Mas cada pessoa é, na verdade, um mundo inteiro em funcionamento.
Dentro de qualquer ser humano coexistem memórias, traumas, sonhos abandonados, medos nunca confessados, desejos contraditórios, crenças herdadas, cicatrizes invisíveis e pequenas vitórias que ninguém aplaudiu. Um universo íntimo, complexo, em constante expansão — ou colapso.
E, ainda assim, nos acostumamos a atravessar pessoas como quem atravessa ruas: com pressa, distração e indiferença.
O problema de enxergar só a superfície
Isso não justifica comportamentos ruins — mas explica contextos. E compreender contexto é o primeiro passo para não transformar o mundo num campo permanente de batalha entre universos que se recusam a se reconhecer.
O choque de mundos é a regra, não a exceção
Quando duas pessoas conversam, não são apenas duas opiniões que se encontram. São dois sistemas solares de valores, medos, experiências e leituras de mundo tentando ocupar o mesmo espaço simbólico.
Em tempos de polarização, essa colisão se intensifica. As pessoas não brigam mais por ideias; brigam pela sobrevivência simbólica do mundo que construíram dentro de si. E quando esse mundo se sente ameaçado, a reação quase sempre é fechar fronteiras, erguer muros e declarar o outro como inimigo.
O que se perde quando não reconhecemos universos?
Talvez uma das maiores urgências do nosso tempo não seja aprender a falar melhor — mas aprender a olhar mais fundo. Olhar alguém e reconhecer: aqui existe um mundo que não é o meu. E isso, por si só, já é um exercício radical de convivência.
O convite desta série
Porque quando reduzimos alguém a um rótulo, não estamos apenas sendo injustos com o outro — estamos empobrecendo o nosso próprio universo interior.