informações sobre negócios envolvendo familiares e o empreendimento ligado ao ministro. Toffoli nega irregularidades.

Agora surgem novas revelações envolvendo Alexandre de Moraes.

Segundo relatório da Polícia Federal, mensagens extraídas do celular de Vorcaro registrariam contatos e encontros com Moraes, além de referências a assuntos envolvendo autoridades públicas e ao escritório da esposa do ministro. Uma reportagem da Folha aponta ainda contratos que poderiam alcançar valores de centenas de milhões de reais em estruturas relacionadas ao Banco Master.

E aqui precisamos fazer uma distinção fundamental.

Suspeita não é condenação.

Mensagem não é sentença.

Relação pessoal não prova, por si só, corrupção.

Mas existe uma quarta frase que precisa ser colocada ao lado das três primeiras:

Suspeita envolvendo quem exerce o poder de julgar não pode ser tratada como assunto irrelevante.

É justamente o contrário.

Quanto maior a autoridade, maior deveria ser a exigência de transparência.


O que está acontecendo é muito maior do que Alexandre de Moraes.

É muito maior do que Dias Toffoli.

É maior até mesmo do que o Banco Master.

É uma discussão sobre a confiança na própria Justiça.

Porque o cidadão comum pode até não conhecer os detalhes de uma decisão judicial.

Pode não entender uma ação direta de inconstitucionalidade.

Pode não acompanhar um processo criminal.

Mas ele entende uma coisa perfeitamente:

juiz não pode parecer íntimo demais daqueles que podem aparecer diante dele.

E entende outra ainda mais simples:

quem julga precisa estar acima de qualquer suspeita razoável sobre seus interesses pessoais.

Não basta ser imparcial.

É necessário parecer imparcial.

Isso não é detalhe.

Isso é fundamento.


Durante anos, o Brasil ouviu que ninguém está acima da lei.

A frase é bonita.

Mas existe uma pergunta inevitável:

ninguém está acima da lei — inclusive quem aplica a lei?

Porque, se a resposta for “sim”, então precisamos exigir que essa frase seja verdadeira.

Não pode existir uma República na qual ministros tenham poder para investigar, decidir, determinar e julgar enquanto as suspeitas que recaem sobre eles próprios sejam tratadas como inconvenientes políticos.

Não pode existir um sistema em que a toga funcione como uma espécie de escudo institucional contra perguntas.

E não pode existir democracia onde questionar o poder passa a ser considerado um ataque ao poder.


Há algo particularmente preocupante nesta crise.

O Supremo não pode ser simultaneamente percebido como árbitro da disputa e parte da disputa.

Quando um ministro da Corte é alvo de suspeitas, não basta dizer que tudo será esclarecido internamente.

A sociedade precisa saber:

Quem investiga?

Quem fiscaliza?

Quem decide se existe conflito de interesses?

Quem examina as provas?

Quem garante que não haverá corporativismo?

Quem protege a investigação contra interesses institucionais?

E, sobretudo:

quem julga o julgador?

Essa pergunta não é antidemocrática.

Ela é democrática por excelência.


E aqui está o ponto em que o Brasil precisa abandonar a hipocrisia.

Quando surgem denúncias contra um político, imediatamente aparecem aqueles que dizem:

“Investigue!”

Muito bem.

Quando surgem denúncias contra empresários:

“Investigue!”

Perfeito.

Quando surgem denúncias contra cidadãos comuns:

“Que se apure!”

Correto.

Então por que deveria ser diferente quando o nome envolvido pertence a um ministro do Supremo?

A toga não pode transformar uma suspeita em tabu.

Aliás, deveria acontecer exatamente o contrário.

Quanto mais poderosa a pessoa, maior deve ser a transparência.


O Brasil não precisa escolher entre defender o Supremo e defender a investigação.

Essa é uma falsa escolha.

Podemos defender o Supremo como instituição e, ao mesmo tempo, exigir que seus ministros sejam investigados quando surgirem elementos que justifiquem investigação.

Uma instituição verdadeiramente forte não teme investigação.

Teme apenas aquilo que a investigação pode revelar.

E uma instituição verdadeiramente republicana não precisa mandar o cidadão calar a boca para preservar sua autoridade.

Ela preserva sua autoridade explicando-se.


Há também uma questão institucional que não pode ser ignorada.

O ministro André Mendonça decidiu levar ao plenário a discussão sobre a abertura de investigação relacionada às revelações envolvendo Moraes. A PGR questionou a validade do procedimento, enquanto Mendonça sustenta a necessidade de apreciação institucional da questão.

E isso nos coloca diante de uma situação extraordinariamente delicada:

o Supremo precisa encontrar uma maneira de investigar suspeitas sobre integrantes do próprio Supremo sem transformar a investigação em uma guerra interna.

É difícil.

Mas é exatamente para situações difíceis que existem instituições.


O problema mais profundo, entretanto, não está em uma mensagem.

Não está em um contrato.

Não está em um encontro.

Não está sequer em um banqueiro.

O problema está na possibilidade de que o cidadão comece a acreditar que existem dois tipos de República.

Uma para ele.

Outra para os poderosos.

Uma em que qualquer suspeita exige explicação.

Outra em que a explicação é substituída por notas oficiais.

Uma em que qualquer cidadão pode ser investigado.

Outra em que investigar quem investiga parece quase uma afronta institucional.

Se essa percepção se consolidar, perdemos algo muito maior que uma disputa política. Perdemos confiança.

E uma democracia sem confiança vira apenas uma estrutura burocrática sustentada pelo medo de questionar.


Não estou pedindo condenações.

Estou pedindo investigação.

Não estou pedindo vingança.

Estou pedindo transparência.

Não estou dizendo que ministros cometeram crimes.

Estou dizendo algo muito mais simples:

se existem fatos que levantam suspeitas, eles precisam ser examinados até o fim.

Sem blindagem.

Sem corporativismo.

Sem torcida.

Sem “nós contra eles”.

Sem direita.

Sem esquerda.

Sem amigo.

Sem inimigo.

Somente fatos.

Porque é assim que deveria funcionar uma República.


E talvez esta seja a hora de lembrar aos ocupantes da mais alta Corte do país uma verdade que vale para qualquer autoridade:

a toga não concede santidade.

A toga concede responsabilidade.

A toga não concede imunidade moral.

A toga exige comportamento compatível com a confiança depositada naquele que a veste.

A toga não coloca ninguém acima da crítica.

A toga coloca quem a veste ainda mais sob os olhos da sociedade.


O Brasil já sofreu demais com a ideia de que determinados homens seriam grandes demais para serem investigados.

Já vimos empresários poderosos.

Políticos poderosos.

Governantes poderosos.

Partidos poderosos.

Instituições poderosas.

Todos, em algum momento, acreditaram que poderiam sobreviver à própria arrogância.

Não deveriam.

Porque a República não foi construída para proteger pessoas.

Foi construída para proteger regras.

E a regra mais importante de todas deveria ser esta:

ninguém pode ser tão poderoso a ponto de não precisar explicar seus atos.

Nem presidente.

Nem senador.

Nem deputado.

Nem banqueiro.

Nem procurador.

Nem ministro do Supremo Tribunal Federal.


Talvez a maior ameaça ao Brasil não seja a existência de escândalos.

Escândalos podem ser investigados.

A verdadeira ameaça é quando a sociedade se acostuma com eles.

Quando o absurdo deixa de causar indignação.

Quando a suspeita vira rotina.

Quando a explicação deixa de ser necessária.

Quando a toga passa a valer mais que a pergunta.

Quando o cidadão começa a pensar:

“Não adianta.”

É aí que uma democracia começa a morrer.

Não necessariamente com tanques nas ruas.

Às vezes, ela começa a morrer silenciosamente, quando as pessoas deixam de acreditar que as instituições funcionam para todos.


Por isso, neste momento, não precisamos de silêncio.

Precisamos de luz.

Não precisamos de proteção corporativa.

Precisamos de transparência.

Não precisamos de discursos inflamados.

Precisamos de provas.

Não precisamos de condenações antecipadas.

Precisamos de investigação independente, séria e completa.

E se nada houver?

Que se prove.

Se houver?

Que se responsabilize.

É assim que deveria funcionar.

Sem exceções.

Sem intocáveis.

Sem deuses de toga.

Porque, numa República de verdade,

até quem julga precisa aceitar ser julgado pelos olhos da sociedade.

E talvez esta seja a hora de dizer, sem medo e sem eufemismos:

O Supremo não pode exigir respeito à sua autoridade enquanto permitir que dúvidas legítimas sobre seus próprios integrantes sejam tratadas como uma afronta à autoridade.

Respeito não se exige.

Respeito se conquista.

E confiança não se decreta.

Confiança se prova.

No Brasil de hoje, talvez a pergunta mais importante não seja mais:

“Quem tem poder?”

Talvez seja:

“Quem fiscaliza o poder quando o poder está sentado na cadeira de quem deveria fiscalizá-lo?”

Essa pergunta precisa continuar sendo feita.

Até que exista uma resposta.

Porque numa República, ninguém deveria ter a última palavra sobre si mesmo.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O ÚLTIMO CAFÉ

Meu hábito diário é quase sempre o mesmo.

Acordo por volta das sete da manhã, levanto ainda carregando um pouco do silêncio da noite e preparo meu café.

Sem pressa.

Gosto daquele momento.

O aroma começa a tomar conta da casa, invade os sentidos, anuncia que mais um dia está começando. É um cheiro que parece ter alguma coisa de memória, de aconchego, de vida.

Tomo meu café tranquilamente.

Depois, vou para a empresa, onde permaneço quase doze horas por dia.

É a rotina.

A mesma rotina que milhões de pessoas repetem todos os dias.

Acordar.

Café.

Trabalho.

Cansaço.

Casa.

Sono.

E amanhã, tudo novamente.

Até que, certo dia, enquanto saboreava meu café, um pensamento atravessou minha cabeça.

Um pensamento simples.

Mas daqueles que, depois que chegam, não vão embora facilmente.

Quando será o meu último café?

Parei por alguns segundos.

Não porque soubesse a resposta.

Justamente porque não sei.

Talvez seja amanhã.

Talvez daqui a vinte anos.

Talvez daqui a muito tempo.

Ou talvez seja num dia absolutamente comum, como tantos outros.

E foi aí que percebi uma coisa desconcertante:

o último dia da nossa vida provavelmente não terá uma placa dizendo que é o último.

Não haverá necessariamente música.

Não haverá anúncio.

Não ouviremos uma voz dizendo:

“Preste atenção. Este é o seu último dia.”

Talvez seja apenas uma terça-feira.

Ou uma quinta.

Ou um domingo.

Um dia qualquer.

Um dia que começa exatamente como todos os outros.

Talvez alguém acorde, tome seu café, converse com quem ama, vá trabalhar, faça planos para a semana seguinte e nem imagine que está vivendo as últimas horas da própria história.

E isso me fez pensar em todas as outras últimas vezes.

Quando será meu último sorriso?

Minha última conversa?

Meu último abraço?

Meu último carinho na pessoa amada?

Minha última frase?

Qual será minha última palavra?

E, talvez a pergunta mais intrigante de todas:

qual será meu último pensamento?

Ninguém sabe.

E talvez seja justamente essa ignorância que torne a vida tão extraordinária.

Porque vivemos como se houvesse sempre um próximo capítulo.

E, na maioria das vezes, há.

Por isso fazemos planos.

Marcamos compromissos.

Compramos coisas para usar depois.

Guardamos roupas para uma ocasião especial.

Adiamos aquela visita.

Deixamos para amanhã aquele telefonema.

Pensamos que teremos tempo para dizer aquilo que ainda não dissemos.

E talvez tenhamos.

Mas talvez não.

Essa é a única certeza desconfortável que a vida nos oferece:

não sabemos quanto tempo temos.

Sabemos apenas que ele está passando.

Curiosamente, não acho que pensar na morte deva nos deixar tristes.

Talvez devesse nos deixar mais atentos à vida.

Porque quando descobrimos que alguma coisa pode acabar, começamos a perceber melhor seu valor.

Uma conversa com quem amamos ganha outro significado.

Um abraço demora um pouco mais.

Um café deixa de ser apenas café.

Uma manhã deixa de ser apenas mais uma manhã.

O sol entrando pela janela deixa de ser cenário.

Passa a ser presente.

Talvez seja esse o grande ensinamento escondido na ideia do último café:

não precisamos saber qual será o último para aprender a valorizar o próximo.

Existe uma coisa estranha no ser humano.

Passamos grande parte da vida esperando alguma coisa.

Esperamos o fim de semana.

As férias.

A aposentadoria.

O dinheiro.

A oportunidade.

O momento certo.

A segunda-feira.

A sexta-feira.

O ano que vem.

Esperamos tanto pelo futuro que, às vezes, esquecemos de morar no presente.

E o presente é a única parte do tempo que realmente possuímos.

O passado já aconteceu.

O futuro ainda não chegou.

O presente é essa pequena faixa de tempo na qual estamos vivos.

E é nela que o café está quente.

É nela que a pessoa amada está ao nosso lado.

É nela que podemos dizer “eu te amo”.

É nela que podemos pedir desculpas.

É nela que podemos abraçar.

É nela que podemos sorrir.

É nela que podemos viver.

Talvez o problema não seja morrer.

Talvez o problema seja passar pela vida sem perceber que estávamos vivos.

Trabalhar doze horas por dia.

Correr.

Produzir.

Resolver problemas.

Pagar contas.

Cumprir compromissos.

E, de repente, perceber que os anos passaram enquanto estávamos ocupados demais tentando construir o futuro.

Não estou dizendo que devemos abandonar nossas responsabilidades.

Precisamos trabalhar.

Precisamos construir.

Precisamos lutar.

Precisamos conquistar.

Mas talvez seja necessário lembrar, de vez em quando, para quem estamos fazendo tudo isso.

Porque seria uma ironia terrível chegar ao fim da vida tendo conquistado tudo aquilo que planejamos e descobrir que não tivemos tempo de desfrutar aquilo que conquistamos.

Naquela manhã, depois de pensar no meu último café, olhei para a xícara de maneira diferente.

Ela continuava sendo apenas uma xícara.

O café continuava sendo apenas café.

A manhã continuava sendo uma manhã comum.

Nada havia mudado.

Exceto eu.

Porque, naquele instante, aquele café deixou de ser automático.

Eu estava presente.

Sentia o aroma.

Sentia o sabor.

Percebia o silêncio.

E pensei que talvez a vida seja feita exatamente disso:

de pequenas coisas que parecem insignificantes enquanto acontecem e que, vistas de longe, talvez sejam justamente aquilo que chamamos de vida.

Não sabemos qual será nosso último café.

Não sabemos qual será nosso último amanhecer.

Não sabemos qual será nosso último abraço.

Não sabemos quando daremos nosso último beijo.

Não sabemos quando ouviremos pela última vez a voz de alguém que amamos.

Não sabemos qual será nossa última frase.

E talvez nunca saibamos qual foi nosso último pensamento.

Mas sabemos que, enquanto estamos aqui, ainda podemos escolher como viver este momento.

Podemos continuar adiando.

Ou podemos prestar atenção.

Podemos continuar reclamando do café.

Ou podemos saboreá-lo.

Podemos continuar esperando uma ocasião especial.

Ou podemos entender que estar vivo já é uma ocasião especial.

Meu último dia vai chegar.

O seu também.

E provavelmente será num dia qualquer.

Talvez ninguém perceba imediatamente que aquele dia era diferente.

Talvez o mundo continue funcionando normalmente.

As pessoas continuarão indo trabalhar.

Os carros continuarão passando.

As lojas continuarão abrindo.

O sol continuará nascendo.

E, em algum lugar, alguém estará tomando café.

Talvez eu.

Talvez você.

Por isso, amanhã, quando acordar, antes de sair correndo para conquistar o mundo, faça uma pequena experiência.

Prepare seu café.

Sente-se.

Respire.

Sinta o aroma.

Olhe para quem estiver ao seu lado.

E, por alguns minutos, não tenha pressa.

Porque talvez aquele não seja o último café.

Muito provavelmente não será.

Mas existe uma possibilidade que não devemos esquecer:

um dia será.

E quando esse dia chegar, espero que não tenhamos passado a vida inteira esperando pelo momento certo para começar a viver.

Que tenhamos amado.

Que tenhamos abraçado.

Que tenhamos perdoado.

Que tenhamos dito as palavras importantes.

Que tenhamos rido.

Que tenhamos sonhado.

Que tenhamos feito diferença na vida de alguém.

E, principalmente, que tenhamos percebido que os grandes momentos da existência talvez nunca tenham sido os grandes acontecimentos.

Talvez tenham sido justamente aqueles pequenos momentos que quase deixamos passar.

Como um café tomado tranquilamente numa manhã qualquer.

E talvez seja por isso que, a partir de amanhã, quando eu segurar minha xícara, vou pensar menos no meu último café.

E vou prestar muito mais atenção neste café.

Porque, afinal,

é o único que tenho certeza de que estou vivendo.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

A BELEZA QUE VOCÊ VÊ

Há pessoas que conseguem encontrar beleza onde outras não enxergam absolutamente nada.

Olham para uma árvore velha e enxergam história.

Olham para uma estrada de chão e enxergam liberdade.

Olham para uma casa simples e enxergam aconchego.

Olham para um rosto marcado pelo tempo e enxergam uma vida inteira.

Olham para uma criança brincando e enxergam o futuro.

Outras passam pelos mesmos lugares e não veem nada disso.

A árvore é apenas uma árvore.

A estrada é apenas uma estrada.

A casa é velha.

O rosto está envelhecido.

A criança está apenas brincando.

Então talvez exista uma pergunta interessante escondida nisso:

será que a beleza está realmente nas coisas que contemplamos ou parte dela nasce dentro de nós?

Talvez as duas coisas.

Mas existe uma possibilidade ainda mais bonita:

a beleza que conseguimos enxergar no mundo talvez seja um reflexo daquilo que ainda conseguimos conservar dentro de nós.

Vivemos tempos curiosos.

Temos câmeras cada vez melhores, telas cada vez mais perfeitas e ferramentas capazes de produzir imagens extraordinárias.

Conseguimos corrigir uma fotografia.

Melhorar uma paisagem.

Retocar um rosto.

Eliminar imperfeições.

Criar cenários que nunca existiram.

E, apesar de toda essa capacidade tecnológica de produzir imagens bonitas, continuamos dependendo de uma coisa que nenhuma tecnologia consegue fabricar:

o olhar.

Duas pessoas podem estar diante do mesmo pôr do sol.

Uma pega o celular, registra uma fotografia e segue adiante.

A outra permanece alguns segundos em silêncio.

Não fotografou.

Não publicou.

Não recebeu curtidas.

Mas talvez tenha levado aquele pôr do sol para dentro de si.

Qual das duas realmente viu?

Talvez tenhamos aprendido demais a procurar beleza naquilo que pode ser mostrado.

Uma casa bonita.

Um carro bonito.

Uma viagem bonita.

Uma roupa bonita.

Um corpo bonito.

Uma fotografia bonita.

Uma vida aparentemente bonita.

E esquecemos que existe uma beleza que não precisa de testemunhas.

O café passado pela manhã.

A voz de alguém que amamos.

O abraço de um filho.

Uma conversa sem pressa.

A chuva batendo na janela.

O cheiro da terra molhada.

Um cachorro esperando na porta.

Uma música antiga.

Uma lembrança.

Uma mão envelhecida segurando outra.

Aquele silêncio confortável entre duas pessoas que não precisam dizer nada.

Talvez a vida esteja permanentemente nos oferecendo pequenas obras de arte.

Nós é que estamos ocupados demais para olhar.

E existe algo ainda mais profundo.

A maneira como enxergamos os outros também revela alguma coisa sobre nós.

Uma pessoa amarga encontra defeitos.

Uma pessoa desconfiada procura ameaças.

Uma pessoa invejosa compara.

Uma pessoa ressentida interpreta quase tudo como provocação.

Mas alguém que carrega generosidade dentro de si costuma encontrar motivos para compreender.

Quem possui ternura reconhece fragilidades.

Quem conhece a dor percebe a dor alheia.

Quem aprendeu a agradecer encontra motivos para agradecer onde outros só encontram motivos para reclamar.

Isso não significa que tudo seja bonito.

Não é.

Existem injustiças.

Existem crueldades.

Existem pessoas ruins.

Existem situações que precisam ser enfrentadas.

Enxergar beleza não significa fechar os olhos para aquilo que é feio.

Significa não permitir que o feio ocupe todo o espaço do nosso olhar.

Talvez seja esse o perigo do nosso tempo.

Passamos tanto tempo observando aquilo que nos revolta que começamos a acreditar que o mundo é feito apenas de coisas que nos revoltam.

As notícias chegam carregadas de tragédias.

As redes sociais amplificam conflitos.

As pessoas discutem.

Acusam.

Cancelam.

Ofendem.

E, lentamente, nossa percepção do mundo pode ficar contaminada.

Começamos a enxergar o pior primeiro.

Talvez precisemos recuperar a capacidade de encontrar aquilo que continua sendo bom.

Não por ingenuidade.

Por equilíbrio.

Porque existe uma diferença enorme entre saber que o mundo possui coisas ruins e acreditar que o mundo é feito apenas delas.

Talvez a beleza seja uma espécie de idioma.

E cada pessoa fala esse idioma de uma maneira diferente.

Para alguém, beleza pode ser uma grande obra de arte.

Para outro, pode ser uma paisagem.

Para outro, uma canção.

Para outro, uma pessoa.

Para outro, simplesmente a oportunidade de acordar pela manhã e ainda ter alguém para dizer “bom dia”.

Talvez não exista uma régua universal para medir aquilo que toca o coração.

E talvez nem devesse existir.

Porque a beleza mais importante não é necessariamente aquela que impressiona.

É aquela que nos transforma por alguns instantes.

Há pessoas que envelhecem e ficam mais bonitas.

Não porque os anos tenham diminuído suas marcas.

Justamente o contrário.

As marcas aumentaram.

Mas existe algo no olhar.

Uma serenidade.

Uma história.

Uma espécie de sabedoria silenciosa.

E então percebemos:

algumas pessoas ficam bonitas porque passaram a vida inteira aprendendo a enxergar.

Talvez seja isso que o tempo deveria fazer conosco.

Não apenas acrescentar anos.

Acrescentar profundidade.

Fazer com que vejamos aquilo que antes passava despercebido.

Uma pessoa jovem pode admirar uma flor porque ela é bonita.

Uma pessoa que viveu muito talvez admire a mesma flor porque sabe que ela não estará ali para sempre.

A flor é a mesma.

O olhar mudou.

Por isso, talvez seja interessante fazer uma pequena experiência.

Amanhã, antes de começar o dia, pare por alguns minutos.

Olhe ao redor.

Não procure nada extraordinário.

Procure alguma coisa simples.

Uma janela.

Uma árvore.

Uma pessoa.

Uma xícara de café.

Uma criança.

Um animal.

Uma fotografia antiga.

A luz entrando pela casa.

E tente olhar sem pressa.

Talvez descubra que aquilo sempre esteve ali.

O que mudou foi você.

No fim, talvez a frase seja ainda mais profunda do que parece:

“A beleza que você vê nas coisas é um reflexo da beleza que habita em você.”

Talvez seja por isso que algumas pessoas encontrem poesia numa estrada de chão enquanto outras só enxergam poeira.

Talvez seja por isso que alguém consiga olhar para uma pessoa ferida e enxergar dignidade, enquanto outro enxerga apenas fraqueza.

Talvez seja por isso que alguns conseguem agradecer por um dia simples enquanto outros precisam de acontecimentos extraordinários para se sentirem vivos.

A beleza não está apenas diante dos nossos olhos.

Ela também depende daquilo que nossos olhos carregam por dentro.

E talvez essa seja uma das tarefas mais bonitas que temos pela frente:

cuidar daquilo que existe dentro de nós.

Porque, quando o interior fica bonito, o mundo não necessariamente muda.

Mas o nosso olhar muda.

E, de repente, percebemos que havia beleza em lugares onde passávamos todos os dias.

Havia beleza em pessoas que não sabíamos enxergar.

Havia beleza em momentos que julgávamos banais.

Havia beleza na vida.

Talvez ela sempre estivesse ali.

Esperando apenas que nós aprendêssemos novamente a vê-la.

domingo, 23 de agosto de 2026

A VELHA MÁQUINA DE DATILOGRAFAR X INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Confesso.

Sempre fui meio “antigão”.

Nunca fui exatamente aquilo que se poderia chamar de um entusiasta das novidades.

Quando aparecia alguma inovação, minha primeira reação não era:

“Que maravilha!”

Era mais ou menos:

“Mas para que mexer no que está funcionando?”

E talvez essa seja uma das características mais curiosas do ser humano:

nós nos acostumamos tanto com aquilo que conhecemos que, às vezes, confundimos conforto com eficiência.

Lembro perfeitamente de um episódio ocorrido por volta de 1992, quando trabalhava no serviço público.

Naquela época, apareceu uma novidade que parecia destinada a mudar completamente nosso ambiente de trabalho:

o computador.

A máquina chegava para substituir aquela companheira de tantas jornadas:

a velha e boa máquina de datilografar.

Haveria treinamento.

Teríamos que aprender a operar aquela coisa.

Teclas diferentes.

Tela.

Comandos.

Disquetes.

Um monte de coisas que, naquele momento, pareciam complicar aquilo que a velha máquina de escrever resolvia muito bem.

E houve um servidor que rejeitou completamente a ideia.

Adivinhem quem?

Eu.

Lembro de ter dito, com a segurança de quem acreditava estar enxergando o futuro:

“Eu não vou abandonar minha máquina de escrever.”

Ela era minha companheira de luta.

Eu conhecia cada tecla.

Conhecia o barulho das teclas.

Conhecia o peso da mão sobre o teclado.

Conhecia até o jeito de puxar o papel.

Para mim, aquilo era eficiência.

O computador?

Uma novidade passageira.

Eu acreditava sinceramente que aquela moda tecnológica logo seria esquecida.

Hoje, olhando para trás, confesso que dá vontade de rir.

Porque existe uma coisa maravilhosa no tempo:

ele tem o péssimo hábito de provar que estamos errados.

O computador não foi embora.

Quem foi embora foi a máquina de escrever.

E não demorou muito.

Aquele equipamento que parecia tão moderno quando chegou passou a ser indispensável.

Depois vieram os computadores pessoais.

A internet.

Os telefones celulares.

Os smartphones.

As videoconferências.

Os aplicativos.

As plataformas digitais.

A inteligência artificial.

E, a cada nova transformação, aparece novamente alguém dizendo:

“Isso não vai durar.”

Talvez exista uma regra na história das inovações:

quanto mais radical é a mudança, maior é a resistência inicial.

Não porque as pessoas sejam necessariamente ignorantes.

Mas porque mudar exige uma coisa que nem sempre estamos dispostos a oferecer:

admitir que aquilo que sabemos fazer pode deixar de ser suficiente.

É aqui que chegamos à inteligência artificial.

E talvez eu tenha uma autoridade especial para falar sobre isso.

Porque já fui o sujeito da máquina de escrever.

Já fui aquele que olhou para uma inovação e pensou:

“Não preciso disso.”

Por isso, hoje eu faria uma pergunta a quem rejeita a IA simplesmente porque ela é nova:

será que você não está repetindo o meu erro de 1992?

Não estou dizendo que a inteligência artificial seja perfeita.

Não é.

Não estou dizendo que ela deva substituir o pensamento humano.

Muito pelo contrário.

O maior valor da IA talvez esteja justamente naquilo que ela não pode substituir:

a experiência humana.

A sensibilidade.

A intuição.

A criatividade.

A capacidade de interpretar o mundo.

A emoção.

A memória.

A capacidade de decidir o que é importante.

A capacidade de fazer perguntas que uma máquina jamais faria sozinha.

A IA pode produzir respostas.

Mas alguém precisa decidir qual pergunta merece ser feita.

E talvez essa seja a grande diferença entre enxergar a tecnologia como ameaça ou como ferramenta.

Uma ferramenta não precisa necessariamente substituir quem a utiliza.

Ela pode tornar essa pessoa melhor.

Um agricultor com uma máquina não deixa de ser agricultor.

Um fotógrafo com uma câmera melhor não deixa de ser fotógrafo.

Um músico com equipamentos melhores não deixa de ser músico.

Um médico utilizando tecnologia avançada não deixa de ser médico.

Um escritor utilizando inteligência artificial não deixa de ser escritor.

A ferramenta muda.

O ser humano continua sendo o responsável pela obra.

Imagine alguém dizendo, em 2026:

“Eu não quero saber de inteligência artificial. Prefiro fazer tudo como sempre fiz.”

Talvez essa pessoa esteja dizendo exatamente aquilo que eu disse em 1992:

“Prefiro minha velha máquina de datilografar.”

E aqui está a parte engraçada da história.

A máquina de datilografar não desapareceu porque era ruim.

Ela desapareceu porque surgiu uma ferramenta mais adequada às novas necessidades.

Esse é um detalhe importante.

Não precisamos odiar aquilo que está sendo substituído.

Podemos agradecer pelo que aquilo representou.

Minha velha máquina de escrever fez parte da minha história.

Serviu.

Foi importante.

Ajudou.

Mas chegou um momento em que o mundo seguiu adiante.

E eu precisava seguir junto.

Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo agora.

A inteligência artificial não está necessariamente chegando para tirar o lugar do ser humano.

Está chegando para mudar a maneira como o ser humano trabalha.

Ela pode organizar.

Pesquisar.

Comparar.

Resumir.

Criar possibilidades.

Ajudar a escrever.

Ajudar a programar.

Ajudar a analisar.

Ajudar a aprender.

Ajudar a transformar uma ideia embrionária em alguma coisa concreta.

Mas existe uma coisa que continua sendo exclusivamente nossa:

a decisão sobre o que fazer com tudo isso.

Existe ainda uma ironia nisso tudo.

Eu, que fui aquele servidor que resistiu ao computador, hoje estou aqui falando sobre inteligência artificial.

E talvez essa seja a melhor lição que aquela velha máquina de escrever poderia ter me deixado.

Não tenha medo da ferramenta nova.

Tenha medo de parar de aprender.

Porque o problema nunca foi a chegada do computador.

O problema nunca foi a chegada do celular.

O problema nunca foi a chegada da internet.

E o problema não será a inteligência artificial.

O verdadeiro problema será acreditar que o mundo deve permanecer exatamente como era apenas porque nós aprendemos a funcionar nele.

A tecnologia continuará avançando.

Nós podemos acompanhá-la.

Podemos criticá-la.

Podemos estabelecer limites.

Podemos exigir responsabilidade.

Devemos, inclusive, discutir seriamente seus riscos.

Mas não podemos simplesmente fingir que ela não existe.

Porque, quando uma transformação chega, duas coisas podem acontecer:

podemos aprender a utilizá-la ou podemos ser ultrapassados por quem aprendeu.

E talvez seja essa a parte que mais incomoda.

Não é a máquina que ameaça o ser humano.

É o ser humano que se recusa a aprender a utilizar a máquina.

Hoje, quando lembro daquele sujeito de 1992 dizendo que jamais abandonaria sua máquina de datilografar, tenho vontade de encontrá-lo e dizer:

“Meu amigo, você estava enganado.”

Mas, conhecendo aquele sujeito, provavelmente ele responderia:

“Eu sei.”

E talvez completasse:

“Mas naquela época eu não sabia.”

E essa é a grande questão.

Ninguém nasce sabendo lidar com o futuro.

Precisamos aprender.

Experimentar.

Errar.

Perguntar.

Recomeçar.

E continuar.

A velha máquina de datilografar não era inimiga do computador.

Ela apenas pertenceu a uma época.

O computador não é inimigo da inteligência artificial.

Ele também pertence a uma época.

E a inteligência artificial não precisa ser inimiga do ser humano.

Ela pode ser apenas mais uma ferramenta na longa história da nossa capacidade de criar ferramentas.

Talvez daqui a algumas décadas alguém olhe para a tecnologia que hoje consideramos revolucionária e dê risada.

Assim como hoje eu olho para aquela velha máquina de escrever.

E talvez seja exatamente assim que a humanidade avance:

uma ferramenta de cada vez.

Por isso, se existe uma lição que aquele episódio de 1992 me ensinou, é esta:

não precisamos abandonar o passado para abraçar o futuro.

Podemos agradecer ao passado pelo que ele nos ensinou.

E, depois, abrir espaço para aquilo que vem pela frente.

Porque, no final das contas, a velha máquina de datilografar não perdeu seu valor.

Ela apenas perdeu sua utilidade.

E talvez seja aí que esteja a grande diferença entre ser antigo e ficar ultrapassado.

Ser antigo é carregar experiência.

Ficar ultrapassado é acreditar que não precisamos mais aprender.

E eu, que um dia defendi minha velha máquina de escrever com unhas e dentes, aprendi finalmente:

o futuro não pede licença para chegar.

Ele simplesmente chega.

A escolha é nossa:

aprender a utilizá-lo ou virar, nós mesmos, a velha máquina de datilografar esquecida em uma estante qualquer, coberta de pó, enquanto o mundo continua digitando.


Guilherme Quadros

email: gqkonig@hotmail.com

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

One Finger To The Sky - Guilherme Quadros

“One Finger to the Sky” was born from a gesture that went beyond the court and became a symbol of courage, conviction, and freedom — a gesture that Sophie Cunningham had the courage to stand behind when it would have been easier to simply remain silent.

This song is my way of saying to her: some flags do not need to be carried by crowds; all it takes is someone with the courage to raise them, and the world begins to see them.

 

sábado, 15 de agosto de 2026

Quando Denunciar Vira Mais Grave do que Investigar

Existe uma pergunta que deveria ser simples em qualquer democracia:

Quando alguém denuncia possível irregularidade envolvendo dinheiro ou patrimônio público, o que deve ser investigado primeiro: a denúncia ou o denunciante?

A resposta parece óbvia.

Primeiro, verifica-se o fato.

Depois, verifica-se quem denunciou, se necessário.

Mas há momentos em que a lógica parece se inverter.

E quando isso acontece envolvendo uma das mais altas autoridades do sistema de Justiça brasileiro, a questão deixa de ser apenas sobre um episódio específico.

Passa a ser sobre a própria relação entre poder, fiscalização e liberdade de expressão.

Imagine a situação.

Alguém apresenta uma denúncia envolvendo a utilização de veículos oficiais.

Não estamos falando de um carro particular.

Não estamos falando de um bem privado.

Estamos falando de patrimônio público.

E justamente por isso existe uma razão elementar para que qualquer denúncia desse tipo seja examinada com seriedade.

O uso de veículos oficiais não é assunto irrelevante. Há normas administrativas e mecanismos de controle destinados justamente a fiscalizar sua utilização. O próprio Senado já discutiu, em diferentes momentos, restrições e regras para o uso desses veículos por autoridades públicas.

Portanto, se existe uma acusação concreta, a pergunta inicial deveria ser bastante objetiva:

O fato aconteceu ou não aconteceu?

Se não aconteceu, ótimo.

A investigação esclarece.

A denúncia é desmentida.

A reputação do denunciado é preservada.

E a sociedade aprende que os mecanismos de controle funcionam.

Mas, se a resposta institucional começa pela investigação de quem fez a denúncia, alguma coisa muda.

Não necessariamente porque investigar o denunciante seja sempre ilegal ou ilegítimo.

Pode haver falsidade deliberada.

Pode haver difamação.

Pode haver fabricação de provas.

Pode haver abuso.

Tudo isso precisa ser apurado quando houver indícios.

O problema está na inversão da prioridade.

Se o fato denunciado é verificável, por que não começar verificando o fato?

Essa pergunta deveria ser permitida.

Aliás, deveria ser incentivada.

Porque uma democracia saudável não deveria ter medo de uma denúncia.

Deveria ter medo de uma denúncia verdadeira que ninguém quer investigar.

É aqui que a questão ultrapassa o episódio.

Quando um cidadão percebe que questionar uma autoridade poderosa pode colocá-lo imediatamente sob investigação, qual mensagem recebe?

"Denuncie."

Ou:

"Pense bem antes de denunciar."

Essa diferença é gigantesca.

O Estado precisa de mecanismos de controle justamente porque autoridades públicas não podem ser colocadas acima da fiscalização.

Quanto maior o poder de alguém, maior deveria ser sua disposição para prestar contas.

Não menor.

E isso vale para todos.

Presidente.

Ministro.

Senador.

Deputado.

Juiz.

Promotor.

Empresário.

Servidor.

Cidadão comum.

Ninguém deveria possuir um território onde perguntas fossem proibidas.

Muito menos quando essas perguntas envolvem recursos públicos.

Existe ainda uma questão mais delicada.

Uma autoridade pública pode se sentir pessoalmente atingida por uma acusação.

Pode considerar a denúncia injusta.

Pode entender que sua honra foi atacada.

Pode buscar os meios legais disponíveis para sua defesa.

Tudo isso é compreensível.

Mas uma autoridade que ocupa posição capaz de interferir diretamente na vida, nos direitos e no destino jurídico de outras pessoas precisa compreender que o exercício do poder traz consigo uma espécie de preço:

ser permanentemente submetida ao escrutínio público.

Não existe poder absoluto acompanhado de privacidade absoluta.

Quem exerce uma função pública de enorme relevância precisa estar preparado para responder a perguntas desagradáveis.

Não porque seja culpado.

Justamente porque não é a ausência de perguntas que demonstra inocência.

É a capacidade de respondê-las.

Essa talvez seja uma das grandes diferenças entre uma democracia madura e uma democracia fragilizada.

Na primeira, a denúncia provoca investigação.

Na segunda, a denúncia provoca medo.

E quando o medo começa a participar da relação entre cidadão e Estado, a liberdade de expressão já está pagando uma conta alta demais.

Não precisamos transformar denunciantes em heróis.

Nem autoridades em vilões.

Precisamos fazer algo muito mais simples:

investigar os fatos.

Se a denúncia for falsa, que se prove.

Se for verdadeira, que se responsabilize quem praticou a irregularidade.

Se houver má-fé, que se demonstre.

Se houver abuso, que seja punido.

Mas que tudo comece pelo lugar correto:

a busca pela verdade.

Porque existe algo profundamente perigoso em uma sociedade na qual as pessoas começam a acreditar que determinadas autoridades são tão poderosas que o simples ato de questioná-las pode ser mais arriscado do que aquilo que foi denunciado.

Isso cria um efeito silencioso.

As pessoas deixam de denunciar.

Deixam de perguntar.

Deixam de fiscalizar.

Deixam de incomodar.

E, quando ninguém mais incomoda o poder, o poder começa a acreditar que não precisa mais prestar contas.

Talvez seja essa a verdadeira questão por trás de tudo.

Não é sobre carros.

Não é sobre uma autoridade específica.

Não é sequer sobre uma denúncia específica.

É sobre quem fiscaliza quem fiscaliza.

Porque uma democracia não pode funcionar pela lógica:

"Eu tenho poder, portanto você precisa ter cuidado ao me questionar."

A lógica deveria ser exatamente a inversa:

"Eu tenho poder, portanto preciso estar ainda mais preparado para ser questionado."

E talvez esta seja a frase que deveria permanecer depois de toda essa discussão:

Uma autoridade verdadeiramente forte não é aquela que consegue silenciar o denunciante. É aquela que consegue enfrentar a denúncia e sair dela respondendo aos fatos.

No fim, a pergunta permanece.

Quando alguém denuncia possível uso indevido de patrimônio público...

o que deveria preocupar mais uma democracia?

A existência da denúncia?

Ou a possibilidade de que ninguém queira investigar aquilo que foi denunciado?

Talvez a resposta diga muito sobre o país que estamos construindo.