segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O Império da Insistência: quando o barulho vence a razão

Há uma sensação difusa — e cada vez mais difícil de ignorar — de que o mundo ficou… chato.
Não chato no sentido do tédio criativo, mas no sentido mais perigoso: o da empobrecedora repetição de ideias ruins que se impõem não por mérito, mas por exaustão.

Vivemos um tempo em que a sensatez perdeu fôlego.
Não porque esteja errada — mas porque cansa.

A lógica virou esforço.
A ponderação virou fraqueza.
A dúvida virou pecado.

E nesse terreno fértil para o simplismo, prospera um tipo específico de personagem histórico: o persistente agressivo.

A vitória não é do melhor argumento — é do mais insistente

Os idiotas — no sentido clássico da palavra, aqueles incapazes de pensar além do próprio umbigo — não vencem debates porque têm razão.
Vencem porque não desistem.

Eles repetem.
Repetem de novo.
E repetem mais uma vez.

Não refinam ideias.
Não revisam premissas.
Não aprendem.

A persistência, quando divorciada da inteligência, torna-se uma arma brutal.
E quando combinada com agressividade, vira método político, social e cultural.

A pessoa sensata, ao contrário, pondera.
Pesa consequências.
Reconhece nuances.
Cansa de explicar o óbvio para quem não quer compreender.

E então recua — não por derrota, mas por lucidez.

Só que o mundo atual não recompensa lucidez.
Recompensa volume.

A agressividade virou argumento

Em algum momento recente da história, confundimos convicção com gritaria.
Quem fala mais alto parece mais certo.
Quem xinga mais parece mais verdadeiro.
Quem ataca primeiro parece mais forte.

A opinião deixou de ser construção — virou ataque preventivo.

E assim, o espaço público foi tomado por gente que não quer convencer, quer submeter.
Não quer dialogar, quer vencer.
Não quer pensar, quer impor.

A agressividade passou a valer mais que a coerência.
E a persistência, mais que a inteligência.

O cansaço dos sensatos é a grande vantagem dos imbecis

Talvez a maior tragédia do nosso tempo não seja a ascensão dos imbecis — isso sempre aconteceu em ciclos históricos.
A tragédia é o cansaço moral dos sensatos.

Cansa explicar.
Cansa corrigir.
Cansa alertar.
Cansa dizer “isso não funciona” para quem prefere acreditar.

Enquanto isso, o imbecil não cansa.
Ele não reflete.
Ele não duvida.
Ele não sofre com complexidade.

E vence por inércia.

Não porque seja mais capaz — mas porque ocupa todos os espaços deixados vazios por quem desistiu de discutir com paredes.

Quando a mediocridade vira maioria organizada

Existe um momento crítico em toda sociedade: aquele em que a mediocridade deixa de ser ruído e passa a ser sistema.

Quando ideias rasas se organizam.
Quando slogans substituem pensamento.
Quando a persistência burra se transforma em “movimento”.
Quando a agressividade vira identidade.

Nesse ponto, não é mais debate.
É ocupação.

E sim — nesse cenário, os idiotas tomam conta do negócio.
Não porque são geniais.
Mas porque ninguém os enfrenta até o fim.

O perigo não é eles vencerem — é normalizarmos a derrota da razão

O risco maior não é viver sob o domínio dos barulhentos.
É aceitar que isso é o novo normal.

É rir, ironizar e seguir em frente.
É dizer “deixa pra lá”.
É tratar estupidez organizada como folclore.
É achar que não vale mais a pena argumentar.

Porque quando a razão abandona o campo, alguém sempre ocupa o espaço — e nunca é alguém melhor.

A história ensina isso com brutal clareza:
não é o mais forte que vence.
Nem o mais inteligente.
Nem o mais justo.

É o mais insistente quando ninguém resiste.

Talvez o mundo esteja chato porque pensar dá trabalho

Pensar exige pausa.
Exige dúvida.
Exige humildade.

Gritar, não.
Repetir, não.
Atacar, não.

O mundo ficou chato porque o esforço intelectual perdeu valor.
E quando o esforço perde valor, o raso vira padrão.

A pergunta que fica não é se os idiotas vão dominar — isso eles sempre tentam.
A pergunta real é:

até quando os sensatos vão achar que não vale a pena resistir?

sábado, 24 de janeiro de 2026

O PODER E SEUS INIMIGOS INVISÍVEIS

Por que quem cai raramente cai pelas mãos do mais forte

Diz a experiência — e não os livros de autoajuda — que quanto maior o poder, maior o número de inimigos. Mas essa é apenas a parte visível da história, aquela que conforta o ego de quem ascende: imaginar que todos os opositores são declarados, barulhentos, previsíveis.

A verdade é outra.
O poder não cria apenas inimigos. Ele cria silêncios perigosos.

Quanto mais alto alguém sobe, mais vozes deixam de confrontar e passam a concordar. Não porque concordem de fato, mas porque o custo da discordância se torna alto demais. E é nesse exato ponto que o poder começa a apodrecer por dentro.

O inimigo mais perigoso não é o mais forte.
É o que observa em silêncio.
É o que sorri enquanto toma nota.
É o que aplaude enquanto espera.

Na história dos impérios, dos governos, das empresas e até das relações humanas, raramente a queda vem de um confronto direto. Reis não caem porque enfrentaram um exército maior, mas porque confiaram demais nos que estavam ao seu lado. Líderes não fracassam por falta de força, mas por excesso de certeza.

O poder cria um campo magnético estranho: ele afasta os sinceros e atrai os oportunistas. Quem fala a verdade vai embora cedo. Quem fica, aprende a falar o que agrada. E quando todos ao redor dizem “sim”, o erro deixa de ser corrigido e passa a ser cultivado.

É aí que o poder começa a confundir respeito com medo, lealdade com conveniência, silêncio com apoio.

O mais forte se anuncia.
O inimigo oculto se adapta.

Ele não disputa espaço, não ergue bandeiras, não declara guerra. Ele apenas espera o momento exato em que o poderoso estará isolado, cercado apenas de espelhos — e então empurra. Às vezes com uma palavra, às vezes com uma ausência, às vezes apenas deixando de sustentar aquilo que sempre pareceu sólido.

E quando a queda acontece, o poderoso costuma se perguntar:
“Como isso foi possível?”

Foi possível porque o poder cega.
E a cegueira sempre antecede a queda.

Por isso, quanto mais poder alguém acumula, mais deveria investir em algo raro: escuta real. Cercar-se de quem discorda. Proteger quem alerta. Valorizar quem não se curva. Porque o maior luxo do poder não é mandar — é ainda conseguir ouvir.

No fim, não é o mais forte que derrota quem está no topo.
É o mais paciente.
O mais silencioso.
O que entendeu que o poder, quando não é vigiado pela humildade, cava a própria armadilha.

E a história é implacável em repetir a mesma lição:

O poder não cai por ataque frontal. Cai por dentro.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

REINO UNIDO DEVERIA RECOMPRAR OS ESTADOS UNIDOS E REESCREVER A HISTÓRIA.

O Reino que Esqueceu de Ler o Contrato

Havia um tempo em que um império decidiu vender parte de si mesmo.
Não por fraqueza militar, nem por derrota estratégica — mas por cansaço administrativo, dívidas acumuladas e a arrogância típica de quem acredita que sempre poderá reescrever o futuro depois.

Chamaram aquela venda de independência.
Mas contratos, mesmo os históricos, não deixam de existir só porque alguém passa a contar a história de outro jeito.

O Reino Unido assinou papéis, entregou terras, soltou as rédeas e virou as costas. Do outro lado do oceano, nasceu um novo reino que jurava nunca mais se submeter a coroas, tradições ou velhos códigos. Um reino jovem, barulhento, armado de liberdade — e de amnésia seletiva.

O problema começou quando o herdeiro passou a agir como se tivesse inventado tudo sozinho.

A criança que cresceu sem tutor

O novo reino cresceu rápido.
Muito rápido.

Construiu cidades, ergueu impérios econômicos, produziu armas, narrativas e mitologias próprias. Convenceu o mundo de que era o ápice da civilização moderna — mesmo tendo herdado idioma, leis, instituições e até o conceito de democracia do velho reino que fingia desprezar.

Era como um filho que nega o pai, mas exige a herança completa.

Com o tempo, passou a se comportar como tutor do mundo:
decidia quem era vilão, quem era aliado, quem merecia sanção, quem precisava ser “libertado”. Vendia guerras embaladas como democracia, interesses travestidos de valores universais.

E o velho Reino Unido observava, entre constrangido e cúmplice, aquele experimento fora de controle.

A ironia do século

Até que alguém, em um salão silencioso da História, fez a pergunta proibida:

E se o Reino Unido resolvesse recomprar os Estados Unidos?

Não por nostalgia.
Não por imperialismo.
Mas por responsabilidade histórica.

Talvez fosse hora de revisar o contrato.

Porque o filho crescera, sim — mas crescera sem maturidade proporcional ao poder que carregava. Aprendera a falar alto antes de aprender a escutar. Aprendera a impor antes de compreender. Aprendera a intervir antes de refletir.

Era um gigante com comportamento de adolescente.

Reescrever a história não é apagá-la

Recomprar, nessa fábula, não significa anexar territórios ou hastear bandeiras.
Significa reassumir a memória.

Significa lembrar ao mundo — e principalmente ao herdeiro — que nenhuma potência nasce do nada. Que toda grandeza vem acompanhada de responsabilidade, limites e autocontenção. Que civilização não é apenas força econômica ou militar, mas capacidade de convivência, diálogo e humildade histórica.

Talvez, sob tutela simbólica, o jovem reino fosse obrigado a reaprender coisas básicas:

  • que o mundo não gira ao redor de um único eixo;

  • que diversidade cultural não é ameaça;

  • que poder sem autocrítica vira caricatura;

  • que liberdade sem freio vira dominação.

O tutor que também errou

Claro — o Reino Unido não é inocente nessa fábula.
Foi ele quem ensinou boa parte das regras do jogo. Foi ele quem colonizou, explorou, dividiu mapas com régua e arrogância. Mas também foi ele quem aprendeu, a duras penas, que impérios caem quando se recusam a evoluir.

Talvez por isso estivesse mais apto, agora, a dizer ao antigo pupilo:
Menos barulho. Mais leitura da história.

Porque reescrever a história não é negar erros.
É parar de repeti-los com bandeiras diferentes.

O mundo como fiador

Nesta fábula, quem paga o preço da imaturidade não são apenas os dois reinos. É o mundo inteiro — sempre fiador involuntário das aventuras do poder.

Recomprar os Estados Unidos, portanto, é apenas uma metáfora.
Uma provocação.

O que realmente precisa ser recomprado é:

  • o senso de limite,

  • a memória histórica,

  • a noção de que nenhum país é o “adulto da sala” por decreto.

Porque quando um reino acredita que pode escrever a história sozinho, o resultado nunca é literatura.
É sempre tragédia.

E talvez esteja na hora de alguém, com ironia britânica e chá frio sobre a mesa, dizer:

Calma. Vamos reler esse contrato juntos.

Pancho, o Zorrilho do Alegrete

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

NO CONSELHO DA PAZ, O TRONO É DO SENHOR DA GUERRA - Parte 02

Dizem que, em um tempo não muito distante, uma cidade cansou do som das batalhas.
O ruído das espadas, dos gritos e dos discursos inflamados já não assustava — apenas cansava. E quando o cansaço vence o medo, nasce o desejo pela paz.

Então os sábios da cidade reuniram-se para criar o que chamaram de Conselho da Paz.

O nome era belo.
Soava como água correndo entre pedras.
Parecia promessa.

Mas havia um detalhe.

Para presidir o conselho, escolheram aquele que mais entendia de guerra.

O homem que dominava o conflito

Era um homem experiente.
Conhecia o som das armas, o peso das ordens e a eficiência do confronto. Sabia vencer. Não sabia perder. Sabia impor.

Quem melhor para conduzir a paz do que aquele que conhece a guerra? — disseram.

E assim, o Senhor da guerra sentou-se à cabeceira da mesa onde se falaria de silêncio.

A paz tratada como estratégia

O conselho se reunia em uma sala clara, com paredes limpas e palavras bonitas. Falava-se de harmonia, equilíbrio e futuro. Mas sempre que alguém propunha escuta, o presidente respondia com planos.
Quando alguém sugeria pausa, ele oferecia ação.
Quando alguém pedia diálogo, ele apresentava controle.

A paz ali não era um caminho — era um objetivo administrativo.

Algo a ser alcançado.
Medido.
Gerenciado.

Como se a paz fosse um território a conquistar, e não um estado a cultivar.

O problema não era o homem — era o método

O Senhor da Guerra não era cruel.
Era apenas fiel à única língua que aprendera.

E essa é a armadilha silenciosa:
ninguém colhe aquilo que não sabe cultivar.

Ele falava de paz como quem fala de cessar-fogo.
Mas paz não é ausência de tiros.
É presença de escuta.

Ele falava de ordem como quem fala de disciplina.
Mas paz não nasce da obediência.
Nasce do reconhecimento.

O espelho quebrado

Certo dia, uma criança entrou na sala do conselho e perguntou:

Se a paz é silêncio, por que ela grita tanto aqui dentro?

Ninguém respondeu.

Porque algumas perguntas não pedem resposta — pedem mudança.

E ali ficou evidente o que ninguém ousava dizer:
colocar o guardião da guerra para conduzir a paz não era incoerência.
Era medo disfarçado de pragmatismo.

Medo de confiar.
Medo de ouvir.
Medo de perder o controle.

A lição que ficou

A cidade aprendeu, tarde demais, que paz não é o oposto da guerra.
É o oposto da lógica que cria a guerra.

Enquanto a paz for conduzida pelos que só conhecem o confronto, ela será apenas um intervalo — nunca um destino.

Porque não se aprende silêncio com quem vive do ruído.
Não se aprende escuta com quem sempre ordenou.
E não se constrói paz usando as mesmas mãos que nunca largaram a espada.

E assim ficou escrito na memória da cidade:

A paz não precisa de estrategistas.
Precisa de jardineiros.

E jardineiros não vencem guerras.
Eles cuidam da vida.

Criar o “Conselho da Paz” Presidido pelo “Senhor da Guerra”: Onde Está o Viés Coerente Disso? - Parte 01

Há ideias que nascem contraditórias.
Outras nascem irônicas.
E há aquelas que parecem ter sido criadas apenas para testar até onde vai a nossa capacidade de aceitar absurdos com naturalidade.

Criar um “Conselho da Paz” presidido pelo “Senhor da Guerra” pertence claramente a essa terceira categoria.

Não se trata de uma provocação literária nem de uma metáfora mal compreendida. Trata-se de uma inversão simbólica tão gritante que deveria, no mínimo, causar desconforto coletivo. Mas não causa. E isso talvez seja o ponto mais preocupante.

A paz como ornamento, não como princípio

A palavra paz virou um objeto decorativo no discurso público. Serve para nomear conselhos, comissões, programas e slogans — independentemente de quem os lidera ou do histórico de quem os formula.

Quando um personagem cuja trajetória é marcada por confrontos, escaladas de tensão, retórica beligerante ou ações de força passa a ser o guardião institucional da paz, algo está profundamente desalinhado. Não apenas no campo ético, mas no campo lógico.

Paz não é um cargo.
Paz é um método.
Paz é coerência entre discurso e prática.

O problema não é a pessoa — é o símbolo

Alguns dirão: “Mas pessoas mudam”.
É verdade. Podem mudar. Devem mudar.

Mas símbolos não mudam com a mesma facilidade.

Ao colocar o “Senhor da Guerra” no centro de um organismo que deveria mediar conflitos, prevenir violência e promover diálogo, o Estado — ou a instituição que o faz — envia uma mensagem clara, ainda que não intencional:

A paz não precisa ser construída, apenas administrada.

E isso é falso.

A paz exige escuta.
Exige renúncia.
Exige limites.
Exige, muitas vezes, silêncio onde antes só havia imposição.

A banalização da contradição

Vivemos uma era em que contradições já não chocam — elas apenas passam.
Ministros que não entendem da área que comandam.
Órgãos de controle liderados por quem sempre rejeitou controle.
Conselhos de ética presididos por quem fez carreira no conflito.

Tudo isso se normaliza sob o argumento da “governabilidade”, da “estratégia” ou do “pragmatismo”.

Mas pragmatismo sem coerência vira cinismo institucional.

Paz não se decreta, se pratica

Um Conselho da Paz deveria ser, antes de tudo, um espaço de escuta plural, de mediação real, de construção paciente. Seu presidente deveria carregar, no mínimo, um histórico de diálogo, contenção e respeito à divergência.

Caso contrário, o conselho nasce condenado a ser apenas uma peça de retórica — um verniz civilizatório sobre estruturas que continuam operando pela lógica da força.

A pergunta que fica

Talvez a pergunta mais honesta não seja “onde está a coerência?”, mas outra, mais incômoda:

👉 Será que realmente queremos a paz — ou apenas a aparência dela?

Porque quando a paz vira palco, o poder vira protagonista.
E quando isso acontece, o conflito não desaparece — apenas muda de endereço.

E quase sempre, retorna mais violento.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Agressão ao Jogador Perdigão em Curitiba: Quando o Uso da Força Precisa Ser Explicado

O caso Perdigão, a violência explícita e o silêncio que não protege ninguém

As imagens que circularam nos últimos dias, mostrando o atleta conhecido como Perdigão sendo violentamente agredido por um policial em Curitiba, não chocam apenas pela brutalidade do ato — chocam pelo que elas simbolizam: o momento exato em que a autoridade deixa de representar o Estado e passa a agir como indivíduo armado, sem freios visíveis.

Não se trata aqui de defender ou condenar previamente.
Não se trata de absolver comportamentos inadequados de cidadãos, nem de demonizar toda uma corporação.
Mas se trata, sim, de algo essencial: quando a força do Estado é usada, ela precisa ser explicada. Sempre.

O afastamento imediato do policial, assim como a manifestação do governador, são gestos institucionais corretos. Mas são gestos iniciais, não conclusivos. A sociedade viu as imagens. A sociedade reagiu. A sociedade, agora, espera respostas mais profundas do que notas protocolares.

Porque há uma pergunta que ecoa e não pode ser ignorada:
👉 O que levou um agente do Estado a agir daquela forma?

E há outra, ainda mais sensível:
👉 Qual é a versão oficial da corporação sobre o episódio?

Até agora, ouvimos condenações políticas, análises jurídicas, julgamentos nas redes sociais. Mas a voz institucional da Polícia Militar — clara, técnica, transparente — ainda é aguardada. Não para blindar ninguém, mas para proteger a própria instituição, que não pode ser refém do erro individual nem do silêncio corporativo.

A polícia existe para conter, proteger e restaurar a ordem — não para humilhar, punir ou extravasar emoções. Quando um policial perde o controle, não é só um cidadão que apanha: é a credibilidade da farda que sangra.

E é justamente por respeito aos milhares de profissionais que atuam corretamente todos os dias que episódios assim precisam ser tratados com luz, não com sombra.

Queremos ouvir:

  • O que diz o policial envolvido?

  • Qual foi o contexto real da abordagem?

  • Quais protocolos foram quebrados?

  • Que medidas corretivas serão adotadas?

  • E, principalmente, o que será feito para que isso não se repita?

Silêncio não pacifica.
Silêncio não protege.
Silêncio só alimenta desconfiança.

Se o Estado exige confiança da população, ele precisa, antes, prestar contas quando erra. A autoridade não se impõe pela força bruta, mas pela legitimidade.

E legitimidade só existe onde há transparência, responsabilidade e humanidade.

O caso Perdigão não é apenas um episódio isolado. É um teste.
Um teste de maturidade institucional.
E um teste de compromisso com aquilo que sustenta qualquer democracia: o poder que responde por seus atos.

O Poder que Ensandece

Há fenômenos humanos que não precisam de manual de instrução — basta observar e esperar. O poder é um deles. Ele entra pela porta como ferramenta, mas, se não houver freio interno, sai pela janela como delírio.

O poder em si não tem cor, país ou ideologia. É apenas energia concentrada num único ponto. O problema começa quando essa energia passa a girar no mesmo eixo que a vaidade. E é aí que o ser humano se torna um laboratório curioso: quanto mais alta a posição, mais tênue fica a fronteira entre lucidez e megalomania.

A racionalidade costuma sussurrar.
A vaidade, ao contrário, grita.

E é nesse grito que o poder encontra terreno fértil. O indivíduo que antes buscava objetivos concretos — resolver crises, construir, mediar, negociar — de repente passa a buscar outra coisa: ser visto, ser reverenciado, ser indispensável.

A partir daí, a lógica muda:

  • decisões deixam de ser técnicas e passam a ser emocionais,

  • conselhos deixam de ser bem-vindos e passam a ser ameaça,

  • aliados deixam de ser parceiros e viram plateia,

  • e qualquer crítica, por mais sutil, vira afronta.

O curioso é que o poder raramente enlouquece sozinho. Ele faz isso em dupla com a vaidade. Um alimenta o outro até que, em algum momento, a razão fica na arquibancada vendo o espetáculo acontecer.

Historicamente, o roteiro se repete:
o líder começa equilibrado, mas com o tempo passa a acreditar que não erra, não falha, não recua — e que tudo o que pensa é, por definição, certo. Não importa se o mundo inteiro discorda; para ele, o mundo está errado.

A insanidade, nesse contexto, não se apresenta como loucura clássica. Ela se apresenta como convicção absoluta. É esse o detalhe mais perigoso.

A insanidade do poderoso é silenciosa no começo.
Depois se torna barulhenta.

E quando o poder encontra o estágio final — aquele em que ninguém à volta se atreve a dizer “não” — o processo está completo. O líder já não governa: administra a própria narrativa.

Por isso, o velho ditado segue atual:
não existe teste de caráter melhor que o poder.

A insanidade, quando nasce nas margens, é apenas tragicômica.
Quando nasce no topo, custa caro.

E a História, sempre muito paciente, coleciona esses episódios com precisão de arquivista. Observa, anota e guarda para o capítulo final — aquele em que o homem passa, mas o registro fica.

Esse editorial termina com uma ironia amarga: o poder que ensandece não é apenas o poder que foi tomado… é também o poder que foi concedido. Alguém entregou. Alguém aplaudiu. Alguém achou que era uma boa ideia.

E, como sempre, a conta chega.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Quando o "Ser" é Insano, Tem Complexo de Superioridade, o Poder em Suas Mãos e Ainda Avisa Que Irá Invadir a tua “Casa”

Há um tipo específico de criatura humana que as páginas da História insistem em reciclar: aquela figura que une três elementos perigosos — insanidade disfarçada de genialidade, complexo de superioridade elevado à categoria de crença, e poder real o suficiente para transformar devaneio em tragédia.

Esse personagem, quando existe, não se contenta em ter poder; ele precisa exibir, provar e testar o poder, como quem coloca o dedo na tomada para ver se realmente dá choque. E o pior: às vezes, dá.

Para tornar o enredo completo, falta apenas um ingrediente final: anunciar abertamente suas intenções.
Não basta ter autoridade, não basta ter ambição, não basta ter histórico. Ele faz questão de avisar que irá invadir a tua “casa”, metafórica ou literal, porque dentro do próprio imaginário ele acredita que a “casa do outro” sempre foi sua.

É aí que a insanidade encontra a megalomania e dá match.

E o mais irônico? Ele sempre encontra plateia. Há quem aplauda, há quem relativize, há quem diga que é apenas uma fase, uma estratégia, uma negociação, uma bravata diplomática. Foi sempre assim: quando um louco sobe ao palco, nunca sobe sozinho. Sempre existe quem lhe empreste o microfone.

Enquanto isso, aquele que deveria se preocupar — o dono da “casa” — fica entre o riso nervoso, o medo real e o sentimento de que algo muito errado está acontecendo, mas ninguém quer admitir. Afinal, aceitar a loucura do outro exige enfrentar a própria covardia.

O enredo é velho:

  • as alianças se movem,

  • os vizinhos fingem neutralidade,

  • os comentaristas escrevem tratados acadêmicos,

  • os otimistas dizem que “não vai acontecer nada”,

  • e os historiadores suspiram porque já viram esse filme — mais de uma vez.

A lição é simples: o perigo maior não é o louco com poder. O perigo maior é o louco com poder que avisa o que vai fazer e mesmo assim ninguém leva a sério.

Talvez a humanidade precise aprender que, quando alguém anuncia que vai invadir tua casa, não se trata de metáfora, nem de brincadeira, nem de diplomacia performática.
É um teste.
E testes, quando não respondidos, viram fatos.

No fim das contas, a pergunta que fica não é sobre o insano que ameaça.
A pergunta que pesa é: quem permitiu que "alguém" assim chegasse tão longe?

Porque loucos sempre existiram.
O que não deveria existir é plateia, aplauso e silêncio.