Existe uma diferença enorme entre possuir poder e saber lidar com ele.
O poder amplifica tudo.
Amplifica virtudes.
Mas também amplifica defeitos.
Amplifica a prudência dos equilibrados.
Mas também amplifica a impulsividade dos imprudentes.
Por isso me ocorreu uma imagem ao observar determinadas declarações e comportamentos que dominam o noticiário mundial:
uma criança sem limites brincando em um playground.
Não porque lhe falte inteligência.
Não porque lhe falte energia.
Mas porque parece faltar algo que toda criança precisa aprender desde cedo:
a existência de limites.
O problema é que, quando uma criança ultrapassa os limites de uma brincadeira, normalmente o prejuízo é pequeno.
Quando alguém com enorme influência faz o mesmo, as consequências podem atravessar fronteiras, economias e até vidas humanas.
A história sempre demonstrou que o verdadeiro teste de caráter não acontece quando alguém possui pouco poder.
Acontece quando possui muito.
Porque é justamente nesse momento que surge a tentação de acreditar que todas as vontades devem ser atendidas, todas as opiniões devem prevalecer e todas as consequências podem ser ignoradas.
Nenhuma sociedade está imune a isso.
Nenhum líder está imune a isso.
Nenhum ser humano está imune a isso.
Talvez por esse motivo as instituições, as leis e os freios democráticos sejam tão importantes.
Não porque impeçam a ação.
Mas porque lembram algo fundamental:
ninguém deveria ser maior do que os limites que protegem a convivência coletiva.
No fim, a maturidade não consiste em fazer tudo aquilo que se pode.
Consiste em compreender aquilo que não se deve fazer, mesmo quando se tem poder para fazê-lo.
E talvez seja exatamente essa a diferença entre um líder e uma criança no playground.
A criança acredita que o espaço existe para satisfazer seus desejos.
O líder compreende que o espaço existe para ser compartilhado com os outros.